Diferentemente de Guardini, Rahner permanece e atua no campo específico da teologia sistemática. Contudo, como para Guardini, também para Rahner a teologia tem valor e sentido se vai ao encontro, de modo real e autêntico, da vida cotidiana. Somente a grande proximidade às pequenas coisas dá à grande teologia, inclusive à acadêmica, significado e força.
Rahner é um dos autores mais influentes e significativos da corrente antropológica. Diferentemente de Guardini, ele insere cada tratado seu na perspectiva pastoral e sempre no interior de um discurso teológico global. Para Rahner, o homem é essencialmente um espírito em escuta da possível revelação de Deus, é o ser que tem também o dever de escutar essa revelação. Essa capacidade metafísica de abertura ao absoluto atualiza-se mediante a graça, que é a autocomunicação de Deus acolhida pelo homem na fé e no amor. Esse mistério da graça é, para Rahner, o ponto de partida para uma reflexão teológica sobre o cristão, tanto que sua teologia é dita «carisêntrica», isto é, centrada na graça, charis. Nessa perspectiva, a teologia, além de ser total glorificação de Deus, é também necessariamente, em seu cumprimento mais íntimo, exaltação do homem. Rahner vê a razão dessa teologia do homem não apenas na ordem da criação, mas também na ordem histórica da Aliança e da Encarnação, onde Deus quis tratar conosco, fez-nos seus interlocutores e até mesmo se fez um de nós, homem como nós. Não se pode fazer teologia, portanto, sem fazer necessariamente antropologia.
O repertório bibliográfico de Rahner contém 40 títulos de trabalhos mariológicos, alguns dos quais inéditos, sem contar as alusões ou os tratamentos presentes em outras obras. A valorização de Maria é, para Rahner, um postulado das premissas filosófico-teológicas do seu sistema antropológico, tal como delineado acima.
Eis, em linhas gerais, a mariologia de Rahner:
Essa relação de mãe não deve ser reduzida a uma conexão puramente física. Ela recebeu por nós o Filho de Deus, no «sim» livre de sua fé, e, do seu seio, deu-lhe aquela existência terrena pela qual ele podia ser membro da nova família humana e, assim, seu Redentor. Sua maternidade é, portanto, obra de sua fé e não um puro processo biológico. Essa maternidade divina, livremente aceita, acontece como acolhimento da graça de Deus que, na Encarnação, vem ao mundo e, por isso, em uma autêntica colaboração com Deus que opera no homem. Essa função de acolhimento da salvação é assumida e exercida por ela durante toda a sua existência, até a hora da Redenção. Em razão desse lugar central na história da salvação, Maria é, para a Igreja, o caso absoluto e radical do homem redimido, aquela que foi redimida de modo perfeito e, por isso, o arquétipo do redimido e da Igreja em geral, segundo o secreto desígnio da vontade de Deus. Maria foi, pois, por graça gratuita de Deus, preservada da culpa e de todo pecado, não esteve sujeita à concupiscência.
Maria foi também não apenas mãe, mas Mãe Virgem de Cristo. Esse nascimento do Filho sem contribuição de um homem e, no entanto, por verdadeira geração de uma mãe, mostra com evidência que com isso se estabelece um ponto de partida da salvação radicalmente novo e que a história da humanidade, carregada de pecado, não continua simplesmente, mas se renova na redenção. Em razão de sua total doação a Cristo para o bem da Igreja, a Igreja reconhece Maria como sempre Virgem.
Com sua assunção gloriosa ao céu, Maria alcançou seu cumprimento perfeito com o corpo e com a alma e, do céu, intercede por nós, onde sua função de mãe se sublima e atinge sua plenitude.
É descendente de Davi, aparentada com a família sacerdotal de Zacarias e Isabel, noiva e esposa de José de Nazaré. Concebe seu menino nessa cidade e o dá à luz em Belém. É obrigada a fugir para o Egito, mas depois retorna e vive definitivamente com José e Jesus em Nazaré. Toma parte ativa na vida religiosa de seu povo, leva uma vida de trabalho, de pobreza, de amorosa aceitação das insondáveis disposições de Deus. Participando intimamente dos mistérios do Filho, demonstra não ter acolhido sua maternidade apenas biologicamente, mas antes na fé, como acolhimento da vontade suprema de Deus. Ela também conheceu a morte no autêntico cumprimento de sua existência terrena, tal como comportava o destino de todos os homens, à imitação da morte de seu Filho.
Dada sua singular dignidade de Mãe de Deus e dado o lugar singular que Maria ocupa na história da salvação e na vida da Igreja, tributa-se-lhe um culto particular. Essa piedade mariana realiza-se na Igreja concretamente por meio de determinadas festas marianas que celebram fatos e acontecimentos da vida de Maria ligados aos mistérios de Cristo; por outras festas com as quais a Igreja reconhece a presença de Maria na história da própria Igreja; e por outras formas de piedade, como as orações do Rosário, do Angelus, as peregrinações, a consagração etc. Esse culto da Virgem realiza sua profecia: «Todas as gentes me chamarão bem-aventurada».
O cristão que quer refletir sobre Maria deve, antes de tudo, abrir a Sagrada Escritura, lida sob a guia do Magistério da Igreja, porque a Igreja prega o que lê na Escritura. A primeira pergunta que surge espontaneamente é a que está na origem do discurso: mas a fé, falando absolutamente, tem algo a dizer-nos sobre Maria, sobre uma mulher, sobre uma criatura? Existe, no fundo, uma teologia do homem? Porque somente depois de responder a essa pergunta podemos responder à pergunta sobre Maria e, refazendo o caminho, compreender o que a Escritura, através da Igreja, nos diz de Maria. À última pergunta devemos responder positivamente: sim, há uma teologia do homem, uma proclamação da fé e uma teologia que louvam e glorificam Deus ao mesmo tempo que dizem algo do homem. E isso por diversos motivos: antes de tudo porque Deus é realmente tudo em todas as coisas e, depois, porque Deus, em sua inefável glória, em seu viver eterno, fez-nos participantes de seu próprio viver eterno. Além de ter concluído conosco a Aliança, ele se fez até mesmo um de nós, fez-se homem. Depois do evento da Encarnação, no cristianismo não se pode dizer nada de verdadeiro, autêntico, concreto sobre Deus sem confessá-lo como Emanuel, Deus conosco. Por isso o rosto de Deus resplende no homem e por isso a teologia, enquanto é glorificação de Deus, é também uma teologia de exaltação do homem. Por isso, quando falamos do mistério de Cristo e da salvação, devemos falar também de Maria, porque nessa história ela tem uma importância decisiva, querida pelo próprio Deus. Celebrando Deus, celebrando o homem que entra em contato com Deus, não podemos não falar de Maria, não podemos não celebrar Maria, porque nela celebramos uma maneira cristã de compreender o homem, proclamamos a ideia cristã do homem. O louvor de Maria é louvor de Deus que se doa ao homem e louvor do homem que acolhe Deus em plenitude e com responsabilidade.
Qual é, para os teólogos, o princípio fundamental da Mariologia? Os teólogos se dividem: alguns dizem ser a maternidade divina; outros, sua cooperação na salvação; outros, sua maternidade universal. «Para mim», diz Rahner, para dizer qual é esse princípio, é preciso primeiro responder à pergunta: quem é propriamente Maria? e, antes ainda, à pergunta mais geral: o que é o cristianismo e o cristianismo perfeito?
O cristianismo é a obra do Deus vivo para conosco: é aquilo que ele, o Deus vivo da graça, nos dá no perdão, na redenção, na justificação e na comunicação de sua própria glória divina. Em conclusão, o cristianismo é o próprio Deus eterno, ele mesmo que vem ao homem, ele mesmo que, com sua graça, trata o homem de tal modo que este lhe abre livremente o coração, para que nesse pobre coração de pequena criatura penetre todo o esplendor da vida infinita do Deus Trino.
O cristianismo perfeito é a acolhida, no corpo e na alma, do dom de Deus, que é o próprio Deus, num encontro em que se oferece tudo o que se tem, tudo o que se faz e aquilo que se sofre, para que esse acolher Deus abranja todo o ser e toda a história; é a perfeita harmonia e coerência entre vida pessoal e funções oficiais, entre a manifestação visível e o que acontece no fundo das consciências; é manifestar o que acontece no fundo da vida cristã, é tornar perceptível ao exterior aquilo que Deus opera no fundo do coração.
Ora, se esse é o cristianismo perfeito, podemos dizer que Maria é sua plena realização: Maria é a perfeita cristã, a realização típica e concreta daquilo que constitui a redenção em sua forma perfeita. E, se o cristianismo perfeito é a plena acolhida de Deus, é claro que a maternidade divina, o máximo da acolhida de Deus, é o princípio para compreender e entender Maria. Mas atenção: Maria, também Mãe de Deus, também perfeita cristã, também ápice do cristianismo perfeito, está do nosso lado, porque tudo o que ela é e tudo o que tem é fruto da misericórdia de Deus. Maria é aquela que, semelhante a nós e pertencendo ao nosso lado, acede a Deus conosco, dentro desse único e imenso coro da humanidade.
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