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A esperança cristã no século III

No século III, a teologia cristã passa por um período de intenso desenvolvimento em meio a desafios como perseguições cada vez mais severas e o embate com heresias gnósticas. Em Alexandria, Clemente e Orígenes despontam como figuras-chave, ao dialogarem com a cultura helenística e aprofundarem a compreensão da esperança (spes). Esta virtude, que se firma como uma força indispensável para sustentar a fé em tempos difíceis, manifesta-se tanto na defesa da ressurreição quanto na afirmação de uma vida espiritual voltada para o progresso ascendente.

O contexto alexandrino do século III

A Teologia Alexandrina floresce em um ambiente intelectual marcado pela filosofia grega e pelo estudo minucioso das Escrituras. Tanto Clemente de Alexandria quanto Orígenes se valeram de métodos exegéticos e concepções filosóficas helenísticas para interpretar os textos bíblicos sobre a esperança:

Clemente de Alexandria, Stromata 2, 134
“Importa agora ao verdadeiro gnóstico compreender a transição das coisas visíveis às realidades espirituais, pois a esperança no que é transcendente eleva-nos acima do provisório.”

Clemente de Alexandria, Stromata 3, 48
“Se nos esforçamos por aprender todas as ciências, quanto mais nos convém dedicar a mente às promessas divinas, que são a base da nossa esperança.”

Orígenes, por sua vez, desenvolve a ideia de progressão espiritual em obras como Peri Archon (De Principiis 1, 7, 5) e em seu comentário a Romanos, sustentando que o cristão avança do provisório ao definitivo, em busca das “realidades superiores”.

Orígenes, De Principiis 1, 7, 5
“Assim como o sol gradualmente se levanta para iluminar todas as coisas, a alma, guiada pela graça, ascende a verdades mais elevadas, nutrindo-se da esperança na visão plena de Deus.”

O século III também é marcado por controvérsias com gnósticos que negavam a ressurreição, diminuindo a importância do elemento corpóreo na salvação. Clemente e Orígenes responderam diretamente a essas objeções:

Clemente de Alexandria, Stromata 3, 48
“Alguns, que se intitulam conhecedores, rejeitam a esperança de ver o corpo revestido de incorruptibilidade. É necessário demonstrar-lhes que o mesmo Deus que criou tudo do nada pode restaurar o que Ele mesmo formou.”

Orígenes, Contra Celsum 5, 17-24
“Refutei Celso em seu ataque contra a doutrina cristã, mostrando que a esperança dos fiéis não se baseia em fábulas, mas na promessa inequívoca das Escrituras acerca da ressurreição.”

As perseguições e a força pastoral da esperança

O terceiro século foi um período de intensas perseguições. Líderes eclesiásticos como Clemente e Orígenes compreenderam que essas adversidades podiam fortalecer a fé dos cristãos atribulados:

Clemente de Alexandria, Stromata 4, 13/88
“Seus sofrimentos são transitórios, mas a coroa que esperam é eterna. A esperança cristã surge como escudo contra as angústias presentes.”

Em meio a esse clima, diversos autores reconhecem que a esperança cristã funcionava como fórmula espiritual para enfrentar o medo generalizado:

Orígenes, Exhortatio ad Martyrium
“Aquele que persevera na esperança não se dobra diante das ameaças terrenas, pois se agarra à promessa de Cristo, que o sustentará mesmo diante da morte.”

O tema spes paenitentiae (esperança na conversão) também ganha destaque. Clemente, por exemplo, enfatiza a possibilidade de reconciliação:

Clemente de Alexandria, Quem Dives Salvetur 38, 5–39, 6; 42, 16
“Jamais se feche a porta do arrependimento aos que se voltam para Deus. A esperança é a ponte pela qual retornamos ao Pai misericordioso.”

Clemente de Alexandria, Paidagogos 1, 10, 91, 2
“O Pedagogo divino convida o pecador a deixar a ignorância e trilhar o caminho da luz, pois ainda que a culpa nos acuse, a esperança da conversão nos ergue.”

Orígenes também aborda a confiança na misericórdia de Deus:

Orígenes, Contra Celsum 5, 65
“Se o Senhor é verdadeiramente bom, então não podemos esquecer que Seu chamado se estende aos que se arrependem. A própria história de Israel confirma: onde há contrição sincera, brota nova esperança.”

Orígenes, Homilia sobre Jeremias (20, 9, GCS Orig. 3, 191f)
“Neste oráculo, Jeremias apresenta o pecado de Israel, mas também anuncia o perdão. Assim também nós, mesmo culpados, podemos acorrer ao Senhor que espera nosso regresso.”

A influência da filosofia e a necessidade pastoral

O desenvolvimento da esperança cristã no século III resultou de dois eixos principais:

  1. Interação com a filosofia helenística: Ao dialogar com o platonismo e outras correntes gregas, teólogos alexandrinos construíram uma teologia do progresso, vendo a jornada espiritual como um ascender gradual rumo ao transcendente.
  2. Necessidade Pastoral: Em meio a perseguições, heresias gnósticas e temores coletivos, a esperança se torna elemento-chave para encorajar os fiéis, fortalecer a coesão eclesial e oferecer uma visão consoladora da história humana.

Essa síntese entre filosofia e práxis pastoral marca a Teologia Alexandrina, garantindo que a esperança não fosse apenas um conceito abstrato, mas uma força viva, capaz de sustentar corações em meio às crises.

Conclusão

No século III, a doutrina da esperança (spes) vivenciou um aprofundamento notável na escola alexandrina, onde Clemente de Alexandria e Orígenes assumiram protagonismo. O diálogo com a cultura helenística, a luta teológica contra o gnosticismo e o clima de perseguições moldaram o conteúdo e a função pastoral da esperança.

  • Contra o gnosticismo: Eles reafirmaram a ressurreição do corpo e a bondade da criação, argumentando com base na onipotência e na fidelidade de Deus.
  • Em face das perseguições: A esperança tornou-se instrumento de coragem, convidando os fiéis a enxergar além do presente sofrido, amparados pelas promessas divinas.
  • Na conversão: A reconciliação com Deus segue aberta; a esperança de perdão e renovação (spes paenitentiae) revela o rosto misericordioso do Pai.

Assim, a Teologia Alexandrina do século III não apenas preservou a tradição dos Padres anteriores, mas aprimorou a reflexão sobre a esperança, fazendo dela um pilar do caminho espiritual cristão — um progresso contínuo rumo às alturas da comunhão com Deus. A esperança, aberta à misericórdia divina, ergue o pecador e anima o mártir; ilumina o sábio e revela ao mundo que a fé cristã não se atém apenas às realidades visíveis, mas antecipa a vitória final de Deus na história humana.

Daniel Afonso

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