Surgens autem mane prima sabbati, apparuit primo Mariae Magdalenae.
Mc 16,9 – Evangelho do Sábado da Oitava da Páscoa
Meditação mariológica a partir das leituras do Sábado da Oitava da Páscoa (Mc 16,9-15)
«Tendo ressuscitado de manhã cedo, no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a Maria Madalena», (Mc 16,9). O Evangelho de Marcos, o mais antigo, é explícito: a primeira testemunha pascal é uma mulher chamada Maria. A questão que a mariologia não pode evitar: que relação existe entre esta Maria e a outra Maria, a Mãe? A tradição da Igreja sempre soube que as duas Marias, Madalena e a Mãe, são testemunhas do mesmo mistério, por caminhos distintos.
Não é acidente que o nome mais frequente entre as mulheres ao pé da Cruz e ao pé do Sepulcro seja Maria. A tradição evangélica parece deliberada: é a família de Marias que sustenta o testemunho pascal quando os doze vacilam. E no centro desta família está a Mãe, aquela que a tradição litúrgica chama de prima inter omnes na fé pascal.
Tomás de Aquino atribuiu a Maria Madalena o título Apostola Apostolorum: apóstola dos apóstolos. É ela que recebe a primeira aparição do Ressuscitado (Mc 16,9; Jo 20,11-18) e é enviada a anunciar aos discípulos. O seu ministério é o ministério do testemunho ocular: vi o Senhor (Jo 20,18).
O seu percurso pascal é o percurso de quem passou pelo escândalo da Cruz «estava de pé junto ao sepulcro a chorar», (Jo 20,11), e encontrou o Ressuscitado precisamente no momento em que o buscava com lágrimas. A palavra que inverte tudo é a mais simples possível: o seu nome Maria (Jo 20,16). O Ressuscitado reconhece-a pelo nome, ela reconhece-O pela voz. O reconhecimento pascal é sempre pessoal, nunca abstrato.
O Directório sobre a Piedade Popular e a Liturgia (2002, n. 158) menciona Maria Madalena entre as figuras que prolongam a missão de Maria Mãe no período pascal. A sua função é a do anúncio externo: ide e dizei.
A Mãe de Jesus não aparece nas narrações da manhã de Páscoa. Nenhum evangelista a coloca junto ao sepulcro. Esta ausência é teologicamente carregada: Maria não foi ao sepulcro porque não precisou. A sua fé nunca precisou da pedra rolada para crer na Ressurreição.
A tradição litúrgica expressou este facto com a fórmula: sola remansit fides in Maria, só em Maria permaneceu a fé no Sábado Santo. Quem nunca perdeu a fé no Filho vivo não tem que ir verificar o sepulcro. Este é o primado de Maria Mãe sobre Maria Madalena: não o primado da visão mas o primado da fé.
A fé de Maria sustentou a Igreja nos momentos em que a fé dos discípulos se extinguiu. A sua proximidade ao Filho morto, espiritual e orante, não apenas física, é a condição de possibilidade para que o anúncio de Madalena encontre acolhida. Quem nunca deixou de crer, quando ouve ressuscitou!, confirma em vez de se espantar.
As duas Marias cumprem funções complementares no mistério pascal:
A Redemptoris Mater (João Paulo II, 1987, n. 26) descreve esta função interior de Maria: «A maternidade de Maria no plano da graça […] será conservada sem interrupção até ao cumprimento eterno de todos os eleitos». Maria não vai ao sepulcro porque já está na fonte: o seu coração é o espaço em que a Ressurreição é permanentemente reconhecida.
Laurentin, no Court traité de théologie mariale (1959), identificou este paradoxo com precisão: «Maria é a mais discreta nas narrações da Ressurreição e a mais presente na sua realidade». A discrição narrativa é inversamente proporcional à importância teológica.
«Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16,15). A missão universal nasce do testemunho pascal. E este testemunho tem dois rostos femininos: a que viu e a que acreditou. Ambas são necessárias para a Igreja, a experiência mística direta (Madalena) e a fé contemplativa que sustenta (a Mãe).
O Cenáculo de Pentecostes (At 1,14) reúne as duas: «em oração unânime com Maria, mãe de Jesus, e com os seus irmãos». Maria Madalena não é nomeada aqui, mas está implicitamente presente no grupo dos que persistiram. A comunhão pascal que prepara o Pentecostes é uma comunhão de testemunhos: o anúncio de quem viu e a fé de quem sempre soube.
Convidamo-vos a reconhecer em cada comunidade cristã estas duas vocações complementares: a de Maria Madalena, anunciar o que se viu e viveu, e a de Maria Mãe, sustentar a fé quando a visão falha. Cada discípulo é chamado a ser, conforme a sua graça, uma ou a outra destas Marias.
Prof. Daniel Afonso
Presidente do Locus Mariologicus
Roma, 11 de Abril de 2026
Para aprofundar a teologia das aparições pascais e o papel de Maria na salvação, consulte a encíclica Redemptoris Mater de São João Paulo II.
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