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Clemente de Alexandria: a esperança na formação do verdadeiro gnóstico

Clemente de Alexandria (c. 150 – c. 215), grande representante da Escola de Alexandria, desenvolveu uma teologia marcadamente filosófica e catequética, conjugando elementos bíblicos e platônicos. Em suas obras, ele discute a esperança (ἐλπίς) como virtude cristã, embora não lhe dedique um papel preeminente entre os temas da fé (πίστις) e do amor (ἀγάπη). Ainda assim, a análise de seus escritos — sobretudo os Stromata (Miscelâneas), o Paedagogus e o tratado Quem Dives Salvetur? — revela que a esperança desempenha funções cruciais na espiritualidade e na busca de perfeição do “verdadeiro gnóstico.”

A definição e a função da esperança em Clemente

Clemente de Alexandria descreve a esperança, em seu sentido geral, como a “expectativa de bens futuros e espirituais” (Stromata 2, 27, 2; 41, 1; 54, 5). Ela se articula com a fé, pois olha para a verdade e o bem do futuro:

Clemente, Stromata 5, 16, 1
“Assim, ela contempla a verdade que virá, e o bem que a alma anseia, tendo-se confirmado nas palavras do Senhor (cf. João 16,4; Platão, Fédon 65d).”

Em outras passagens, a esperança integra a sabedoria almejada pelo filósofo cristão:

Clemente, Stromata 6, 54, 1–55, 1
“O verdadeiro conhecimento não se contenta com o que é terreno, mas eleva seu olhar para o alto, sustentado pela esperança no bem transcendente.”

Clemente identifica frequentemente a esperança como parte de um caminho que se inicia na fé (πίστις) e culmina na gnose (γνῶσις), tendo o amor (ἀγάπη) no centro do processo:

Clemente, Stromata 2, 31, 1; 41, 1; 45, 1
“A esperança, como o amor, situa-se na transição entre a fé e a gnose.”

Em um contexto de “purificação”, a fé prepara o discípulo, mas é a esperança que antecipa a bem-aventurança e motiva o amor.

Clemente, Stromata 1, 173, 6
“No itinerário em que a fé se converte em conhecimento, a caridade atinge a plenitude da bem-aventurada esperança.”

Duas modalidades de esperança: expectativa e realização

Seguindo as epístolas paulinas e o ensinamento de Hebreus, Clemente distingue:

  1. Esperança de expectativa: voltada ao futuro, ancorada na promessa divina ainda não consumada.
  2. Esperança de realização: um estado de bem-aventurança já antecipado ou experimentado aqui e agora.

Clemente, Stromata 2, 134, 1–136, 6
“A esperança não é mero sonho vago, mas sim a convicção de que o futuro prometido se realiza progressivamente, como Paulo afirmou em Romanos 5,4–5 e Gálatas 5,5–6.”

Nessa perspectiva, a esperança pode significar tanto a atitude de quem se volta para as promessas de Deus quanto a alegria presente de quem já experimenta algo da “bem-aventurança” no amor.

É relevante notar que Clemente não fixa a esperança em uma hierarquia rígida de virtudes:

Clemente de Alexandria, Paedagogus 1,6,38,3
“Pois a esperança (ἐλπίς), surgindo como princípio vital da fé, prepara a alma para receber, do alto, as promessas divinas. Em verdade, como alguém poderia aproximar-se confiantemente de Deus sem antes vislumbrar, pela esperança, os bens futuros que Ele concede?”

Clemente de Alexandria, Stromata 4,42,2
“Ainda que a fé se dirija tanto às realidades cumpridas quanto às que hão de vir, é pela esperança que essas promessas futuras se tornam princípio de confiança para o crente. Assim, a alma avança na certeza de que o Bem prometido não falha, nutrindo-se da esperança enquanto cresce na compreensão dos mistérios divinos.”


Por outro lado, também a classifica como um tipo de fé orientada ao futuro. Tais variações revelam a flexibilidade com que Clemente lida com a virtude da esperança.

Fundamentos e implicações morais

No quadro da teoria do conhecimento religioso de Clemente, a esperança se baseia na fidelidade e no poder de Deus, não sendo apenas suposição ou “opinião provável”:

Clemente, Stromata 2, 27, 1–28, 2
“A esperança cristã, como expectativa do bem, distingue-se de outras formas de ‘esperança’ por ser uma ‘apreensão firme’ (διάληψις) de uma realidade.”

Essa convicção nasce do cumprimento presente das profecias e promessas divinas, reforçadas pelo testemunho dos profetas e da vida de Cristo.

Clemente, embora critique um temor servil e a esperança de recompensa meramente material, não descarta o papel moral de ambos:

Clemente de Alexandria, Stromata 4,144,1
“O temor e a esperança, quando fundamentados unicamente no castigo ou na recompensa, não configuram, segundo Platão e Heráclito, a virtude perfeita. Pois aquele que só evita o mal por medo de punição ou persegue o bem por desejo de ganho não caminha na genuína liberdade. Platão, em suas obras, e Heráclito, em seus fragmentos, já haviam advertido que esse tipo de motivação não afasta o espírito do interesse egoísta. A verdadeira virtude cristã, portanto, transcende esse receio servil e essa expectativa de lucro, ordenando as almas a buscar a comunhão com o Bem em si.”

Ao mesmo tempo, ele reconhece seu valor pedagógico, pois conduz à filiação divina:

Clemente, Stromata 1, 172, 1–3
“O temor conduz ao respeito, e este, à escuta atenta do que Deus ordena; assim se abre caminho para a esperança do bem, culminando no amor.”

Esperança e perfeição cristã

A esperança caminha junto ao arrependimento:

Clemente, Stromata 2, 41, 1
“Ambas — a esperança e a conversão — conduzem ao amor.”

Clemente também a associa à paciência (ὑπομονή) e ao martírio:

Clemente de Alexandria, Paedagogus 1,5,21,3–22,3
“Assim como o médico habilidoso não apenas trata as feridas mais graves, mas também orienta o paciente a permanecer firme e evitar recaídas, assim o nosso Pedagogo divino (Cristo) nos exorta a enfrentar as adversidades. A perseverança (ὑπομονή) nutre-se da esperança (ἐλπίς), e a alma que se dedica à escuta de Seus ensinamentos encontra ânimo para suportar a provação. […] Pois, se a dor ou a perseguição se abatem sobre os fiéis, a esperança que antecipa os bens divinos torna-se um remédio eficaz contra o desânimo. Desse modo, a Igreja peregrina descobre que o peso das tribulações presentes não se compara à glória que há de se revelar, e quem vive nessa confiança não precisa temer as ameaças do mundo.”

Clemente de Alexandria, Stromata 4,41,1–4
“Alguns entendem o martírio unicamente como derramar sangue por Cristo; todavia, existe outra forma de ‘martírio’ aos olhos de Deus: a renúncia diária às paixões e a adesão fiel ao Mandamento. Para esse testemunho contínuo, a esperança (ἐλπίς) e o amor (ἀγάπη) revelam-se decisivos. Portanto, mesmo não experimentando o martírio cruel, esse discípulo ‘morre para o mundo’ e vive para Deus, na esperança de partilhar da glória prometida. Se a coragem para enfrentar a morte visível é louvável, não menos sublime é aquele que mortifica o ego e suporta as provações interiores por fidelidade ao Senhor. Assim, amor e esperança podem, em certo sentido, substituir o martírio de sangue, pois o crente, sustentado por esses dons, vive como quem se oferece por inteiro a Deus. Este estado de entrega provém de uma fé inabalável, que não se move por temor servil ou expectativa de recompensa, mas pelo desejo de unir-se ao Bem em si.”

Na procura por autodomínio (κρατερία), Clemente destaca a esperança como portadora de uma “posse contínua da vida”:

Clemente, Stromata 2, 108, 4
“Aquele que liberta suas paixões, persevera na paciência e se submete ao Senhor, este desfruta já agora da esperança esperada (cf. Mateus 10,39; Platão, Fédon 83d).”

Essa “esperança esperada” aponta para uma experiência de vida eterna que tem início na história, mas se consuma na comunhão divina.

A esperança no “verdadeiro gnóstico”

Clemente distingue os “crentes simples” — ligados ainda ao temor e à esperança — dos “gnósticos”, que alcançam um amor perfeito. No entanto, mesmo o gnóstico não prescinde de esperança:

Clemente, Stromata 7, 67, 2
“Se é verdade que o gnóstico vive num grau superior, ainda assim nele permanecem o temor inicial e a esperança, que o salvaguardam da dispersão no mundo.”

Ao manter seu foco em Deus, o gnóstico, como o povo de Israel no deserto, “depõe toda a esperança” em Deus:

Clemente, Stromata 7, 78, 3–4
“Evitando os ídolos deste mundo, o gnóstico cumpre o primeiro mandamento e não se aparta daquele em que confiou.”

O início de tal caminho purificador é o batismo:

Clemente, Stromata 4, 160, 2–3
“O re-nascimento em Cristo inaugura o itinerário que conduz à esperança bem-aventurada (Stromata 5, 14; 4, 56, 1–58, 4), comum a todos os fiéis, mesmo que cada um a experimente em graus distintos.”

Assim, o gnóstico “almeja na esperança as mesmas coisas que seus irmãos”, pois a perfeição não suprime a comunhão eclesial, mas a eleva (cf. Stromata 7, 77, 2; 2, 41, 1).

Conclusão

Para Clemente de Alexandria, a esperança não ocupa um lugar fixo em uma hierarquia de virtudes, nem recebe a ênfase que outras tradições cristãs lhe conferiram. Ainda assim, ela permeia suas reflexões sobre a vida espiritual e o “verdadeiro gnóstico,” desempenhando papéis fundamentais:

  1. Dimensão escatológica e presente: a esperança abrange tanto a expectativa futura da bem-aventurança quanto a realização antecipada do bem.
  2. Articulação com a fé e o amor: Clemente vê a esperança como o elo entre a fé inicial e o amor perfeito, influenciando todo o itinerário cristão.
  3. Integrada ao temor, à paciência e ao arrependimento: longe de excluir a reverência ou a contrição, a esperança os complementa e lhes dá sentido transcendente.
  4. Bases filosóficas e bíblicas: aproveitando-se de Platão, dos estóicos e da Sagrada Escritura, Clemente constrói um conceito de esperança cristã como “apreensão firme” e confiante adesão a Deus.

Em síntese, a esperança clementina não é simples “sentimento de expectativa,” mas uma virtude que sustenta o progresso espiritual, conformando o fiel à imagem de Cristo e elevando-o rumo ao amor perfeito, em comunhão com todo o Corpo de Cristo. Ainda que Clemente a apresente como menos destacada que outras virtudes, a esperança se prova essencial no caminho do batismo até a plenitude gnóstica.

Daniel Afonso

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