Maria é fundamental no ano litúrgico pois como diz a Sacrossanctum Concilium, n. 103:
Na celebração do ciclo anual dos mistérios de Cristo, a santa Igreja venera com especial amor a Bem-aventurada Maria Mãe de Deus, indissoluvelmente unida ao obra salvadora de seu Filho; em Maria ela (a Igreja) admira e exalta o fruto mais sublime da redenção e contempla com alegria, como em uma imagem puríssima, o que ela deseja e espera ser.
Com isso em mente, o calendário geral romano (última atualização em 1969) foi revisto, e isso possibilitou inserir a memória da Mãe de forma mais orgânica e com uma ligação mais estreita no ciclo anual dos mistérios do Filho (Marialis Cultus 2). A figura de Maria brilha com toda a sua riqueza nas solenidades, festas e memórias expressamente dedicadas a ela; os formulários da Missa e o ofício foram profundamente renovados ou enriquecidos de textos bíblicos e eucológicos.
Mas a sua memória não se limita às celebrações marianas. Com efeito, o Advento é «um tempo particularmente propício para venerar a Mãe do Senhor» (Marialis Cultus 3). Se desde o primeiro domingo os hinos e as antífonas dos cânticos evangélicos das Laudes e Vésperas e da Hora Intermédia mencionam a Virgem, a sua memória adquire destaque de 17 a 24 de dezembro, tal como no IV Domingo de Advento e não nos podemos esquecer que o mês do nascimento do Senhor começa com a solenidade da Imaculada Conceição.
Também o tempo do Natal, constitui uma memória prolongada da maternidade divina, virginal e salvífica daquela que deu o Salvador ao mundo (Marialis Cultus 5), onde a liturgia recorda Maria, tanto no caso do nascimento de Cristo como na experiência atual da companhia do Emanuel. A sua missão ainda é exaltada nas festas da Sagrada Família, da Mãe de Deus e da Epifania.
A liturgia do tempo da Quaresma e da Páscoa ainda que discreta sobre Maria, mas não é silenciosa: à sua menção em algumas preces de Laudes e Vésperas, repetidas semanalmente, os formulários previstos na Coleção de Missas de Nossa Senhora são exemplo disso. Devemos recordar aqui que ao longo do ano se celebra de forma ininterrupta a memória de Santa Maria in Sabato.
Não basta considerar as festas marianas ou as acentuações marianas das épocas do ano, pois a dimensão mariana da oração litúrgica deve ser avaliada antes mesmo disso. Na realidade, a Igreja que, pelos laços que a unem a Maria, quer viver o mistério de Cristo com ela e como ela, experimentando continuamente que a Santíssima Virgem está sempre ao seu lado, mas sobretudo na sagrada liturgia, como mãe e auxiliadora.
Por tradição antiga e universal, a memória de Maria pertence à celebração da Eucaristia. A ligação entre a Encarnação e a Eucaristia, e nela a comunhão com aquela de quem historicamente nos veio o corpo e o sangue de Cristo, liga a piedade mariana à celebração eucarística. Do seio virginal da filha de Sião, Aquele que nos nutre foi germinado com o pão dos anjos. Por isso, ao celebrar a Eucaristia, a Igreja recorda, louva, suplica a Maria, experimentando a sua comunhão. Ninguém deve pensar que a sua menção na Oração Eucarística é de natureza devocional, em sentido contrário é o sinal de que não podemos silenciar a memória de Maria na memória dos mistérios de Cristo. O acontecimento do Verbo que se torna corpo na Virgem fiél, em virtude do Espírito Santo, ilumina o mistério do Verbo que se torna corpo na Igreja orante, de modo que, em virtude do mesmo Espírito, se torna em Cristo um corpo e um só espírito como rezamos na Oração Eucarística.
A mulher de Pentecostes se tornou o templo vivo do eterno Sacerdote que intercede por nós junto ao Pai (cf. Hb 7,25). Ela é o espelho da Igreja na oração: as atitudes de Maria, a Virgem da escuta, a Virgem da oração, a Virgem Mãe, a Virgem oferente, são apenas exemplos para a Igreja no exercício do culto.
Nesta linha, o Magnificat é rezado diariamente nas Vésperas.
E as celebrações dos sacramentos e sacramentais revelam ou acentuam algumas ressonâncias marianas, vindas do próprio núcleo derivantes sacramento: Deus no meio de nós. Por fim, é relevante o número de bênçãos nas quais se faz memória de Maria.
Em íntima comunhão, portanto, com a Virgem e prolongando suas atitudes cultuais, a Igreja celebra os mistérios divinos, nos quais a glória perfeita é dada a Deus e os homens são santificados: associando-se à voz da Mãe do Senhor, a Igreja bendiz a Deus Pai e o glorifica com ela com o mesmo cântico de ação de graças e louvor;
com Maria quer ouvir a palavra de Deus e meditá-la assiduamente;
com Maria deseja participar do mistério pascal de Cristo e associar-se à obra da redenção;
como Maria, que no Cenáculo, juntamente com os apóstolos, esperava rezando pela vinda do Paráclito, implora incessantemente o dom do Espírito;
com Maria, que vigia o seu caminho, ela se dirige com confiança para Cristo.
Além disso, celebrando os vários mistérios, a Igreja apela incessantemente à sua intercessão, refugia-se sob o seu patrocínio, implora-lhe que visite o povo cristão e o encha com os seus dons.
A imagem de Maria que conhecemos na liturgia romana de hoje são os reflexos de uma compreensão renovada, tanto nos textos bíblicos como eucológicos. O enriquecimento do Lecionário como as celebrações marianas (incluindo a ampla escolha da Sagrada Escritura na Coleção de Missas de Nossa de Senhora) corresponde à ampliação das orações e prefácios, conduzidos tendo em mente uma tríplice linha: inspiração bíblica, valorização do pensamento patrístico, recepção da visão mariológica expressa em Lumen Gentium.
O Espírito conciliar produziu, portanto, também ao nível da fé celebrada, a releitura do testemunho evangélico e da tradição sobre Maria, favorecendo a recentralização da sua imagem à luz cristológica e eclesiológica. Isso teve o efeito de exaltar mais completamente os traços da missão de Maria na história da salvação.
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