Meu Senhor e meu Deus: At 2, 1; 1 pt 1 e o domingo da misericórdia em Jo 20
Beati qui non viderunt et crediderunt.
Jo 20,29
O segundo domingo da Páscoa, Domingo da Misericórdia Divina, articula três textos em torno da fé pascal e da comunidade que nasce da ressurreição. At 2,42-47 descreve a primeira comunidade cristã reunida em torno da fração do pão, da oração e da partilha. 1Pe 1,3-9 benze a Deus pela nova vida recebida pela ressurreição e celebra o amor sem ver que caracteriza a fé dos que não conheceram Jesus na carne. Jo 20,19-31 narra as duas aparições do Ressuscitado à comunidade: a primeira na noite do Domingo de Páscoa, sem Tomé, e a segunda oito dias depois, com Tomé presente, que culmina na confissão «Meu Senhor e meu Deus». Os três textos descrevem a fé pascal: não como evidência sensível mas como encontro que gera comunidade, partilha e adoração.
I. A primeira leitura: At 2,42-47
A primeira comunidade de Jerusalém define-se por quatro coordenadas: «perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações» (At 2,42). A fé pascal tem uma estrutura imediatamente comunitária: não é experiência privada mas vida partilhada. «Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum: vendiam as suas propriedades e bens e distribuíam-nos a todos, conforme a necessidade de cada um» (vv.44-45). Frequentavam o Templo todos os dias e partiam o pão de casa em casa com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus. «O Senhor todos os dias acrescentava à sua comunidade os que iam sendo salvos» (v.47). A Páscoa não é uma festa de um dia: é o princípio de uma forma de vida que o Ressuscitado continua a construir dia a dia.
II. A segunda leitura: 1Pe 1,3-9
«Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que na sua grande misericórdia nos gerou de novo para uma esperança viva, pela ressurreição de Jesus Cristo dos mortos» (1Pe 1,3). A ressurreição é o acto gerador: os cristãos não são apenas instruídos pela ressurreição, são gerados por ela. A herança que recebem é incorruptível, imaculada e permanente, reservada no céu (v.4). A fé é provada como o ouro no forno: os sofrimentos presentes, longe de contradizer a esperança, purificam-na. «Sem o terdes visto, vós o amais. Sem o verdes agora, vós credes nele e vos alegrais com uma alegria inefável e gloriosa» (v.8). O amor sem ver é a forma fundamental da fé pascal desde que os discípulos não estiveram mais com Jesus na carne. Esta é a bem-aventurança que Jesus proclamará em Jo 20,29.
III. O evangelho: Jo 20,19-31
Na tarde do Domingo de Páscoa, estando as portas fechadas por medo dos judeus, Jesus aparece no meio dos discípulos: «Paz convosco» (Jo 20,19). Mostra as mãos e o lado. Os discípulos enchem-se de alegria. Jesus volta a dizer «Paz convosco», envia-os como o Pai o enviou, sopra e diz: «Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados» (vv.22-23). Tomé, que não estava presente, nega que possa acreditar sem ver e tocar. Oito dias depois, Jesus aparece de novo. Dirige-se a Tomé: «Coloca aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Avança a tua mão e coloca-a no meu lado. Não sejas incrédulo, mas fiel» (v.27). Tomé exclama: «Meu Senhor e meu Deus»!. Jesus responde: «Porque me viste, Tomé, acreditaste. Bem-aventurados os que não viram e acreditaram» (v.29). O evangelista conclui que escreveu para que o leitor acredite que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que crendo tenha vida em seu nome (v.31).
IV. Maria e o amor sem ver
A bem-aventurança de Jo 20,29, «bem-aventurados os que não viram e acreditaram», aplica-se de modo eminente a Maria. Durante os trinta anos de Nazaré, enquanto o Filho crescia em sabedoria e graça, Maria não viu milagres nem proclamações públicas: amou e creu no que ainda não se manifestara. Durante o Sábado Santo, amou sem ver a ressurreição que ainda não acontecera. 1Pe 1 fala de nova geração pela ressurreição: Maria é a que foi «gerada de novo» de modo mais pleno, pois foi associada à ressurreição do Filho pela Assunção. At 2 descreve a primeira comunidade reunida em torno da fracção do pão e das orações: At 1,14 informa que Maria estava no Cenáculo com os apóstolos e as mulheres antes de Pentecostes, no coração dessa primeira comunidade. O Domingo da Misericórdia Divina encontra em Maria o seu ícone mais perfeito: ela que recebeu misericórdia de modo singular, «a quem todo o género humano encontra graça» como canta a liturgia, e que intercede pelo mundo como Mãe da Misericórdia. A fé de Tomé precisou de mãos e de lado tocados. A fé de Maria não precisou: foi a bem-aventurada por excelência.
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