Virgem Maria na Ressurreição do Senhor: análise dogmatico-litúrgica

Nenhum dos quatro evangelistas menciona Maria entre as testemunhas da manhã pascal, ausência que contrasta com a sua presença explícita ao pé da Cruz (Jo 19,25-27) e que constitui um dos problemas centrais da mariologia pascal.
A liturgia eucarística celebra a ressurreição do Senhor e a alegria que ela espalha, irradiando-se por todo o mundo, na Igreja nascente, em Maria. A Virgem Pascal é um exemplo de fé para os discípulos que confessam Cristo ressuscitado.
O argumento paulino de 1Cor 15 e a centralidade dogmática da Ressurreição
«Se Cristo não ressuscitou dos mortos, nossa fé é vã e ainda estamos em nossos pecados» (1Cor 15,13.17). O clamor do apóstolo Paulo interpela o fiel, mostrando-lhe o abismo de desespero em que cairia se o evento-ressurreição não tivesse acontecido: a inutilidade da fé seria um acto inofensivo. Ao contrário, o envenenamento do pecado seria dramático, incurável durante o arco existencial na terra e sem esperança na dimensão da incorruptibilidade que ninguém alcançaria, pois não haveria repouso.
O argumento dramático de Paulo ressoa como um alerta para nossas culturas confinadas em uma dimensão horizontal. Oferece uma perspectiva de libertação à nossa mentalidade deprimida, pessimista, derrotista, inimiga do homem vivo e do futuro. A vitória sobre tudo isso, e muito mais, torna-se certa para nós, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.
O Senhor ressuscitou verdadeiramente! Ao contrário de antes da morte, quando a miríade de pessoas viu e ouviu Jesus, em sua nova identidade ressuscitada apenas os discípulos o vêem e ouvem durante a ‘Quaresma Pascal‘ ou nos quarenta dias em que compartilham horas e comensalidade com ele, ou retornaram ao local de seus primeiros encontros no lago. Não basta ouvir e admirar o Mestre Jesus: para cada um de nós é essencial fazer a experiência de Jesus ressuscitado, acumulando em nós sementes de ressurreição.
O silêncio dos evangelhos: Maria, o sepulcro vazio e a presença silenciosa na manhã pascal
Nenhum dos quatro evangelistas fala de Maria, mãe de Jesus, crucificado, que subiu ao túmulo de seu filho na madrugada do dia de sua ressurreição. A memória indelével na história da Páscoa fixou a memória de Maria de Magdala e da outra Maria (que certamente não é a mãe) correndo para aquele túmulo, que com sua mãe testemunhou a crucificação e sepultamento do Senhor. Entre os motivos da omissão, pode-se presumir a veracidade: a mãe permaneceu naquela madrugada na casa onde o apóstolo a quem Jesus amava a acolhera. Nem mesmo entre aqueles que encontram o Ressuscitado está a mãe listada por qualquer fonte canónica. No entanto, Maria foi uma presença certa na ressurreição de Jesus. Não são poucos os eventos da história e da fé que são verdadeiros, mesmo que não apareçam nas crónicas.
A colocação do trecho mateano na forma “Santa Maria na ressurreição do Senhor” lembra o enredo lucano do anúncio angélico e do encontro com Isabel. Maria em Nazaré acolhe com satisfação o anúncio de que chegou a plenitude dos tempos, quando Deus envia o seu próprio filho nascido de mulher. Maria é exortada a levar a mensagem à casa de Zacarias. Junto ao túmulo de Jesus, Maria de Magdala e a outra Maria recebem o anúncio angélico de que a plenitude dos tempos se cumpriu, porque a humanidade de Jesus, o Senhor e Messias, renasce para uma nova vida na ressurreição e neste acontecimento anunciam aos apóstolos. Esses anúncios são tão surpreendentes que não deixam ninguém indiferente e, de facto, assustam. Mas vem a doce certeza: “Não tenhais medo“.
A tipologia pascal: do «Não temas, maria» da Anunciação à manhã da Ressurreição
Em Nazaré, Maria sai do medo porque encontrou graça com Deus. No sepulcro, as mulheres deixam de temer porque a palavra de Jesus, familiar e consoladora, desabrocha em grande alegria.
Assim se unem os dois nascimentos de Cristo: de Maria e do túmulo, ambos anunciados pelo anjo, ambos com as verdades fundamentais: a vida provém de Deus e a ele se encaminha. Ali estava Maria, a cidade santa, a nova Jerusalém.
Para aprofundar a reflexão sobre o papel de Maria na Ressurreição do Senhor, consulte a encíclica Redemptoris Mater de João Paulo II, que contempla a presença maternal de Maria no mistério pascal de morte e ressurreição de Cristo.
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