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A Mariologia de Gerhard Müller

A obra de Gerhard Müller

Em sua obra, que traz o título alemão Geboren von der Jungfrau Maria? Eine theologische Deutung (Nascido da Virgem Maria? Uma interpretação teológica), o autor, professor de teologia dogmática na Universidade de Munique, enfrenta com inteligência teológica a grave questão do nascimento de Jesus a partir de Maria. Müller sabe, e faz questão de reiterá-lo desde o início, que o tema examinado toca intimamente o dogma de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Verdadeiro Deus: «Paulo e João conhecem, como mostra a ideia da preexistência, uma modalidade de existência divina de Jesus enquanto Filho ou Logos de Deus já antes do seu envio ao mundo e, por isso, ‘antes’ do seu modo de existir terreno». Verdadeiro homem: enquanto homem que veio até nós pela potência do Espírito e mediante o extraordinário ato gerativo pelo qual assume de Maria a humanidade, «não no modo da geração sexual, mas no modo da assunção criativa redentora e, por isso, da constituição metafísica absoluta do ser-homem de Jesus sem a mediação, como causa segunda, de um ato gerativo humano. O homem Jesus existe, portanto, exclusivamente graças à presença de revelação de Deus no seu Espírito, que é o próprio Deus».

O estudo, articulado e profundo, quer oferecer uma contribuição intelectualmente honesta e atual para fazer emergir a dignidade e a relevância salvífica do Natus ex Maria Virgine (Nascido da Virgem Maria), suavizando os tons de um debate que se tornou aceso e polêmico.

Controvérsias sobre o nascimento virginal

É bem conhecido que a contestação da verdade cristológica tem suas raízes nos inícios da fé. Já no relato evangélico de Mateus podem-se perceber traços apologéticos que deixam supor uma áspera polêmica entre a comunidade cristã primitiva e os ambientes judaicos. Polêmica à qual depois se associaram os pagãos (Celso, Juliano, o Apóstata…), e em seguida os hereges de matriz marcionita, gnóstica, ebionita e adocionista. A controvérsia, graças à doutrina dos Padres e dos primeiros grandes Concílios, aquietou-se por bastante tempo, para depois explodir novamente no século XVI por obra dos socinianos, que rejeitavam decididamente o nascimento virginal de Cristo por considerá-lo contrário à razão: «Com a nascente concepção mecanicista do mundo, observa Müller, o nascimento virginal de Jesus pareceu cada vez mais um milagre isolado da natureza, pelo qual a onipotência de Deus teria intervindo arbitrariamente no andamento da máquina do mundo».

Com o Iluminismo, então, o dogma da encarnação virginal de Cristo torna-se objeto de escárnio: seria, afirma-se, expressão da arraigada ignorância científica e histórica da Igreja. Nesse contexto, profundamente adverso à fé e ao pensamento cristão, surgem «explicações científicas», ou seja, novas interpretações de ordem psicológica, mitológica, hermenêutica, histórico-religiosa, voltadas a mascarar e retificar a cultura obsoleta, sobrenaturalístico-dogmática do catolicismo romano. Assim, Feuerbach denuncia a inconsistência dos conhecimentos científicos na Antiguidade, que teria conduzido os próprios evangelistas a uma interpretação mitológica dos acontecimentos relativos à origem, à pessoa e ao ministério do Nazareno. Anos antes, D. F. Strauss, sob o influxo da crítica racionalista ao «milagre» e da interpretação moralista do cristianismo de E. Kant, havia descartado a encarnação virginal como «o desvio mais vistoso de todas as leis naturais».

Interpretando os textos bíblicos com categorias da psicologia profunda, o teólogo alemão Drewermann vê nos evangelhos a ilustração de um modelo arquetípico presente no inconsciente coletivo da humanidade, de modo que os relatos do nascimento em Mateus e Lucas seriam lendas quase míticas. Jesus, enquanto homem, afirma-se, foi gerado e nasceu como qualquer outro homem: extraordinária não seria sua origem, mas sua vida. Seria justamente para explicar isso que os evangelistas se teriam servido do «nascimento virginal», tomando-o de narrativas antigo-orientais sobre nascimentos reais. Em consequência, a virgindade permanente de Maria ficaria sem qualquer fundamento real: seriam símbolos míticos de um «novo nascimento» e de uma «nova geração», ligados ao mito egípcio do faraó, filho do sol.

O aprofundamento mariológico

Depois de apresentar essas e outras objeções modernas e contemporâneas e de aludir à vasta problemática histórico-crítica, hermenêutica e de sentido à qual deve submeter-se a interpretação atual do dogma para que nada perca de sua congruência e consistência de fé, Müller detém-se no aspecto mais propriamente mariológico: a virgindade espiritual e corporal de Maria é o sinal tangível e real de que o homem-Deus Jesus de Nazaré não pode ser mero resultado das «potencialidades da criatura». A virgindade da Mãe do Senhor, além disso, tem um amplo espectro teológico (relação trinitária e eclesial), teologal (tipologia mariana da fé) e antropológico a aprofundar e indicar.

A Virginitas ante partum

A virginitas ante partum é tratada pelo teólogo alemão levando em conta a profissão de fé, a recente problematização teológica (valor da sexualidade humana, nexo entre imagem do mundo e hermenêutica da fé), as religiões comparadas, a teologia sistemática evangélica e a contribuição controversa e significativa da exegese histórico-crítica; a ressurreição de Cristo como evento originário da fé e como princípio de desenvolvimento da cristologia sinótica do Pneuma; o nascimento de Jesus da Virgem como elemento profundamente necessário para a profissão de fé nele. Quanto à questão da consistência real e teológica da concepção virginal do Filho de Deus, Müller conclui de modo sintético: «O milagre da concepção do homem Jesus a partir da Virgem Maria é um momento implícito do evento mais amplo e do milagre da presença de Deus no homem Jesus, que a comunidade reconhece como seu messias. É, de todo modo, o milagre no qual um ser humano, Maria, foi de fato habilitado a dar ao mundo Deus».

Uma verificação biológica desse evento, absolutamente novo e imprevisível, não é possível e tampouco deve ser exigida. A incomparabilidade da concepção de Maria não pode ser dita «antinatural». Ao contrário, seria precisamente contra a natureza do ato natural de geração, pelo qual se determina essencialmente a subsistência criatural que constitui a pessoa, se Deus fizesse surgir dele um substrato material ao qual «deslizasse por baixo» a sua própria subsistência.

A Virginitas in partu

A virginitas in partu proclama a ausência de sofrimento no parto e a prodigiosa reconstituição do seio de Maria após o parto do Filho de Deus. Tal doutrina é comumente sustentada pela tradição patrística e pelo Magistério ordinário e extraordinário da Igreja, ainda que os diversos testemunhos do ensinamento eclesial devam ser avaliados, caso a caso, de modo diferenciado quanto à sua importância, à sua intenção enunciativa e ao seu caráter vinculante final.

É muito difícil, observa Müller, descrever com completude a integritas corporis da Mãe de Deus no âmbito do fenômeno do parto, porque as «definições fisiológicas singulares não podem ser a substância do enunciado de fé, mas apenas elementos através dos quais a realidade da virginitas in partu deve ser designada como realidade que só pode ser apreendida na fé». Essa doutrina, longe de ser produto exclusivo do ideal ascético da virgindade, é fruto maduro do desenvolvimento cristológico da Igreja antiga acerca da integridade da natureza divina e humana do Logos, na questão da união hipostática. Nesse contexto doutrinal, surge, desenvolve-se, aprofunda-se e sanciona-se o enunciado da maternidade virginal da Panaghia. Maria «não é nesse processo uma estação biológica de passagem, mas ela mesma é caracterizada como pessoa pela sua relação pessoal com o Logos encarnado. Por isso, a doutrina da união hipostática está ligada à afirmação de Maria como genitora de Deus (Theotokos) e deve também ser expressa linguisticamente à sua luz. Daí se delineia o enunciado mariológico central de Maria como Mãe Virgem de Deus. Maria não é um instrumento físico, mas pessoal».

O parto virginal da Theotokos não deve ser negado nem minimizado em seus conteúdos formais, mas deve ser lido, interpretado e acolhido como sinal do tempo histórico-salvífico inaugurado pelo Filho de Deus; «uma realidade do novo mundo da redenção que se apresenta em virtude de Cristo». O nascimento do Messias e o parto de Maria são uma novidade divina que afirma a admirável proximidade do evento e da Pessoa divina no espírito e na carne da Virgem. Não são uma retirada arbitrária do Menino e da Mãe da natureza e da solidariedade humana. A liberdade de Maria em relação à dor e sua permanência íntegra, apesar da verdade e da realidade do parto, possuem um significado que remete à exegese tipológico-patrística de Isaías 66,7-10, onde se narra, em linguagem fortemente figurada, uma irrupção súbita, soberana e prodigiosa da salvação escatológica em Jerusalém: «Antes de sentir as dores, ela deu à luz; antes que lhe viessem as dores, deu à luz um menino. Quem jamais ouviu coisa semelhante, quem viu coisas desse gênero?…».

Se se lê o evento da salvação escatológica em referência ao paralelo antitético Eva-Maria, utilizado pelos Padres para ilustrar a virginitas in partu, compreende-se como ele favoreceu o «fiat» da Virgem e fez «cair» nela os efeitos da punição divina cominada a Eva em Gênesis 3,16. Com efeito, «por meio do seu “sim” à mensagem do nascimento da humanidade do Redentor, a relação de Maria com Jesus é nova e determinada de modo diverso também no parto. Ela já se encontra no horizonte da nova promessa de salvação. Se aqui se fala do milagre do nascimento de Jesus, então isso certamente nada pode ter a ver com fenômenos miraculosos. Além disso, Maria, mesmo levando em conta a doutrina posterior de sua preservação do pecado original em consideração aos méritos de Cristo, encontra-se apenas no contexto de um mundo infralapsário. Quanto à doutrina atestada biblicamente do seguimento da cruz por parte de Maria, deve ser interpretado em perspectiva escatológica também o discurso sobre a preservação de Maria das dores do parto». Também a interpretação patrística de Ezequiel 44,1-2 aplicada a Maria é expressão de uma concepção realista da salvação da virgindade no parto.

Os fiéis, ao acolherem o dogma da maternidade verdadeira e virginal de Maria, sancionado pelo Magistério eclesial, devem estar bem conscientes de que «não são os pormenores ginecológicos, que em casos singulares foram avaliados de modo diferenciado, que determinam o conteúdo desse dogma de fé; mas, quanto ao conteúdo da fé, a verdadeira maternidade de Maria deve ser expressa de tal modo que sua relação fundamental com o Filho de Deus que se revela não seja anulada, isto é, ferida. Por conseguinte, seu parto, na complexidade de seus aspectos pessoais, espirituais e corporais, é em si inteiramente natural». O teólogo alemão, remetendo-se ao ensinamento mariológico de Karl Rahner, gosta de sublinhar e aprofundar a interpretação teológica da virginitas in partu, mais do que deter-se no glossário e na problemática fisicista do enunciado, tão carregado de sentido histórico-salvífico, escatológico, antropológico e simbólico.

A Virginitas post partum

Para compreender plenamente o conteúdo e o valor teológico da virginitas post partum, adverte o teólogo alemão, é preciso retomar as reflexões anteriores sobre o «princípio mariológico fundamental» (Maria é a genitora virginal do Logos encarnado) e conhecer e avaliar as diversas e opostas considerações de ordem exegética, histórica e teológica a respeito dos «irmãos e irmãs de Jesus»; da relação esponsal entre Maria e José; da expressão pai e mãe de Jesus (Lucas 2,33.48); da controversa formulação de Mateus 1,25; do valor probatório de João 19,26… O Magistério, em seu processo de aprofundamento à luz do Espírito e da Palavra, depois de avaliar objeções e adesões, considerou, com lógica rigorosa de fé, que «Maria não foi Mãe do Logos encarnado numa condição dramática de exceção para depois levar uma vida familiar normal». «Maria, como Theotokos virginal, entrou numa relação correspondente, única em seu gênero, com Deus, de modo que deve ser expressa em seu matrimônio com José de tal forma que a denominação pessoal de virgem e genitora de Deus não fosse limitada ou até mesmo anulada».

Essa precisão capta pontualmente o húmus cristológico do enunciado mariológico, convidando o fiel a considerar que, para além das pretensões justificáveis de uma garantia de segurança histórica, a existência terrena de Maria foi uma resposta total e permanente de sua pessoa, espiritual e corporal, ao dom incomensurável de uma maternidade não comum, transcendente, virginal e esponsal. Um carisma indubitavelmente irrepetível que apenas a ela compete, sem subtraí-la de modo algum ao «comum» cristão.

Conclusão

O itinerário traçado por Gerhard Ludwig Müller revela-se, sob múltiplos aspectos, de inequívoca densidade e atualidade teológica. Em primeiro lugar, impressiona a sobriedade metodológica com que o autor encara uma questão delicada e frequentemente polarizada, recusando tanto a redução racionalista do mistério quanto uma defesa meramente reativa do dado dogmático. Ao reconstituir com rigor as controvérsias antigas e modernas acerca do nascimento virginal, Müller não se limita a enumerar objeções: ele as situa, as qualifica e as mede, sem prejuízos, à luz dos instrumentos histórico-críticos, das interrogações hermenêuticas contemporâneas e do horizonte mais amplo da teologia sistemática.

Nesse quadro, o mérito decisivo do estudo consiste em recolocar a virgindade de Maria no seu húmus cristológico originário. A virgindade ante partum, in partu e post partum não é tratada como um apêndice devocional nem como um problema fisiológico a ser resolvido por descrições empíricas. Ela é interpretada como signo teológico real, intrinsecamente ligado ao dogma de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e, por conseguinte, como linguagem eclesial que pretende salvaguardar a gratuidade absoluta da iniciativa divina na encarnação. A insistência de Müller em distinguir o conteúdo de fé dos detalhes de ordem biológica ou imagética impede que o enunciado seja sequestrado por leituras fisicistas, sem, contudo, esvaziá-lo em símbolo puramente mítico. A virgindade mariana permanece, assim, uma realidade confessada na fé, cuja inteligibilidade teológica se deixa apreender no interior da economia salvífica inaugurada por Cristo.

Do ponto de vista mariológico, a obra evidencia com acuidade que Maria não pode ser compreendida como “estação de passagem” na história da salvação. A afirmação de Maria como Theotokos e Mãe Virgem de Deus, inseparável do desenvolvimento da doutrina da união hipostática, confere à mariologia seu estatuto propriamente cristológico e eclesial. Em tal perspectiva, a virgindade de Maria, espiritual e corporal, manifesta a singularidade de sua relação pessoal com o Logos encarnado e ilumina, simultaneamente, a tipologia da fé e a vocação da Igreja, chamada a acolher a Palavra na obediência e na fecundidade do Espírito.

Por fim, ao propor teses orientadoras para uma mariologia futura, Müller sugere um caminho de aprofundamento que não se afasta do núcleo dogmático, mas o torna hermeneuticamente comunicável sem amputar seu realismo teológico. A proximidade com intuições de Karl Rahner, longe de uniformizar a abordagem, reforça a intenção de oferecer ao pensamento crente uma via intelectualmente honesta e pastoralmente relevante, capaz de responder, com serenidade e consistência, à pergunta sempre recorrente sobre o sentido e o alcance da concepção de Jesus por obra do Espírito Santo e do seu nascimento da sempre Virgem Maria.

Daniel Afonso

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