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A Virgem do Advento

Introdução

Advento é uma palavra cara à Igreja Católica, pois indica com força o tempo de preparação para o Natal, convidando os fiéis a recordar o nascimento de Cristo não como um simples evento histórico, mas como uma experiência decisiva de fé. O Advento não é apenas o período do ano que antecede o dia 25 de dezembro, mas um tempo de espera e, simultaneamente, da vinda de Jesus Cristo, esperado ontem, hoje e sempre, pois Ele é aquele que veio, vem e virá. O Advento, então, caracteriza-se como um tempo de espera que não decepciona, de conversão, de uma disponibilidade acolhedora que se torna louvor incessante, de uma esperança jubilosa que se transforma em amor e oração, de admiração e assombro que conduzem à contemplação. O fiel aguarda, com vigilância e com um coração de noivo, a vinda de Cristo na humildade de nossa carne, e se prepara para encontrá-lo em glória.

A liturgia do tempo do Advento celebra, assim, as duas vindas de Cristo Senhor: a primeira, no silêncio humilde, quando o Filho de Deus – na plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4) – tomou carne no ventre da Virgem Maria; a segunda, em glória, quando, no fim dos tempos, Cristo retornará para julgar os vivos e os mortos e conduzir os justos à casa do Pai, onde a Virgem os precedeu e de onde intercede continuamente por eles. Dentro desta perspectiva única – que abrange o início e o cumprimento da história da salvação – a Igreja dirige frequentemente seu olhar de fé para Maria, invocando sua ajuda no caminho de conformação a Cristo e para adotar as mesmas atitudes que ela viveu na espera e na vinda de Cristo Senhor.

Maria na liturgia do Advento

As luzes do mistério de Maria no tempo do Advento encontram-se nas páginas bíblicas do Lecionário e nas orações presidenciais do Missal, que introduzem, acompanham e concluem cada celebração eucarística. Essas orações incluem a inicial, chamada “coleta“, a “oração sobre as oferendas” (ou super oblata) e a “oração de agradecimento” (ou após a comunhão). A atenção a esses textos de oração é, segundo os liturgistas, um ponto de partida essencial para uma espiritualidade mariana centrada na oração litúrgica. A leitura e meditação constantes dessas orações, distribuídas nos diversos momentos da celebração litúrgica, enriquecem espiritualmente os fiéis, pois os traços do rosto de Maria ajudam a renovar a memória da fé e a orientar ações em um autêntico espírito cristão.

A eucologia mariana ocidental não se restringe aos textos da celebração eucarística, mas se estende à Liturgia das Horas, com elementos como salmos intercalados por antífonas, leituras seguidas por responsórios, hinos e preces de intercessão. Esses textos, transmitidos desde a antiguidade, concedem à Virgem um lugar especial e são ferramentas eficazes para a oração, a formulação da fé, a motivação espiritual e a organização da vida cristã. O Advento, além de ser uma celebração da espera do Messias, é também uma oportunidade de redescobrir Maria como modelo do espírito com que a Igreja celebra e vive os mistérios divinos (cf. Marialis cultus, 16). Este tempo recorda a figura da Mãe do Messias, que se revela progressivamente nas profecias, figuras e símbolos da liturgia.

No Advento, destacam-se profecias significativas sobre Maria, como Gênesis 3,15 (o protoevangelho, que menciona a inimizade entre a mulher e a serpente), Isaías 7,14 (a profecia da virgem que conceberá um filho chamado Emanuel), Isaías 11,1 (o broto da genealogia davídica) e Miqueias 5,1-2 (a parturiente de Belém). Além das profecias, a liturgia apresenta figuras de mães que prefiguram Maria, como Rute, a moabita piedosa; a esposa de Manoá, mãe de Sansão; Ana, mãe de Samuel; e Isabel, mãe de João Batista. Essas maternidades extraordinárias, fruto da intervenção divina, antecipam a maternidade ainda mais prodigiosa de Maria de Nazaré.

A liturgia do Advento utiliza também símbolos para celebrar Maria, como a terra (grembo materno primordial de onde germina o Salvador), a porta (que conduz à nova condição de salvação), a casa (habitação segura e feliz do Verbo por nove meses) e o templo (lugar da presença divina, aplicado a Maria pela presença singular do Verbo nela). A celebração do Advento enfatiza três mistérios principais da vida de Maria: a Imaculada Conceição (8 de dezembro), a Anunciação (20 de dezembro) e a Visitação (21 de dezembro). A solenidade da Imaculada Conceição celebra o ato redentor singular de Deus, preservando Maria de toda mancha do pecado original em vista de sua maternidade. No mesmo dia, proclama-se o anúncio do anjo a Maria (cf. Lc 1,30-31).

Os outros eventos – a Anunciação e a Visitação – são celebrados no Advento (nos anos B e C, respectivamente) e também em datas específicas fora desse tempo litúrgico (25 de março e 31 de maio). Contudo, a importância dessas celebrações não diminui o destaque do mistério da Encarnação do Verbo e da visita de Maria a Isabel nas semanas que antecedem o Natal. Desde as Vésperas iniciais até a véspera do Natal, a página lucana da Anunciação confere ao Advento um caráter incomparável de espera, desejo e alegria messiânica. Nesse contexto, a figura de Maria emerge nitidamente como a Virgem da espera, terra grávida da semente da Palavra, enquanto a liturgia intensifica o clamor: “Que os céus derramem o Justo!” (cf. Is 45,8).

Piedade popular mariana no Advento

Além da liturgia, as formas de piedade popular também dedicam especial atenção a Maria Santíssima durante o tempo do Advento, como evidenciam diversos exercícios de piedade, especialmente as novenas da Imaculada e do Natal. Segundo o Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia, são práticas recomendáveis a coroa do Advento, as procissões do Advento, as “Quatro-Têmporas de Inverno” (valorizadas como momentos de súplica e reflexão sobre o trabalho humano), a novena de Natal (sugerindo-se a solenização dos Vésperas com a participação dos fiéis) e o presépio. Nesta análise, destacam-se a Novena da Imaculada Conceição, o Angelus Domini e as Ladainhas de Santa Maria da Esperança.

Novena da Imaculada Conceição

O Diretório (§102) salienta que a solenidade da Imaculada Conceição, profundamente arraigada na devoção dos fiéis, é ocasião para diversas manifestações populares, como a tradicional oferta de flores, realizada em praças públicas, especialmente na Piazza di Spagna, em Roma. Tal gesto, quando traduzido em proposta de vida evangélica, torna-se um belo sinal exterior de verdadeira devoção. Maria Imaculada, como modelo, inspira os fiéis a buscar força na luta contra o mal, em vista do Reino de Deus. Entretanto, a manifestação mais significativa é a Novena da Imaculada Conceição, que relaciona o mistério da pureza de Maria com temas do Advento, como a longa espera messiânica e os símbolos do Antigo Testamento.

Durante a novena, o povo cristão louva e agradece a Deus por antecipar em Maria a obra redentora de Cristo, tornando-a digna Mãe do Salvador. A Imaculada é celebrada como reflexo da infinita misericórdia divina e da vocação de todos à santidade. Esse momento não se limita a discussões teológicas, mas exalta a alegria, o louvor e o desejo de Deus, inspirando atitudes marianas como obediência, gratidão e o encanto pelo caminho da beleza divina.

Angelus Domini

O Angelus Domini é uma oração simples, teologicamente rica, que recorda três vezes ao dia o anúncio do Anjo a Maria e a Encarnação do Verbo. Este exercício piedoso, profundamente bíblico, destaca a resposta de Maria ao chamado divino, rejeitando qualquer visão passiva ou alienante de sua fé. Pelo contrário, apresenta Maria como a mulher que proclama a justiça divina e defende os humildes e oprimidos. No Advento, é recomendável que as famílias recitem o Angelus, acompanhadas de uma catequese que ajude a aprofundar essa prática de piedade mariana. Celebrações da Palavra, centradas na proclamação de Lucas 1,26-38 ou no canto do Angelus, também são fortemente incentivadas.

Ladainhas de Santa Maria da Esperança

O título “Santa Maria da Esperança”, muito caro à tradição latino-americana, inspira-se na vida de Maria como modelo de esperança. Durante o Advento, tempo litúrgico de espera, a devoção mariana encontra expressão especial nas ladainhas que invocam Maria como “mulher fiel na espera”. Maria aguarda com confiança a vinda do Messias, a manifestação do Salvador e a plenitude da redenção, sendo símbolo de luz nos momentos obscuros da vida cristã.

As ladainhas também celebram Maria como “esperança dos pobres, oprimidos e perseguidos”, a quem ela protege e guia até a Pátria Celeste. Este papel de Maria como “sinal luminoso” no caminho da Igreja é destacado como inspiração para a perseverança dos fiéis no caminho da salvação.

Conclusão

Neste breve período de quatro semanas, a liturgia romana e a piedade popular honram Maria de modo exemplar, recordando sua figura como aquela que viveu plenamente a espera pelo Natal de Jesus, o Emanuel, “Deus conosco” (cf. Sacrosanctum Concilium, 102-103). Maria, símbolo de esperança e obediência, guia a Igreja e os fiéis na vivência do mistério do Advento, sinalizando o caminho para a vinda do Salvador.

Daniel Afonso

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