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As origens da intercessão na iconografia da Virgem Orante

As origens da intercessão na iconografia de Virgem Orante

A Virgem Orante

As variantes possíveis dizem respeito à própria composição.

A Virgem Orante pode ser representada por si mesma ou em relação a um evento teofânico histórico-salvífico:

representação autônoma: aparece sozinha ou acompanhada de outras personagens (anjos, apóstolos, mártires e/ou santos);

– uma teofania do Antigo Testamento;

– uma teofania do Novo Testamento: Ascensão;

– uma teofania intemporal de Cristo.

–  Virgem Mãe rezando entre os Onze, São Matias e São Paulo, sob uma teofania do Antigo Testamento, abside, Mosteiro de São Apolônio, Bawiti, século VI.

–  Virgem Mãe Rezando entre os apóstolos Pedro e Paulo, seis mártires e doador, sob uma teofania intemporal de Cristo Senhor representado a meio comprimento ladeado por dois anjos, abside, mosaico, capela de S. Venâncio (Batistério de S. Giovanni in Laterano), Roma , meados do século VII.

Composições não absidais referentes ao tipo em questão

– Virgem Mãe Rezando (“Regina”), Oratório de João VII, do Vecchio S. Pietro, Museu S. Marco, Florença, 707 A

Observações

O antigo gesto das mãos levantadas com as palmas voltadas para cima, simbolizando a atitude do homem religioso e, uma vez assumida pela iconografia cristã, a dos Fiéis, aplicada à Virgem Maria, torna-se expressão do mistério da Encarnação. Mesmo quando está sozinha, com os braços levantados para o céu, ela representa a Mãe de Deus, pois este gesto corresponde à ideia de graça no ato de descer sobre ela, que isto é, a concepção e o início da Encarnação. 

As considerações a serem feitas sobre a representação da Virgem Orante na cena da Ascensão são interessantes, a partir da observação de que nesta cena a Virgem Mãe é retratada no centro dos Apóstolos, enquanto nem o Evangelho nem os Atos fazem referência à sua presença. Ora, o fato de tal dignidade pertencer a Maria em virtude da sua maternidade divina não é suficiente para justificar a sua presença no centro dos Apóstolos – de fato a iconografia da Igreja indivisa não procede de forma alegórica – mas é a iconografia que sugere o sentido dessa presença: inserindo na composição a estrela da Encarnação (representada como uma esfera) ou a pomba do Espírito (como acontece na Gruta do Pantocrator nos Latmos), aponta para uma relação entre o mistério da Ascensão e o da Epifania. Esta ligação está ligada a um fato histórico: a celebração das Vigílias e da Missa da Ascensão na Basílica da Natividade em Belém, uma vez que, antes do final do século IV, a festa em Jerusalém tinha sido separada do Pentecostes e antecipada para o 40º dia; assim, o início e a conclusão da história da salvação foram ordenados mutuamente em uma única celebração. 

As fontes literárias, por sua vez, confirmam que os Padres, como Cirilo de Jerusalém (Catequese XIV) e João Crisóstomo (In ascensionem Domini), gostavam de associar os dois mistérios da Encarnação e da Ascensão. A combinação do tema da Epifania (expresso pelo grupo da Virgem Mãe com o Menino) com a teofania de glorificação da Ascensão e – como acontece frequentemente nas absides coptas – com as teofanias do Antigo Testamento reinterpretadas de forma cristológica ou ainda com uma teofania atemporal foram ocasião de ver a figura da Virgem Orante é intercambiável com a da Mãe de Deus entronizada com o Menino.

Mas a Ascensão não é apenas o termo final daquele movimento que desde a descida da Encarnação atinge a elevação/glorificação final do Filho é também o momento do nascimento da Igreja. Como ensinam os Padres da Igreja, quando Cristo volta gloriosamente ao Pai, é a humanidade como Igreja que é elevada com Ele ao Céu; assim, o mistério da Ascensão e o nascimento da Igreja estão intimamente relacionados com a Encarnação. Todos estes elementos são encontrados juntos em uma passagem de Santo Irineu: «existe de fato um só e o mesmo Espírito de Deus, o qual anunciou aos apóstolos que chegou o tempo da adoção filial [cf. Gl 4,4-5 isto é, o nascimento da Igreja], que o reino dos céus está próximo e habita entre os homens que creem no Emanuel nascido da Virgem».

 Na iconografia da Ascensão, a Virgem Orante é a imagem da Igreja terrena. O seu gesto significa a reencarnação e a Redenção de que é instrumento, e ao mesmo tempo simboliza aquela função da Igreja que consiste em assegurar a Deus uma oração incessante por parte dos fiéis. Aqui nos deparamos com um dos caminhos ideais mais importantes que ligam a figura histórica da Virgem Mãe Maria à figura sacramental da Virgem Mãe Igreja; profundidade de significado que é preservada mesmo quando a Virgem Orando aparece sozinha fora de uma cena teofânica (fig 3).

Virgem Mãe da Intercessão, de perfil mãos levantadas e rosto de 3/4

Nas composições monumentais, o módulo em pé, com o corpo de perfil, pressupõe a presença de pelo menos uma segunda personagem, Cristo, para quem se dirige o movimento da Virgem. No entanto, na maioria das vezes, a Virgem nesta postura faz parte de uma composição trimórfica no centro da qual está Cristo Senhor, enquanto a Mãe, colocando-a à sua direita, volta-se para ele e outro santo, simetricamente disposto, a faz como pendente: muitas vezes – mas não necessariamente – é São João Batista. Do ponto de vista da estrutura composicional, o módulo trimórfico é um módulo centrado, muito equilibrado e, por isso, particularmente solene, com numerosos precedentes na iconografia tardo-antiga: daí o sucesso e a frequência da sua utilização nas absides; composicionalmente, de fato, também o grupo Mãe-Filho ladeado por dois anjos ou o grupo análogo Cristo Senhor entre São Pedro e S. Paulo apresentam a mesma estrutura.

A precocidade da evidência literária relativa às composições absidais que contêm este módulo permite-nos considerá-lo como a origem da composição bizantina denominada Deesis.

– Virgem Mãe que intercede, abside, mosaico, Capela de S. Zenone, Santa Praxede, Roma, séc. IX.

Dois testemunhos literários

– a igreja chamada de La Daurade em Toulouse: a abside da igreja do século V abrigava uma representação da Virgem diante do Salvador;

– a igreja conhecida como Tetrapylon em Alexandria: Sofrônio de Jerusalém (início do século VII) descreve uma composição que foi encontrada nesta igreja localizada no centro da cidade. Da sua descrição pode-se inferir que era uma composição absidal e que era um mosaico: Cristo o Senhor ocupa o centro; ele foi ladeado pela Santa Mãe e S. João Batista. 

Composições não absidais referentes ao tipo em questão

– Virgem Mãe que intercede, Monasterium Tetripuh (Oratório do Rosário em Monte Mario). Século VII-VIII.

Conclusão

A função de intercessão da Virgem Mãe se expressa por meio de seu simples estar-ao-lado-do-Filho, numa imobilidade que o gesto do antebraço não interrompe: mesmo neste caso, a iconografia é, portanto, independente de qualquer conotação afetiva. E pode-se observar que essa mesma imobilidade significa ao mesmo tempo a perene relevância da função intercessora da Virgem Mãe no presente litúrgico.

No oriente bizantino, quando faz parte da composição dimórfica homônima, esse tipo é chamado de Virgem da Deesis quando em vez de Virgem, em pé ou a meio comprimento – como é o caso mais frequente das imagens portáteis – é representado sozinho ou junto com um suplicante, com ou sem um pergaminho na mão contendo o texto da súplica, é chamado Ele Paráclesis, ou seja, a Intercessão, ou é chamado Mãe de Deus Aghiosoritissa. No Ocidente, e particularmente em Roma, onde são venerados vários ícones deste tipo em que a Virgem aparece sozinha, a denominação é Vergine Advogada.

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