«Vinum novum»: odres novos, o juízo antecipado e Maria cheia de graça

«Castigo corpus meum»: a disciplina apostólica e Maria sede da sabedoria

Sic nos existimet homo ut ministros Christi et dispensatores mysteriorum Dei. […] Sed vinum novum in utres novos mittendum est.
1Cor 4,1 e Lc 5,38

A sexta-feira da Semana XXII do Tempo Comum une duas advertências sobre a mesma tentação, a de reduzir Deus àquilo que já sabemos de Deus. Paulo define o apóstolo como «administrador dos mistérios» e recusa-se a ser julgado antes do tempo, seja pelos coríntios, seja por si próprio. Jesus responde à objeção sobre o jejum com três imagens, o noivo presente, o remendo novo e o vinho novo, e termina com a frase mais desconcertante do trecho: «o velho é que é bom» (v.39). A novidade da graça não cabe nas formas anteriores, e a maior parte das pessoas prefere as formas anteriores.

I. A primeira leitura: 1Cor 4,1-5

A definição de ministério que Paulo propõe é de uma sobriedade que o tempo não gastou. O apóstolo é hypéretes, o subordinado que executa as ordens de outro, e é «administrador dos mistérios de Deus» (v.1). Nenhuma das duas palavras admite propriedade. O administrador gere aquilo que não lhe pertence, e a única coisa que dele se exige é a fidelidade: «o que se requer nos administradores é que sejam fiéis» (v.2). Não o sucesso, não a aprovação, não os resultados mensuráveis.

Daí a liberdade estranha da frase seguinte. Paulo declara que pouco lhe importa ser julgado pelos coríntios ou por um tribunal humano, e acrescenta algo que costuma passar despercebido, «nem sequer me julgo a mim próprio» (v.3). Ele desconfia tanto do tribunal alheio como do seu. E explica porquê com uma precisão que atravessou toda a teologia da graça: «de nada me acusa a consciência, mas não é por isso que estou justificado» (v.4). A consciência tranquila não é prova de inocência, porque o critério final não está dentro de nós. Quem julga é o Senhor, e o seu juízo espera a hora em que o oculto será iluminado.

II. O evangelho: Lc 5,33-39

A objeção dos fariseus é razoável e por isso é perigosa. Os discípulos de João jejuam, os deles também, e os de Jesus comem e bebem. A resposta desloca a questão do plano da disciplina para o plano da cristologia: «quereis vós obrigar a jejuar os companheiros do noivo enquanto o noivo está com eles?» (v.34). O critério do jejum não é uma regra fixa, é a presença ou a ausência do noivo. E Jesus acrescenta, com uma serenidade que já contém a Paixão, «dias virão em que o noivo lhes será tirado» (v.35).

As duas parábolas que se seguem dizem a mesma coisa por imagens domésticas. O remendo de tecido novo estraga as duas peças. O vinho ainda em fermentação rompe o odre que já perdeu a elasticidade. Em ambos os casos o problema não é o novo nem o velho em si, é a tentativa de meter um dentro do outro sem que nada mude. A frase final é o retrato psicológico de quem resiste: «quem beber do vinho velho não quer do novo, pois diz: o velho é que é bom» (v.39). Não se trata de má vontade. Trata-se de paladar formado, e o paladar formado é a resistência mais difícil de vencer, porque nem se apresenta como resistência.

III. O julgamento antecipado e o odre endurecido

As duas leituras convergem num ponto que interessa sobretudo a quem serve na Igreja. Julgar antes do tempo, que Paulo proíbe, e preferir o vinho velho, que Jesus diagnostica, são a mesma operação vista de dois ângulos. Em ambos os casos fecha-se a questão antes de Deus a ter fechado. Quem já sabe o que Deus vai fazer não precisa de esperar por Deus.

O odre endurecido é uma imagem do coração que se organizou definitivamente em torno de uma forma de piedade e deixou de admitir que a graça se manifeste noutro registo. Isso pode acontecer com práticas boas, e é essa a subtileza da parábola. O jejum dos fariseus não era mau. Era autêntico, exigente, custoso. Simplesmente não era o critério, e eles tinham-no transformado em critério. Toda a vida espiritual conhece este risco de tomar o meio pelo fim, e a única defesa é aquela que Paulo indica, adiar o juízo e continuar fiel na administração daquilo que não é nosso.

IV. Maria, o odre novo

Se o vinho novo exige odres novos, então a mariologia tem aqui uma das suas afirmações mais densas. Aquilo que Deus quis dar ao mundo não podia ser depositado em nenhuma forma anterior, e por isso preparou uma capacidade nova. Maria é, na ordem da graça, o odre que Deus fez para o vinho que ia derramar. Não recebeu o Filho apesar de ser uma criatura como as outras, recebeu-o numa condição preparada para isso.

É esse o sentido do nome que o anjo lhe dá antes de qualquer outro, kecharitoméne, «cheia de graça» (Lc 1,28). O particípio não descreve um estado de espírito naquele instante, descreve uma obra já realizada nela. O Concílio afirma que Maria foi enriquecida desde o primeiro instante da sua conceição com o esplendor de uma santidade absolutamente singular (LG 56). A elasticidade que faltava aos odres velhos foi-lhe dada de antemão.

E há a nota do noivo, que em Lucas é dita a propósito do jejum e que a tradição mariana leu sempre em duas direções. Maria é aquela que teve o noivo consigo durante trinta anos de vida escondida, e é também aquela a quem o noivo foi tirado, de pé junto à cruz (Jo 19,25). Conheceu as duas horas de que Jesus fala e não confundiu uma com a outra. Não jejuou quando havia banquete, não festejou quando havia luto. Ajustou-se à hora de Deus em vez de impor a Deus a sua hora, e é nisso que a Igreja reconhece nela o seu próprio tipo na ordem da fé (LG 63).

A sexta-feira da Semana XXII deixa por isso uma pergunta que não convém responder depressa. Quando o vinho novo aparece, o que fazemos com ele? Ou dito de outro modo, quantas vezes já dissemos «o velho é que é bom» a respeito de algo que Deus estava a começar.

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