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A esperança centro da Fé Apostólica

Introdução

A esperança é um dos pilares fundamentais da fé cristã, especialmente nas Escrituras do Novo Testamento. Embora o termo grego ἔλπίς (esperança) seja predominantemente utilizado nos escritos de Paulo, sua essência permeia toda a teologia apostólica, mesmo fora do vocabulário técnico. Este artigo explora como a esperança se posiciona no centro da fé apostólica, suas múltiplas dimensões conforme delineadas por Paulo e sua originalidade no contexto escatológico cristão.

1. A esperança como centro da fé apostólica

O tema da esperança ocupa uma posição central na fé apostólica, conforme atestam as Escrituras do Novo Testamento. Nos escritos de Paulo, a esperança não é apenas uma expectativa futura, mas uma confiança sólida e segura no cumprimento das promessas de Deus. Curiosamente, o termo ἔλπίς não aparece nos Evangelhos, mas a essência da esperança está claramente presente em outros contextos, refletindo uma fé que transcende o vocabulário específico.

2. A tríplice dimensão da esperança paulina

Nos escritos de Paulo, o conceito de esperança abrange três elementos principais:

  • Expectativa (ἀποκαραδοκία, apokaradokia): Refere-se à antecipação do bem futuro, como em Filipenses 1, 20.
  • Fé (πίστις, pistis) ou Confiança (πεποίθησις, pepoithesis) e Segurança (παρρησία, parrhesia): Representam a confiança inabalável em Deus, exemplificada em Romanos 4, 18 e 2 Coríntios 3, 12.
  • Paciência (ὑπομονή, hypomonē) ou Longanimidade (μακροθυμία, makrothymia): Envolve a perseverança diante das dificuldades, como visto em 1 Coríntios 13, 7 e Romanos 15, 4.

Esses aspectos da esperança também aparecem, isolados ou combinados, em outras partes do Novo Testamento, incluindo os Evangelhos (Lucas 12, 36; 21, 19; 1 João 3, 19-22).

3. A esperança no contexto da escatologia

O Novo Testamento é marcado pela tensão escatológica do “já e ainda não”, especialmente no contexto da ressurreição. Essa tensão domina todo o corpus neotestamentário:

  • Paulo: Utiliza antíteses como ressurreição versus parúsia (a segunda vinda de Cristo) e batismo versus ressurreição dos mortos.
  • Evangelhos Sinóticos: Contrapõem o Reino de Deus já presente com o Reino que ainda está por vir.
  • Epístolas Católicas: Defendem a parúsia que ainda está por se realizar, enfatizando a esperança como uma expectativa confiante e paciente do futuro.

Essas perspectivas, que se manifestam desde 1 Tessalonicenses até 2 Pedro, sempre incluem a esperança como uma expectativa confiante e paciente do futuro, refletindo a crença na consumação das promessas de Deus.

4. A originalidade da esperança cristã

Apesar das semelhanças com a esperança presente no pensamento pagão antigo, no judaísmo e até mesmo na literatura apocalíptica, o Novo Testamento vai muito além. A esperança cristã, moldada pela ressurreição de Cristo e pela antecipação da parúsia, introduz uma dimensão escatológica única, que supera as limitações da visão do mundo antigo. Esse caráter transcendente da esperança cristã redefine completamente o relacionamento com o futuro, enraizando-o na confiança no cumprimento das promessas de Deus e na certeza da vitória final sobre a morte.

Conclusão

A esperança nas Escrituras do Novo Testamento é central para a fé apostólica, integrando expectativa, fé e paciência em uma confiança sólida nas promessas de Deus. A originalidade da esperança cristã, especialmente sua dimensão escatológica, distingue-a das visões anteriores, proporcionando uma base sólida para a fé e a prática cristã. Essa esperança motiva a perseverança diante das adversidades e também orienta a visão de futuro da comunidade cristã, enraizada na ressurreição de Cristo e na expectativa de sua segunda vinda.

Daniel Afonso

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