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Chamados à santidade nas pegadas de Maria

1. CHAMADOS À SANTIDADE
A expressão chamados à santidade pontua como antífona os preâmbulos do epistolário paulino: «santos por vocação» (Rm 1,7), «chamados a ser santos» (1Cor 1,2), «todos os santos de toda a Acaia» (2Cor 1,2), «escolhidos antes da criação do mundo para ser santos e imaculados diante dele na caridade» (Ef 1,4). Desde sempre as Igrejas são pensadas em Deus como um estar na santidade, como a manifestação pública, “naquele lugar” e “naquele tempo”, da verdade do homem, patente num adjetivo que se torna um nome de definição dos irmãos e das irmãs de Jesus, «santos» (Col 1,2), e da sua Igreja: «Creio na Igreja santa». Uma vocação cujo pano de fundo, sempre atual, está na experiência consignada ao escrito de Israel, ligada ao vocabulário do “santo”, qadosh.

Deus chama-se Longe

Não existe termo comparável a «santo» para definir a identidade e a verdade profunda do Deus hebraico-cristão. Assim o canta a corte celeste: «Santo, santo, santo o Senhor Deus» (Ap 4,8; Is 6,3). Assim o proclama a voz da Lei: «Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo» (Lv 19,2). Assim o confessa a Igreja terrestre na celebração da Eucaristia.

O três vezes santo isaiano e do triságion é, pois, como sublinha a raiz hebraica do termo, o «separado», o «distinto» do mundo e do homem, o «distante». Uma diversidade em si: «sou Deus e não homem» (Os 11,9), «o único que possui a imortalidade, que habita uma luz inacessível, que nenhum dentre os homens jamais viu nem pode ver» (1Tm 6,16), e que alcança também a esfera do pensar e do agir: «Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, os vossos caminhos não são os meus caminhos. Quanto o céu se eleva acima da terra, tanto os meus caminhos se elevam acima dos vossos, e os meus pensamentos acima dos vossos» (Is 55,8-9). De fato, «Deus não é um homem para mentir, nem filho do homem para se arrepender. Acaso ele diz e não faz? Promete algo e não cumpre?» (Nm 23,19).

Proclamar a santidade de Deus significa, portanto, reconhecer em primeiro lugar a radical e constitutiva alteridade em relação ao cosmos e ao homem. Significa fazer própria a oração do salmista: «Reconhecei que o Senhor é Deus, foi ele quem nos fez» (Sl 100,3). Significa proclamar com o evangelista: «Ninguém é bom, senão um só: Deus» (Lc 18,19). Um Deus não criado pelas perguntas do homem acerca da origem, do termo e do sentido do viver, não sendo, portanto, obra projetiva da sua mente e do seu coração, ainda que não seja estranho nem indiferente aos interrogativos e à busca humanos. Uma precisão útil em vista de uma não descida ao âmbito da idolatria, que aparece quando o Santo é identificado com um nosso sistema de pensamentos, de imagens, de desejos e de discursos sobre Deus. Ele é outro e além. Longe é o seu nome.

Deus chama-se Perto

A dimensão da alteridade, ainda que fundamental, não esgota a insondável riqueza do mistério de Deus.

A nunca concluída parábola de Israel crente proclamou e continua a proclamar repetidamente que o longe, o distante, o Outro, o sem pecado, em suma o Santo, ama sair da sua inacessibilidade para se fazer perto, próximo, presente. Está escrito, de fato: «Eu sou o Santo no meio de ti» (Os 11,9), vindo a ti para constituir-te «nação santa» (Ex 19,6): «Sede (pois) santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo» (Lv 19,2).

O Santo-longe torna-se Santo-perto para fazer de Israel uma porção de humanidade santa, isto é, longe e perto, separada e próxima: distante dos ídolos e dos caminhos idolátricos, aliada de Deus e iniciada no seu caminho. E ainda diversa das nações, porque a ela foi dado ser «povo sacerdotal» (Ex 19,6), nelas e por elas testemunha do Nome e do seu código de santidade, de vida boa e justa.

Esta é a vocação perene de Israel, o seu chamado à santidade que consiste numa saída do antes, a idolatria, dos pensamentos e dos caminhos não bons, e numa entrada no depois, a companhia do Deus dos pais, dos pensamentos e dos caminhos de vida e de luz. Uma passagem tornada possível pela decisão de «estar no meio» de Israel para não privar a humanidade da memória da sua presença e das suas indicações. Vocação à santidade maravilhosamente resumida neste versículo do profeta Miqueias: «Homem, foi-te ensinado o que é bom e o que o Senhor exige de ti: praticar a justiça, amar a piedade, caminhar humildemente com o teu Deus» (Mq 6,8).

Chamados a ser santos

O estar-perto do Longe, na experiência cristã, alcança o seu ápice em Jesus. Nele, o Indizível faz-se palavra (Jo 1,14), o Invisível faz-se rosto (Jo 14,9), o código da santidade resume-se e traduz-se em: «Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei» (Jo 15,12). Um como que diz novidade e plenitude. Eu vos amei como «Filho Unigénito de Deus», até à entrega da minha vida. Nele, Emanuel, verdadeiramente «Deus está connosco»; nele, Jesus, verdadeiramente «Deus salva»; nele, enfim, está a distinção entre Israel e as Igrejas. Estas últimas são chamadas à santidade por meio dele.

Uma precisão, como já foi escrito, recorrente no epistolário paulino, por exemplo na primeira carta aos cristãos de Corinto, onde a expressão chamados a ser santos alude verosimilmente à «convocação santa» do Êxodo e do Levítico (Ex 12,16; Lv 23,2-44). De fato, segundo Êxodo 10,1-8, a saída é em vista do surgimento de um povo sacerdotal, nação santa. E porque «santo», termo, repitamos ainda uma vez, que inclui simultaneamente os significados de separação e pertença, Israel é o sacerdote do Altíssimo entre as nações e para as nações. Logo, chamado à santidade como provocação a uma história alternativa, fruto da palavra acolhida de um Aliado grande em misericórdia e empenhado em renovar a face da terra, em fazê-la um Éden onde correm leite, mel, vinho, justiça, direito e paz. No «fragmento de Israel» está incluído e significado o projeto de Deus sobre o todo.

Este pano de fundo, subentendido na expressão «chamados a ser santos» aplicada aos eleitos em Corinto, especifica-se porém, como já se acenou, por uma sua peculiaridade. O Deus que, no interior daquela grande cidade helenística, decide criar para si uma porção dedicada a ele e aos seus caminhos, arrancando-a do antes idolátrico (1Cor 12,2), fá-lo mediante Jesus Cristo. O passivo teológico «santificados em Cristo Jesus» (1Cor 1,2) é claro e iluminante. Os chamados pelo Pai em Corinto o são por meio de Cristo Jesus e em vista da comunhão com Cristo Jesus, seu Filho e Senhor nosso (1Cor 1,9). Filho-Senhor que santifica, subentende-se, através da efusão superabundante do grande dom, fonte de todos os dons (1Cor 1,5): o Espírito Santo, que faz dos eleitos a assembleia de um só Deus, o Abbá de Jesus, de um só Senhor invocado e aguardado (1Cor 1,2; 16,22), de um só mandamento, a ágape (1Cor 13), que torna os dias irrepreensíveis (1Cor 1,8).

O porquê de um convite é evidente. Deus chama para fora da idolatria, santidade como «separação», para que alguns entre os coríntios se tornem seus aliados, santidade como «pertença». E fá-lo em Jesus Cristo, interpelando os chamados a tornarem-se conformes ao Filho (Rm 8,29), carta de Cristo escrita com a tinta do Espírito do Deus vivo e legível por todos os seres humanos (2Cor 3,2-3), em suma «nação santa» (1Pd 2,9).

Mais uma vez, o chamado à santidade tem uma evidente dimensão política. Ser, na polis, na cidade, as testemunhas do Pai de Jesus Cristo e do seu sonho: livres de todo pseudo-ídolo-ideologia e repletos de um Espírito que faz acontecer o impossível, a koinonia com o Abbá-Pai no Senhor Jesus, a reconciliação dos diversos no amor, a espera orante da irrupção de «Deus tudo em todos» (1Cor 15,28). Definitivamente livres de todo mal e da morte.

Santidade como cristoformidade

Nova criatura

Na experiência cristã, o chamado à santidade é, portanto, obra do Pai, pelo Filho, no Espírito e, mais especificamente, pode ser definido como um apelo a tornar-se conforme a Cristo, à sua imagem e semelhança e nele conforme ao Pai. Ele é, de fato, o Santo de Deus no meio de nós, isto é, o «mistério escondido» e tornado manifesto «no último tempo», como manifestação plena e interpretação consumada do Inefável e do seu caminho inefável. Assim, «chamados… e predestinados a ser conformes à imagem do seu Filho» (Rm 8,28-29), de tal modo que «somos transformados nessa mesma imagem, de glória em glória, segundo a ação do Espírito do Senhor» (2Cor 3,18). Dizer «Igreja santa» e «discípulos e discípulas santos» quer simplesmente dizer tornar-se aquilo que somos chamados a ser, semelhantes a Cristo e nele ao Pai, no Espírito: «Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito», uma perfeição feita carne e visível no Senhor Jesus. Não há outros critérios para definir a santidade cristã.

Trata-se de um acontecimento que comporta uma transferência e volta o significado etimológico do termo santo como separação de e proximidade a. Leiamos: «É Deus, com efeito, que nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o Reino do seu Filho amado», (Cl 1,13). Uma proximidade que os sinóticos traduzem como estar com ele no seguimento, Paulo como estar nele e João como permanecer nele, no seu amor e na sua palavra. Um acontecimento que implica uma transformação e volta o significado etimológico do termo santo como separação do velho, do antes, e assunção do novo, do agora.

«Se alguém está em Cristo, é nova criatura», (2Cor 5,17), um homem novo (Ef 2,15; 4,24; Cl 3,10) conforme a ele (Rm 8,29; 2Cor 3,18) no pensar (1Cor 2,16), no sentir (Fl 2,5), no agir (1Jo 2,5) e no morrer e ressuscitar (Fl 3,10-11). A cristoformidade é, portanto, a nova forma de existência dada às Igrejas, pérola realmente preciosa: «O que conta é ser nova criatura» (Gl 6,15). E é dada como resposta à pergunta da contemporaneidade sobre a qualidade da vida, pergunta que não pode ser frustrada na sua expectativa de uma grande visão, a cristofania como prolongamento, na vicissitude humana, da compaixão cósmica e ativa do Senhor Jesus. Esta deve tornar-se a língua materna de todas as Igrejas, verdadeiramente universal e visível, audível e compreensível por todos.

Compaixão traduzida, antes de tudo, em custódia do direito do pobre e da natureza, atenta ao grito dos oprimidos e ao gemido da criação, capítulos constitutivos da espiritualidade cristiforme deste como de todo tempo. Portanto, a santidade como prolongamento do ato cristológico até morrer por ele, o martírio como ser, sem qualquer preclusão, com e para o outro até ao dom incondicionado de si, epifania do rosto do Pai e do rosto do homem feitos carne e história em Jesus, caracterizará cada vez mais as Igrejas na história. Unidas na visibilidade da novidade existencial em termos de práxis messiânica.

Acontecimento que equivale, por parte das Igrejas, a declarar concluído o tempo da categoria do inimigo e do uso da espada em nome de Deus e em defesa das razões de Deus: «Basta assim». A verdade de Deus em Cristo é bocado de pão para quem trai, é perdão para quem te mata. Seja quem for.

Pão duro de digerir, que qualifica, em terceiro lugar, a santidade como acontecimento de luta, o agón e a agonia da ascese como exercício de morte e de vida. Santo é quem, no Espírito, toma distância da morte, a negação aberta de Deus e do homem determinada pela mundanidade geradora do homem velho; é quem, no mesmo Espírito, entra na vida geradora do homem novo como lugar através do qual o amor do Pai, que concede graça no Filho e que abre à comunhão no Espírito, continua a tornar-se companhia humana. De figuras assim e de uma Igreja assim a terra tem necessidade. Santidade como êxtase da história, como o de outro modo da história.

O de outro modo da história

A terra, portanto, reclama uma santidade da não homologação a este mundo e do não fugir deste mundo, do estar-aí de modo outro. As metáforas evangélicas da luz, do sal e do fermento não deixam dúvidas a respeito, assim como as exortações a estar no mundo mas não ser do mundo, a não se conformar com a sua lógica, assim como um vocabulário altamente evocativo ao sugerir às Igrejas o modo de habitar a terra.

Enviados por graça.

O saber-se e o sentir-se, como Igrejas, um dom da livre e gratuita iniciativa de Deus ao mundo.

Estrangeiros e peregrinos

A expressão estrangeiros e peregrinos (1Pd 2,11; Hb 11,13) sugere o de onde, o para onde e o como das Igrejas e dos discípulos do Senhor na história. «A nossa pátria está nos céus» (Fl 3,20), de lá viemos e para lá vamos: «não temos aqui embaixo uma cidade permanente, mas buscamos a futura» (Hb 13,14), vivendo, entretanto, «como cidadãos dignos do Evangelho» (Fl 1,27).

No aqui e agora da diáspora (1Pd 1,1), estar segundo a pátria de onde se provém e para a qual se tende na espera. «Ora, pátria indica propriamente uma cidade com o seu governador, regulada por determinadas normas ou leis às quais devem ater-se quantos nela habitam com direito de cidadania. Normas e leis que dão sentido e ordem ao viver individual e social». Isto quer dizer: viver o aqui e agora terrestre determinados e orientados pelo céu. Portanto, uma «espiritualidade da estranheza» como não identificação, na raiz, com as pátrias naturais e culturais, fora de lugar e em diáspora em todo lugar e uma «espiritualidade da peregrinação» nas pegadas do itinerário do Filho: de lá do alto, o princípio inefável, para cá embaixo, para lá do alto, a meta inefável esperada e para a qual se caminha. Profetas das origens, das consumações e daquele que abre ao sentido o dia e a hora dados para viver.

Sentido dado pelo caminhar com os homens, numa companhia amante até a cruz. O estar-aí das Igrejas e do cristão na história conjuga, portanto, ao mesmo tempo as categorias do além, do de outro modo e da companhia. A ‘mundanidade’ (estar no mundo), a ‘contemporaneidade’ (estar neste mundo) e a ‘eticidade’ (estar-aí como Deus em Cristo) é o que coube em sorte aos discípulos do Senhor. É a sua santidade, que consiste num estar-aí como participação no amor até à dor de Deus pelo mundo. Igrejas como lugar através do qual o Emanuel, Deus conosco, continua a fazer-se Jesus, Deus salva, por este pobre mundo.

Aparição e metamorfose

Igrejas, portanto, como companhia da fé cuja obra, por pura graça, é o testemunho, no quotidiano da vida, do ágape do Inefável, do qual cada crente é chamado a ser fragmento visível, aparição, sinal de uma transformação não impossível do homem à estatura do homem verdadeiro e verdadeiro Homem que é Cristo Jesus, o Ecce Homo, janela aberta sobre o mistério de Deus e sobre o mistério do homem.

Nas pegadas de Santa Maria: código de santidade

A Igreja e os cristãos são, portanto, os chamados à santidade nas pegadas, isto é, segundo o exemplo e os traços de Cristo Jesus: «Cristo vos deixou um exemplo, para que sigais as suas pegadas» (1Pd 2,21), Ele, a marca de Deus a seguir, o capítulo da santidade como sequela Christi in Spiritu. Só depois de sublinhar este discurso como o “decisivo” podemos recuperar o tema da imitação dos imitadores: «sede meus imitadores», escreve Paulo aos Coríntios (1Cor 4,16), precisando pouco depois: «sede meus imitadores como eu o sou de Cristo» (1Cor 11,1). Portanto: «sabeis como deveis imitar-nos» (2Ts 3,7), «tornastes-vos nossos imitadores e do Senhor» (1Ts 1,6). Por isso: «imitai a fé dos vossos chefes» (Hb 3,7), e ainda: «caminhemos nas pegadas da fé de Abraão» (Rm 4,12) e, como compreendeu desde o princípio a tradição cristã iluminada pelo Espírito, «nas pegadas da fé de Maria». A um pai na fé acompanha-se uma mãe na fé.

Este é o delicado capítulo da relação entre a existência cristã e os santos, cuja presença e cujo tipo de exemplaridade necessitam de uma constante atenção crítica. Um estar-aí não no sentido de “intermediários” para facilitar o acesso a Deus e aos seus favores, como se Cristo não bastasse como único interlocutor entre Deus e o homem e o homem e Deus, mas no sentido de “companhia” expressiva de uma amizade e de uma fraternidade jamais interrompidas, a comunhão dos santos não interrompida pela morte. Assim, a comunhão com a Mãe do Senhor não é com uma deusa ou semideusa, mas com uma mulher totalmente do nosso lado, para nós e para as Igrejas presença, memória e profecia. Uma companhia que, por exemplo, recorda profetizando, no seu próprio corpo e à sua maneira, o código de santidade.

Cristo, santidade de Deus, é dito tal por muitos códigos: as Escrituras celebradas na Liturgia, explicadas pelos Padres e legíveis na vida dos mais semelhantes a Ele. Entre estes, Maria, definida pela tradição forma disciplinae Christi e por Dante no Paradiso 32,85: «Rosto que mais se assemelha a Cristo». Maria, portanto, como código de santidade, daquela que em Jesus encontrou a sua mais alta expressão, porque Nele, o Santo do Santo, a própria santidade tornou-se um de nós. Um código, Maria, portanto, a ser folheado capítulo após capítulo. Limitamo-nos a enumerar alguns títulos, o suficiente para uma leitura da santidade em termos de evento de graça, evento de fé. A origem, a forma e a tarefa peculiar da santidade são um dom que, quando acolhido, introduz num novo horizonte de conhecimento e numa nova ordem de existência.

Maria, código da graça

«Santo é o seu nome» (Lc 1,49) é o título do capítulo com que se abre o código de santidade “Santa Maria”. Isto quer dizer, em sintonia com a tradição judaica e cristã e resumindo-a, que o fenômeno da santidade não pertence ao gênero das coisas disponíveis ao homem. Está fora do horizonte dos seus desejos, dos seus pensamentos, dos seus projetos, das suas decisões e das suas possibilidades. Em suma, do seu nome. Ela habita no outro do homem e no além do homem, naquele que a Oração Eucarística proclama «Santo, fonte de toda santidade». A autorreferencialidade como sujeitos proprietários da própria santidade, como Igreja e como cristãos, é cortada pela raiz. O homem não é o alfa, o princípio, a origem e a causa. À semelhança do Doador, Santo, também ela, a santidade, é distante e escondida, um “nunca visto” e um “nunca ouvido”. Capítulo importantíssimo para reconhecer e fazer reconhecer a radical indisponibilidade e alteridade de Deus e da sua via, premissa indispensável para uma justa colocação e uma justa atitude: estar diante do Mistério em disponibilidade. O Santo e a santidade pertencem ao horizonte do dom a acolher: «Santo é o seu nome», e santa é a sua via, nem um nem outra conquista de uma ascese, mas graça de uma descida. O judaísmo e o cristianismo não são, em primeiro lugar, a religião da ida do homem a Deus, mas da vinda de Deus ao homem, sem a qual não se dá conhecimento algum nem dele nem da sua palavra orientadora. Com isto não se quer negar o anseio totalmente humano por outro e por além, a história do autotranscender-se do homem. Quer-se apenas afirmar que, se o gemido não é acolhido por aquele Outro que habita além, a tensão permanece sem atenção e a espera sem encontro.

«Olhou para a humildade da sua serva» (Lc 1,48), «encontraste graça diante de Deus» (Lc 1,30), «o anjo foi enviado por Deus… a Maria… entrou onde ela estava» (Lc 1,26-28), «o Senhor é contigo» (Lc 1,28). Estes são os parágrafos do segundo capítulo do código de santidade chamado Maria. O in principio da santidade, a sua conotação fontal, está na experiência de um dom puríssimo que não vem do homem, mas de Deus (Ef 2,8): ser olhado com benevolência e ser visitado com benevolência por um Distante que, livremente, gratuitamente, soberanamente e unilateralmente, decidiu fazer-se próximo, «contigo», entrar no teu espaço de vida, «entrou onde ela estava». Uma experiência desconcertante que dá o que pensar: Maria «ficou perturbada… e refletia sobre o sentido» (Lc 1,29). Isto recorda e profetiza o código de Santa Maria: santa é a Igreja e santa é a criatura iniciada, sem mérito algum e sem pretensão alguma, no saber-se olhada com benevolência e encontrada com benevolência por um Deus que pede companhia, estupor e reflexão. O olhar e o encontro do Santo, do Deus outro e inocente, que torna inocentes aos seus olhos quantos fazem espaço à sua presença amiga. A manhã da santidade está em ser olhado com amor e visitado com amor. Quem quer que sejas: amor non invenit, sed creat diligibile, anota com sabedoria Lutero. A santidade vem a nós de além de nós.

«Foste embelezada» (Lc 1,28). Assim se intitula o terceiro capítulo. O vir de Deus a Maria é em vista da verdade de Maria, isto é, de coincidir com o modo como Deus sonha o homem: criatura boa, capaz de realizar o bem e, por isso, bela, amável e cheia de graça, como o bosque dourado pelo sol do outono. Isto é o que profetiza o código de santidade “Santa Maria”. Pela graça, Ele a tornou ícone da criação incontaminada das origens e das consumações. A vinda do Totalmente Outro é para que os visitados se tornem totalmente outros do que são: «santos e imaculados diante dele na caridade» (Ef 1,4-5), «irrepreensíveis» (Cl 1,22). Belos e bons à semelhança do «mais belo entre os filhos dos homens», Cristo, beleza de Deus porque tradução da bondade de Deus para o amigo e para o inimigo até morrer por isso. Nele, a via crucis foi convertida em via pulchritudinis. No «foste embelezada» revela-se, portanto, o porquê de uma saída de Deus do seu silêncio: tornar bela cada criatura sob o sol, remodelando-a no Espírito segundo Cristo. Santo, tema já desenvolvido, é o homem imagem de Cristo e santa é a Igreja imagem de Cristo, dom de novidade e de possibilidade de Deus na história.

«Entrando onde ela estava, disse… Eis que conceberás… o Espírito Santo descerá sobre ti… o menino que nascer de ti será santo… Jesus… Filho do Altíssimo… Filho de Deus» (Lc 1,28.31-35). Quarto capítulo de um código estreitamente ligado aos anteriores. O vir, na graça, do Outro, o único bom, é em vista de uma criação outra, boa, destinada, como nova aurora, a dar luz ao sol da justiça, destinada, como nova terra, a conter e a tornar-se porta do céu. Aquela que foi gerada para a beleza é chamada a gerar o mais belo entre os filhos dos homens, o dom perfeito de Deus, portador dos dons perfeitos de Deus: o perdão, a palavra, o amor, a vida eterna, o Espírito Santo e a própria Maria dada como mãe à Igreja amada (Jo 19,25-27). Dada como cifra de uma vocação específica e permanente. Nas pegadas de «Santa Maria», mãe do Filho do Altíssimo, Filho de Deus, tornar-se «Igreja santa», isto é, humanidade posta à parte em vista de um pensamento e de um caminho radicalmente outros (Is 55,10-11), tanto pela proveniência quanto pela bondade. No Espírito de uma perene Pentecostes, o caminho de Deus é gerar para o mundo o «Deus conosco», o «Deus por nós», o pensamento de Deus. A vocação peculiar da Igreja e do discípulo, à luz do código “Santa Maria”, é a da geração: ser o lugar através do qual, no Espírito, o Filho continua a fazer-se história e companhia, e isso mediante o testemunho (At 1,8) da palavra, da vida e do sangue.

Vocação, aspecto importantíssimo, na palavra. No «disse» do anjo a Maria está resumida a experiência de Israel, «povo da escuta» da palavra na lei, nos profetas e nos sábios. E está profetizada a experiência da Igreja, povo da escuta do próprio Verbo feito carne: «Deus, que outrora tinha falado muitas vezes e de muitos modos…, nestes últimos dias falou-nos pelo Filho» (Hb 1,1-2). O distante faz-se próximo pela palavra.

«Alegra-te» (Lc 1,28) – «Bendita» (Lc 1,42). O convite, imperativo, à alegria é a primeira palavra que Deus, no seu mensageiro, dirige a Maria. É a primeira palavra que Deus dirige a quantos o encontram. Recapitulação dos anúncios de salvação à filha de Sião, essa saudação é uma ordem de saída do medo diante de Deus. Ao Adão de sempre que diz: «Ouvi o teu passo… tive medo… escondi-me» (Gn 3,10), Deus responde: «Não temas» (Lc 1,30). O seu é o passo de quem se preocupa unicamente com a tua alegria, com cobrir de luz a tua vergonha, a tua nudez (Gn 3,10). E as razões da exultação não faltam. São as já indicadas até aqui pelo código de santidade “Santa Maria”. Alegra-te porque o Santo, o outro de ti tanto pelo lugar quanto pelo pensar, gratuitamente e livremente vem a ti, Igreja e discípulo, como palavra para te tornar santo, isto é, outro. Uma diferença de colocação, no seu ambiente divino. Uma diferença quanto ao modo de ser e de existir: olhado com amor, chamado pelo nome, aberto ao diálogo com Ele, revestido de luz e tornado capaz de amar nas pegadas de Cristo. E, por fim, outro pela singularidade da tarefa: gerar o Verbo ao mundo para alegria e salvação do mundo, testemunhas com uma presença que não incute medo da existência do Deus de “Santa Maria”, mas alegria para o homem.

Maria, código da fé

A santidade doada, a nova existência em Cristo, segundo Cristo, por Cristo, como excedência de verdade e de sentido, atinge existencialmente o seu escopo quando se torna santidade acolhida em inteira confiança, fidelidade e firmeza, abertas ao perdão do seu contrário. E Santa Maria, código da graça, torna-se código da fé.

«Serva do Senhor… faça-se em mim aquilo que disseste» (Lc 1,38). A iniciativa tem o nome do Outro: «Santo é o seu nome», e o projeto do outro sobre si. A iniciada tem o seu próprio nome e o seu próprio agir: sou tua serva, a serviço da tua palavra. É o Outro que define a identidade e a tarefa de Maria. Nisto há um índice evidentíssimo do “em que consiste” a santidade: deixar-se definir e projetar pelo Senhor e pela sua palavra. Santidade como saída de si, do dar-se o nome, e dos seus projetos, da própria vontade, para tornar-se do outro, servo é o meu nome, e para o outro. Titular da sua decisão é o meu projeto, em radical disponibilidade: «Eis-me aqui» (Lc 1,38). O que distingue o santo nas pegadas de Santa Maria é o corte, na raiz, da autorreferencialidade, o primado do eu, constituídos, na raiz, propriedade do Outro e do seu Evangelho. Terra de Deus no Senhor Jesus. As citações e as experiências bíblicas e da história da santidade sobram ao sublinhar que a santidade donum, o ser feito amigo de Deus e posto a parte nas suas decisões, é simultaneamente santidade munus, uma tarefa da qual assumir publicamente o encargo, aderindo à ordem recebida e amando o Doador mais do que o eu e do que as coisas mais queridas.

Uma adesão-aderência de traços precisos. Aqui entramos no mérito da qualidade e da articulação da resposta da fé. O ser para Deus de Maria qualifica-se e articula-se como acolhimento de uma presença, o Filho, que acontece e se desenrola no tempo, no temor (Lc 1,29), no assombro (Lc 2,18.48), na alegria (Lc 2,46-55), na dor (Lc 2,34-35), na obscuridade da compreensão (Lc 2,50; Mc 3,31-34; Jo 2,2-4), na pergunta (Lc 1,29.34; 2,48) e na reflexão (Lc 2,19). A relação de Maria com o Pai, em referência ao Messias, está na linha de um sim total que introduz Maria no horizonte da visão da fé como hospitalidade não frustrada e nunca interrompida de um Verbo ao mesmo tempo compreendido e não compreendido, na especificação da sua messianidade (Mc 3,31-34), júbilo e espada, dado, perdido (Lc 2,43-46), tirado (Jo 19,26) e devolvido juntamente com os amigos (At 1,14; Jo 19,27). Um caminhar com Deus, em relação a Cristo, que faz de Santa Maria a mulher não subtraída ao ofício tipicamente humano de “interrogar-se”: «que significa isto?» (Lc 1,29), de “perguntar”: «como acontecerá isto?» e «por que nos fizeste isto?» (Lc 1,34; 2,48), «não têm mais vinho» (Jo 2,3), e de “refletir”: «Maria, por sua parte, conservava todas estas coisas, palavras e acontecimentos, meditando-as no seu coração» (Lc 2,19). Um «por sua parte» que se torna um resumo admirável da ars cogitandi de nossa parte. Um código em miniatura da arte de pensar o próprio vivido em relação a Cristo.

Primeiro, recolher na profundidade palavras e acontecimentos dele e sobre ele. É o momento de colocar e conservar no lugar justo, no coração das coisas a recordar. A interioridade como lugar da memória guardiã, tabernáculo da conservação da presença e dos fragmentos. Segundo, trata-se de compor juntas tais coisas. É o momento da ligação, como libertação da fragmentariedade dispersiva das memórias. Terceiro, trata-se de ler tais acontecimentos e palavras à luz de toda uma história presente e passada. É o momento de situar e de compreender a própria experiência no leito do contexto próximo e da grande tradição. Cada um, na escola de Maria, é um fragmento iluminado pelo todo e iluminante do todo, fragmento iniciado a um conhecimento supereminente. Aquilo que és e aquilo que está acontecendo em ti é evento da misericórdia de Deus (Lc 1,54) para Israel, para as Igrejas e para o mundo. Uma misericórdia “subversiva” (Lc 1,51-53).

O olhar de Deus no olhar de Myriam, a bela, torna-se já agora celebração cantada daquilo que não terá futuro: a soberba da vida, a autossuficiência do dinheiro, a arrogância do poder e da cultura, e a presunção de uma justiça reivindicada como fruto de uma religiosidade ostentada e de dedo apontado. Esta é a liturgia dos humildes, humildes porque não se auto proclamaram grandes, mas porque por Deus foram feitos grandes (Lc 1,49) e tornados capazes, como sugere o étimo de magnificar, de tornar Deus grande (Lc 1,46) no seu existir. Em quarto lugar, Maria é cifra de conjugações que não podem ser separadas: o coração novo, o «foste embelezada», que se diz num canto novo, o «Magnificat», e numa existência nova, o «Fiat», como geração e comunicação do Filho a Israel (Lc 1,43; 2,16) e às gentes (Mt 2,11). Filho a ser escutado (Jo 2,5) e a ser seguido até a cruz (Jo 19,25-27).

O discurso explicita-se. Memorial da proximidade gratuita e querida de um Deus apaixonado pela verdade do homem e amigo que revela aos aliados os seus desígnios, Maria o é também do modo de estar diante de Deus. Em termos negativos, uma “tipologia da resposta” não confiada ao sentimento, à preocupação de si e à pretensão de tudo claro e óbvio. Em termos positivos, uma “tipologia da resposta” no sulco da grande tradição de Israel e das Igrejas. Resposta que qualifica a santidade como adesão incondicionada à palavra nua, que desnuda de si e das razões do si. Para tornar-se, no Espírito, lugar do Verbo fora de ti, que vem a ti, Igreja e cristão, para sair contigo em direção à vida como boa notícia do perdão, da sabedoria, do amor e da ressurreição de Deus.

O santo, segundo o código de santidade “Santa Maria”, é o cortado de si, o alienado por excelência, constitutivamente para Deus e para o homem: gerar para a terra o Filho com o próprio rosto, com a própria palavra, com a própria vida e com a própria morte. Um donum-munus que constitui a maravilhosa razão da sua vida ao mesmo tempo pensada, jubilosa, sofrida e na espera. Como os mistérios do rosário refletidos com Maria diante de Deus: gozosos, dolorosos e gloriosos.

Maria, código de representatividade

Uma última observação. Maria, filha da graça, filha do mandamento, filha da obediência da fé, filha da ressurreição, é para as Igrejas e para os discípulos um índice de uma santidade representativa. Na sua eleição, é Israel, são as Igrejas e é o mundo que são chamados. No seu Fiat e no seu Magnificat, é Israel, são as Igrejas, é a humanidade e é o universo que pronunciam o sim no canto. Isto diz “filha de Sião” e “nova Eva”. Código de como a santidade não pode ser compreendida senão em termos de catolicidade e de ecumenicidade.

Fragmentos, índices da presença de Deus ao todo e ao particular. Fragmentos, índices da presença do todo e do particular a Deus. Microcosmo do macrocosmo. Criaturas que leem a si mesmas como «o Senhor com todos» e «todos com o Senhor». Intercessores cósmicos numa misericórdia que alcança o todo e que abraça o particular: uma criança que nasce na pobreza, uma mulher idosa na necessidade, um casal de esposos sem vinho e um homem crucificado.

Daniel Afonso

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