«Vigilate ergo»: Mônica, a vigília das mães e o servo fiel

Vigilate ergo, quia nescitis qua die Dominus vester venturus sit. […] Fidelis Deus, per quem vocati estis in societatem Filii eius Iesu Christi Domini nostri.
Mt 24,42 e 1Cor 1,9
A quinta-feira da Semana XXI do Tempo Comum, em que a Igreja faz memória de santa Mônica, coloca lado a lado duas afirmações que se sustentam mutuamente. Paulo abre a primeira carta aos coríntios agradecendo por uma comunidade que ainda não corrigiu nenhum dos seus defeitos, e funda esse agradecimento não na virtude dos destinatários mas em Deus: «fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão com seu Filho» (v.9). Jesus, por sua vez, exige do discípulo a vigilância do servo que administra a casa na ausência do senhor. A fidelidade de Deus não dispensa a vigilância do fiel. Fundamenta-a.
I. A primeira leitura: 1Cor 1,1-9
O exórdio da carta é uma peça de retórica pastoral admirável. Paulo escreve a uma comunidade dividida, moralmente frágil e desordenada nas suas assembleias, e as primeiras palavras que lhe dirige são de ação de graças. Chama-lhes «santificados em Cristo Jesus, chamados à santidade» (v.2). Não é elogio nem estratégia. É teologia: a santidade dos coríntios não é uma conquista deles, é um estado no qual foram colocados por um ato de Deus, e é a partir desse estado que a correção poderá depois ser exigida.
O centro do trecho está na densidade do último versículo: «fiel é Deus». Toda a esperança que Paulo deposita naquela comunidade instável assenta ali. Ele afirma que Deus «vos tornará firmes até ao fim» (v.8), e afirma-o sem ilusões sobre o material humano com que Deus trabalha. A fidelidade divina não é a promessa de que nada correrá mal, é a garantia de que a iniciativa que começou não será abandonada a meio. O fiel não é chamado a produzir a própria firmeza. É chamado a não sair do lugar onde essa firmeza lhe é dada.
II. O evangelho: Mt 24,42-51
O discurso escatológico de Mateus passa aqui do anúncio à exortação prática. «Vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor» (v.42). A imagem do dono da casa e do ladrão nocturno serve para dizer uma coisa apenas: a hora é desconhecida e essa ignorância é permanente, não provisória. Quem espera saber a data está a esperar aquilo que nunca lhe será dado.
A segunda parte do trecho traduz a vigilância em termos concretos e desfaz qualquer equívoco espiritualista. O servo fiel e prudente não é o que fica à janela a olhar para o horizonte, é o que continua a dar «o alimento em tempo oportuno» (v.45) aos companheiros de casa. Vigiar é permanecer no serviço. E o servo mau não é apresentado como alguém que perdeu a fé na volta do senhor, mas como alguém que a adiou: «o meu senhor demora-se» (v.48). O adiamento é o começo da violência que se segue. Quem empurra o encontro para longe começa logo a tratar mal os que estão perto.
III. Mônica: a vigília que durou uma vida inteira
A memória de santa Mônica (332-387) cai neste dia com uma precisão que a liturgia não planeou mas que o fiel faz bem em notar. Ela é a figura exata do servo que não disse «o meu senhor demora-se». Acompanhou o filho de Tagaste a Cartago, de Cartago a Roma, de Roma a Milão, e orou por ele durante os anos em que Agostinho lhe dava todos os motivos para desistir. A tradição guardou a resposta do bispo que a consolou, segundo o próprio Agostinho, dizendo-lhe que era impossível que perecesse o filho de tantas lágrimas (AGOSTINHO. Confissões III,12,21).
O que Mônica ensina não é a intensidade do sentimento materno, que ninguém precisa de aprender. É a estrutura da espera cristã. Ela não conheceu o dia nem a hora, e continuou a servir. A vigilância que Jesus pede não se mede pela ansiedade de quem aguarda, mede-se pela constância de quem permanece útil enquanto aguarda. Toda a intercessão que persevera repousa sobre a mesma afirmação de Paulo: se Deus é fiel, então a oração de anos não é tempo perdido, é tempo entregue.
IV. Maria, a serva que vigia
Há uma linha que atravessa a Escritura ligando a vigilância ao serviço, e Maria está no ponto onde as duas se encontram. Ela nomeia-se a si mesma «a serva do Senhor» (Lc 1,38), usando a palavra que Jesus emprega na parábola de hoje para descrever aquele a quem a casa é confiada. A serva de Nazaré é o servo fiel e prudente antes de a parábola ser contada. Recebeu a casa, guardou a Palavra, e continuou a servir sem saber o dia nem a hora daquilo que lhe fora anunciado.
A vigilância de Maria tem uma duração que assusta quando se pensa nela. Do anúncio do anjo até à Cruz, ela conservou fielmente a sua união com o Filho e avançou «na peregrinação da fé» (LG 58), sem que nenhum dos acontecimentos lhe explicasse antecipadamente os seguintes. Lucas anota duas vezes que ela «guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração» (Lc 2,19.51), que é a definição mais exata de vigilância que a Escritura oferece. Não é olhar para fora à espera de sinais. É guardar por dentro aquilo que ainda não se entende.
Depois da Ascensão, o livro dos Atos encontra-a no Cenáculo, «perseverando na oração com um mesmo coração» juntamente com os Apóstolos (At 1,14). É a última cena bíblica em que ela aparece, e é uma cena de vigília. A Igreja que espera o Espírito espera com ela, e é por isso que o Concílio pode dizer que Maria precede a Igreja como sinal de esperança segura e de consolação para o povo de Deus em marcha (LG 68). Mônica esperou pelo filho durante quase toda a vida dele, e morreu poucos meses depois de o ver batizado. Maria esperou por uma hora que ninguém lhe tinha datado, e esteve lá quando ela chegou.
A quinta-feira da Semana XXI deixa portanto uma única exigência, e ela não é sentimental. Vigiar é continuar a dar o alimento em tempo oportuno, mesmo quando o senhor tarda e ninguém verifica o trabalho. A fidelidade de Deus é o que torna essa perseverança razoável. Maria e Mônica são o que a torna imitável.
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