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PRESENÇA DE MARIA NA VIDA DA IGREJA

Quando refletimos sobre as relações existentes entre Maria e a Igreja, a primeira verdade que nos impressiona é o valor eclesial da vida de Maria: tudo o que foi dado a esta mulher única, foi-lhe concedido em vista da Igreja. Se não tivesse havido uma Igreja, jamais teria havido uma Virgem Mãe de Deus: Maria existiu na sua maternidade divina virginal apenas para assegurar a formação da comunidade dos homens salvos pelo Redentor. Há, portanto, um vínculo indissolúvel que une Maria à vida e ao destino da Igreja.

É este vínculo que procuraremos aprofundar, considerando primeiro o título e a função de Maria «Mãe da Igreja» e depois especificando-os em três considerações: Maria «Mãe na Igreja», Maria «Mãe com a Igreja», Maria «Mãe para a Igreja». Isso porque Maria, «Mãe da Igreja», continuamente solicitada pelo Espírito para a sua função materna, age e intervém sem cessar e de modo multiforme na vida da Igreja, para conduzi-la, sempre mais conforme a Cristo Senhor, ao seu supremo fim escatológico.

Maria «Mãe da Igreja»

O título e a sua definição

A constituição dogmática Lumen gentium do Concílio Vaticano II, depois de proclamar Maria «membro eminentíssimo», «tipo» e «modelo» da Igreja, afirma: «A Igreja Católica, instruída pelo Espírito Santo, com afeto de piedade filial a venera como mãe amantíssima», (Concílio Vaticano II, Lumen gentium, constituição dogmática, 21 de novembro de 1964, em Enchiridion Vaticanum, EDB, Bolonha 1971, vol. 1, 284-445; Lumen gentium, 53).

O texto conciliar não atribui explicitamente à Virgem o título de «Mãe da Igreja». Contudo, enuncia de modo inegável o seu conteúdo, retomando uma declaração feita em 1748 por Bento XIV, o qual, ao descrever os sentimentos filiais da Igreja para com Maria, reconhecida como mãe amantíssima, proclama-a indiretamente «Mãe da Igreja», (Bento XIV, Bullarium romanum, series 2, t. 2, n. 61, p. 428).

O uso deste apelativo foi bastante raro no passado, mas recentemente tornou-se mais comum nos pronunciamentos do Magistério da Igreja e na piedade do povo cristão. Os fiéis invocaram Maria antes de tudo com os títulos de «Mãe de Deus», «Mãe dos fiéis» ou «nossa Mãe», sublinhando a sua relação pessoal com cada um dos seus filhos. Em seguida, graças à maior atenção reservada ao mistério da Igreja e às relações de Maria com ela, começou-se a invocar mais frequentemente a Virgem como «Mãe da Igreja».

A expressão, antes do Concílio Vaticano II, está presente no Magistério do Papa Leão XIII, onde se afirma que Maria foi «em toda a verdade mãe da Igreja», (Acta Leonis XIII 15, 302). Posteriormente, o apelativo foi usado várias vezes nos ensinamentos de João XXIII e de Paulo VI.

O próprio Papa Paulo VI desejava que fosse o mesmo Concílio Vaticano II a proclamar: «Maria Mãe da Igreja, isto é, de todo o Povo de Deus, tanto dos fiéis como dos Pastores». Ele o fez no discurso de encerramento da terceira sessão conciliar, em 21 de novembro de 1964, (A. Grasso, La Madre di Dio e la pace in alcuni documenti magisteriali di Paolo VI, tese de doutorado em Teologia com especialização em Mariologia, Pontifícia Faculdade Teológica “Marianum”, Roma 2005, pp. 137-139). Pediu ainda que «de agora em diante, com um título tão dulcíssimo, a Virgem seja ainda mais honrada e invocada por todo o povo cristão», enunciando assim de modo explícito a doutrina já contida no capítulo VIII da constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, oficialmente promulgada naquele mesmo dia, e desejando que o título «Mãe da Igreja» adquirisse um lugar cada vez mais relevante na liturgia e na piedade do povo cristão, (Paulo VI, Discurso de encerramento da terceira sessão do Concílio Vaticano II, 21 de novembro de 1964, em Acta Apostolicae Sedis 56 [1964], 1015-1016).

Fundamento bíblico, patrístico e teológico

Ainda que atribuído tardiamente a Maria, o título de «Mãe da Igreja» exprime a relação materna da Virgem com a Igreja, tal como já é ilustrada em alguns textos do Novo Testamento:

a) Maria, desde a Anunciação, é chamada a oferecer o seu consentimento à vinda do Reino messiânico, que se cumprirá com a formação da Igreja.

b) Em Caná, solicitando ao Filho o exercício do poder messiânico, ela oferece uma contribuição fundamental ao enraizamento da fé na primeira comunidade dos discípulos e coopera para a instauração do Reino de Deus, que tem o seu «germe» e «início» na Igreja, (Lumen gentium, 5).

c) No Calvário, unindo-se ao sacrifício do Filho, oferece à obra da salvação a própria contribuição materna, que assume a forma de um parto doloroso, o parto da nova humanidade. Dirigindo-se a Maria com as palavras «Mulher, eis o teu filho», o Crucificado proclama a sua maternidade não apenas para com o apóstolo João, mas também para com todo discípulo. O mesmo evangelista, ao afirmar que Jesus devia morrer «para reunir em um só os filhos de Deus que estavam dispersos», indica no nascimento da Igreja o fruto do sacrifício redentor ao qual Maria está maternamente associada, (Jo 11,52).

d) O evangelista São Lucas, ao referir-se à presença da Mãe de Jesus no interior da primeira comunidade de Jerusalém, sublinha o papel materno de Maria para com a Igreja nascente, em analogia com o papel que ela teve no nascimento do Redentor. A dimensão materna torna-se assim elemento fundamental da relação de Maria com o povo novo dos redimidos, (At 1,14).

Seguindo a Sagrada Escritura, a doutrina patrística reconhece a maternidade de Maria no que diz respeito à obra de Cristo e, portanto, da Igreja, ainda que em termos nem sempre explícitos:

a) Segundo Santo Irineu, Maria «tornou-se causa de salvação para todo o gênero humano», e o seio puro da Virgem «regenera os homens em Deus», (Santo Irineu, Adversus haereses 3,22,4; Patrologia Graeca 7, 959; idem, Adversus haereses 4,33,11; Patrologia Graeca 7, 1080).

b) Faz-lhe eco Santo Ambrósio, que afirma: «Uma Virgem gerou a salvação do mundo, uma Virgem deu a vida a todas as coisas», e outros Padres que chamam Maria «Mãe da salvação», (Santo Ambrósio, Epistula 63, 33; Patrologia Latina 16, 1198; Severiano de Gábala, Oratio 6 De mundi creatione 10; Patrologia Graeca 54, 4; Fausto de Riez, Maxima Bibliotheca Patrum VI, 620-621).

c) Na Idade Média, Santo Anselmo dirige-se assim a Maria: «Tu és a mãe da justificação e dos justificados, a mãe da reconciliação e dos reconciliados, a mãe da salvação e dos salvos», enquanto outros autores lhe atribuem os títulos de «Mãe da graça» e «Mãe da vida», (Santo Anselmo, Oratio 52, 8; Patrologia Latina 158, 957).

O título «Mãe da Igreja» reflete, portanto, a profunda convicção dos fiéis cristãos, que veem em Maria não só a mãe da pessoa de Cristo, mas também dos fiéis. Aquela que é reconhecida como mãe da salvação, da vida e da graça, mãe dos salvos e mãe dos viventes, com razão é por isso proclamada «Mãe da Igreja», (João Paulo II, Madre della Chiesa, catequese de quarta-feira, 17 de setembro de 1997, em Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XX/2 [1997], pp. 330-332; B. Gherardini, “Chiesa”, em S. De Fiores, S. Meo [org.], Nuovo Dizionario di Mariologia [original: italiano], Edizioni Paoline, Cinisello Balsamo 1986, pp. 357-358; G. Colzani, Maria mistero di grazia e di fede, San Paolo, Cinisello Balsamo 1996, pp. 184-217).

Aprofundemos agora as modalidades pelas quais a Virgem vive na Igreja, com a Igreja e para a Igreja a sua função de «Mãe da Igreja».

Maria «Mãe na Igreja»

Presença e rosto de Maria

Se é verdadeiro o que afirmamos, Maria não é apenas a lembrança de uma criatura distante no tempo, que viveu há mais de dois mil anos nesta terra, envolvida no mistério da Encarnação, que deu à luz virginalmente o Salvador, que obteve o seu primeiro milagre, que participou do drama do Calvário tornando-se mãe do discípulo predileto, que esteve no grupo dos primeiros discípulos no dia de Pentecostes. Para os cristãos, ela é a mãe universal, ativamente presente na vida atual da Igreja, de tal modo que tudo o que recebeu no passado, ela o põe à disposição hoje e sempre daqueles que ama, serve e assiste como filhos seus, (A. Serra, Maria di Nazaret. Una fede in cammino, Edizioni Paoline, Cinisello Balsamo 1993).

A sua presença é, por conseguinte, muito mais importante e significativa do que deixam transparecer à primeira vista os escassos textos evangélicos. O Anjo da Anunciação contemplara, admirado, Maria e a chamara Kekaritomene, «cheia de graça». O esplendor imaculado da Virgem de Nazaré estava destinado a iluminar a Igreja, uma Igreja que devia enfrentar um mundo de pecado e, ela mesma, composta por pecadores. A perfeição espiritual de Maria aparece como uma luz que manifesta as maravilhas da graça divina. Ela é um modelo para os cristãos que, embora reconhecendo-se incapazes de alcançá-la, sabem que devem tender à perfeição. A Igreja olha para o esplendor imaculado de Maria e se alegra ao saber que possui uma mãe de pureza total, cujo coração foi sempre livre da mentira e animado por um amor sincero e integral. A sua plenitude de graça é certamente um privilégio único e excepcional, mas, como é o privilégio de uma mãe, enriquece todos os seus filhos e torna Maria mais próxima de cada um de nós e da Igreja, pois, se a graça lhe abriu ao máximo o coração, também a uniu da maneira mais completa a todos os homens.

Pela sua excelsa santidade, que deriva de uma acolhida sem reservas da graça, Maria apresenta-se à Igreja como a personificação daquela perfeição para a qual todos os cristãos são chamados a tender. Nela, o amor de Deus e o amor do próximo, que formam a essência da lei, desenvolveram-se igualmente em plenitude. Quando, no curso da sua vida terrena, Jesus declarava que toda a lei e os profetas estão contidos no duplo mandamento do amor, exprimia aquilo que sempre tivera diante dos olhos no comportamento de sua mãe, (Mt 22,40). Toda a moral cristã está representada da maneira mais concreta no rosto imaculado e santo de Maria.

Na doutrina moral de Cristo há uma simplificação, amor de Deus e amor do próximo, que reconduz a lei antiga dos pais aos seus fins essenciais, despojando-a de grande número de prescrições particulares. Ao mesmo tempo, porém, há um alargamento sem limites do mandamento fundamental do amor. Essa simplificação e esse alargamento da autêntica santidade já se tinham realizado em Maria, por benevolência de Deus, antes mesmo de serem proclamados pela autoridade do Mestre. Eles continuam presentes no rosto daquela que, cheia de graça, representa aos olhos da Igreja um ideal integralmente vivido, (A. M. Canopi, Ecco tua madre. Maria nella Scrittura e nella vita della Chiesa, Piemme, Casale Monferrato 1992, pp. 23-42).

Cristo e a Virgem Mãe

Alguém poderia objetar: este lugar atribuído a Maria não faz concorrência ao papel único que devemos reconhecer a Cristo nosso Senhor? Não é Cristo que constitui para todos os cristãos o modelo a contemplar e a seguir? Não é, portanto, ele que deveria ser posto exclusivamente em evidência? A objeção, frequentemente feita ao culto mariano, tende a relegar Maria à sombra, para concentrar toda a atenção e todo o apego naquele que é o único Salvador.

Mas, se considerarmos bem o plano divino de salvação elaborado pelo Pai, encontramos aqui a resposta a essas objeções. O Pai que apresentou seu Filho à humanidade como Redentor e modelo supremo da perfeição humana, quis que ele viesse a nós como filho de Maria, Virgem cheia de graça. Foi ele que inaugurou a obra da salvação, concedendo a Maria uma plenitude de santidade. Foi ele que, na mensagem da Anunciação, nos fez compreender a sua própria admiração pela perfeição com que havia cumulando a jovem de Nazaré, a fim de nos introduzir assim na compreensão da excelência do Salvador, concebido por obra do Espírito no seu seio imaculado.

A teologia não deixou de mostrar como o privilégio da Imaculada Conceição se devia a uma aplicação antecipada dos méritos do Redentor. Com o seu sacrifício, Jesus obteve para sua Mãe a preservação de toda mancha. Não só a santidade excepcional de Maria é um dom absolutamente gratuito da graça divina, mas é o resultado da generosidade heroica do Calvário. Ela, portanto, tende a fazer aparecer ainda mais os efeitos maravilhosos da obra de Cristo, (S. De Fiores, “Immacolata”, em Nuovo Dizionario di Mariologia [original: italiano], Edizioni Paoline, Cinisello Balsamo, pp. 679-708).

Esta solidariedade de Maria com Cristo mostra outro desdobramento significativo, a plena associação de uma mulher ao mistério da Encarnação. São Paulo já tinha exprimido o seu assombro diante deste aspecto do mistério da Encarnação afirmando: «Quando veio a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher…», (Gal 4,4). Que uma jovem mulher seja mãe do Filho de Deus testemunha claramente a contribuição suprema da mulher ao mistério da salvação, (J. Galot, Maria, la donna nell’opera di salvezza, Roma [Università Gregoriana] 1984). Ser «Mãe de Deus» não é um simples título, porque é com toda a realidade da maternidade humana que Maria é Mãe de Deus: a mulher colaborou real e plenamente para o cumprimento da Encarnação, e foi por ela que o Filho de Deus pôde tornar-se semelhante a nós. Inseparável de Cristo por esta sua missão materna, Maria está presente com ele na Igreja. Pela plenitude de graça que recebeu, ela constitui um modelo aos olhos dos cristãos enquanto mulher e desempenha assim um papel complementar em relação a Cristo, modelo essencial de toda vida cristã. Certamente não se deve esquecer que recebe do Salvador a sua perfeição, mas essa perfeição assume nela um rosto feminino. Maria é a mulher perfeita, plenamente realizada, de beleza sem sombra aos olhos de Deus, como procura evidenciar o termo kekaritomene, (C. Militello, Maria con occhi di donna, Piemme, Casale Monferrato 1999; A. Decedei, “La figura di Maria nell’educazione della donna”, em AA.VV., Il posto di Maria nella nuova evangelizzazione, Centro di Cultura Mariana “Madre della Chiesa”, Roma 1992, pp. 166-182; I. Siviglia, “La donna del nostro tempo si confronta con Maria”, em AA.VV., Maria e la cultura del nostro tempo a trent’anni dalla Marialis cultus, AMI, Roma 2005, pp. 173-183; G. Colzani, Maria mistero di grazia e di fede, San Paolo, Cinisello Balsamo 1996, pp. 218-230). Quando a tradição doutrinal da Igreja define Maria como «Nova Eva», reconhece nela a mulher ideal. A mulher alcança na Virgem tal perfeição que relega à sombra a imperfeição da primeira mulher.

A plenitude da sua fé

Maria é o primeiro exemplo da fé pura e autêntica, da fé propriamente cristã que é fé em Jesus. A Virgem de Nazaré foi a primeira a crer. Crendo na mensagem do anjo, deu a sua fé ao menino misterioso que lhe fora anunciado. Em seguida, a sua fé desenvolveu-se, reconhecendo em Jesus o Filho de Deus, fé que lhe inspira o pedido do primeiro milagre. A sua fé precede o milagre, enquanto a fé dos discípulos o segue, (Jo 2,11). Aquela que, desencadeando a primeira revelação pública de Jesus, provocou a fé dos discípulos, continua a arrastar toda a Igreja no rastro da sua fé. Maria permanece, aos nossos olhos, o modelo supremo da mais íntima união com Jesus. O olhar virginal de Maria sobre Jesus constitui um modelo de contemplação; o seu apego a ele na fé, na esperança e no amor, não cessou de se desenvolver, permanecendo um exemplo que a Igreja é convidada a meditar e seguir, (S. M. Perrella, Maria Vergine Madre. La verginità feconda di Maria tra fede, storia e teologia, San Paolo, Cinisello Balsamo 2003, sobretudo pp. 273-294; G. Colzani, Maria mistero di grazia e di fede, San Paolo, Cinisello Balsamo 1996, pp. 161-183). Na fé total da Virgem em Cristo, na sua completa e íntima união com ele, na dolorosa e amorosa cooperação prestada à sua obra de salvação, temos diante dos olhos um exemplo perfeito e completo. Este exemplo, que no rastro de Maria nos indica o caminho a seguir, pode ser imitado sem qualquer reserva e deve ser contemplado de modo inesgotável na Igreja e pela Igreja. Como observa com justeza Galot, para nos conduzir pela estrada da fé, da adesão total a Cristo e à sua obra, não nos são dadas apenas exortações doutrinais, mas é-nos proposta eficazmente, como imitável, a personalidade simples e atraente de Maria, (A. Serra, Maria a Cana e presso la croce, Centro di Cultura Mariana “Madre della Chiesa”, Roma 1991: para o evento de Caná, pp. 7-78; Maria presso la croce, pp. 79-118).

Maria «Mãe com a Igreja»

Cristo e Maria com a Igreja

Maria não está apenas na Igreja; ela está com a Igreja. Para compreender bem esta afirmação, é preciso recordar que Jesus declarou aos seus apóstolos que permaneceria com a sua Igreja. As suas palavras mais confortadoras e encorajadoras são as que encerram o evangelho de São Mateus. Numa última aparição, o Ressuscitado dá aos seus a missão de evangelizar todas as nações, com a garantia definitiva da sua assistência contínua: «Eis que eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo», (Mt 28,20). No momento em que está para voltar ao Pai, Jesus afirma que a sua presença permanecerá, uma presença de cada momento: permanecerá com os seus numa solidariedade invisível, conduzirá com eles as suas lutas, acompanhá-los-á em toda parte nas suas atividades apostólicas, partilhará as suas provas, sustentá-los-á nas suas dificuldades, sofrerá as perseguições de que serão vítimas, a ponto de mais tarde dizer a Saulo no caminho de Damasco: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues», (At 9,5). Na formulação da sua promessa, Jesus deixara entender que era como Deus que permaneceria em toda parte e sempre com os seus discípulos. «Eu estou convosco» reproduz o nome divino «Eu sou», nome que Jesus se atribuira repetidas vezes ao longo da sua vida pública. É como Deus que estabelece a aliança indissolúvel com a sua Igreja, (J. Galot, Chi sei tu, o Cristo?, Florença [LEF] 1984, 3ª ed., p. 160).

Com que título podemos admitir que Maria está igualmente com a Igreja? Como Mãe de Deus, é inseparável do próprio Jesus: se o Salvador acompanha os seus discípulos como Deus feito homem, Maria está unida a ele. Como Mãe dos homens, não poderia abster-se de estar com a Igreja ao longo de todo o seu desenvolvimento. Vemos Maria com os discípulos na assembleia que espera Pentecostes, (At 1,14). Ela participa na oração comunitária que se eleva ao céu em vista da vinda do Espírito Santo. Também ela recebe o Espírito em Pentecostes e pode proclamar uma segunda vez as maravilhas de Deus. Esta efusão do Espírito Santo testemunha que, longe de se concluir, o papel de Maria na obra da salvação conhece uma retomada e um ulterior desenvolvimento e consiste agora em acompanhar a primeira expansão e a vida da Igreja. Maria, que estivera unida ao Filho e o sustentara na sua missão, agora está unida à Igreja nascente e a todos os que são chamados a difundir a boa-nova, sustentando-os com o seu apoio e encorajamento, (A. M. Canopi, …E c’era la Madre di Gesù. Spunti di meditazioni bibliche, Edizioni Paoline, Roma 1987, pp. 28-36).

A compaixão de Maria

O primeiro teólogo bizantino que enunciou uma doutrina explícita da compaixão de Maria foi João, o Geômetra, que viveu no século X. Ele falou da intensa participação de Maria no primeiro impulso apostólico da Igreja, sublinhando o aspecto de solidariedade e de compaixão, no qual discernia um prolongamento da compaixão do Calvário. Ele escreve, entre outras coisas:

«O que havia de mais notável nela era que sofria de novo, como outrora com seu Filho, agora com os seus pregadores e discípulos, e isso прежде de tudo por causa de seu Filho, por quem eles falavam e sofriam. Assim já se comportava como mãe universal, cujo coração se consumia de afeto por todos, não só por aqueles que sofriam, mas ainda mais pelos seus algozes, cuja situação era muito mais perigosa, visto que, para os discípulos, o sofrimento não era um perigo, mas a salvação», (J. Galot, “La plus ancienne affirmation de la Corédemption mariale”, em Recherches de Science Religieuse 45 [1957], p. 205; Vita di Maria de João, o Geômetra, citada segundo um manuscrito da biblioteca dos Bollandistas [Bruxelas], cópia de um manuscrito de Gênova: f. 151v-152r).

Esta participação dolorosa de Maria nas vicissitudes da Igreja é descrita pelo teólogo do modo mais vivo e mais concreto:

«Assim, ela estava acorrentada com os acorrentados, açoitada com os açoitados; lutava com todos os que estavam no combate e, pela sua vontade, superava em si mesma os combates de todos; nessas lutas, colocava palavras de encorajamento e, como exemplo, propunha aos combatentes a Paixão do Mestre, por quem deviam sofrer», (Ibidem, 206; Vita di Maria, f. 152r).

Com essas expressões incisivas, João, o Geômetra, quis fazer perceber a realidade da participação sofredora de Maria nas graves provações às quais a Igreja primitiva estava submetida. Ele nos permite compreender melhor a solidariedade de Maria com a Igreja atual. Hoje, a Mãe de Jesus goza da felicidade celeste na glória da sua Assunção. Já não precisa percorrer o caminho da cruz como durante a sua vida terrena. No entanto, o amor materno que a animava na terra em relação aos discípulos do seu Filho não se apagou no seu estado celeste. Pelo contrário, ele se desdobra em plenitude e comporta uma participação do coração em todas as situações humanas, especialmente as mais dolorosas.

Os fiéis reconhecem em Maria o rosto mais comovente da compaixão. Com a sua presença materna, ela é o sinal da compaixão divina pela humanidade. Deus revelou-se como um Deus compassivo e misericordioso. No Antigo Testamento, o termo empregado para exprimir a misericórdia divina era o que designava as entranhas maternas, rachamim, (Cf. J. Galot, “Il volto del Padre e la vita cristiana”, em La Civiltà Cattolica 135 [1984] III, p. 116; G. Colzani, Maria mistero di grazia e di fede, pp. 275-287; C. M. Martini, Maria soffre ancora, Gribaudi, Milão 1997; O. Musumeci, L’arcano linguaggio di quelle lacrime. Considerazioni sulla Madonna delle Lacrime, Siracusa 1963). A paternidade divina para com o povo manifesta-se na compaixão, e essa compaixão traz consigo uma tonalidade de ternura materna.

Estar com a Igreja, para Maria, significa participar da existência de todos os membros da Igreja e de todos os que são chamados a entrar na Igreja. Como essa chamada se dirige a todos, a ternura materna de Maria está aberta a todos. Não há dor humana que deixe indiferente aquela que Cristo constituiu mãe universal. As menores aflições, como as provações mais trágicas, repercutem no seu coração materno. Nas suas penas, os fiéis são consolados ao recorrer a Maria, sabendo bem que são acolhidos, compreendidos e socorridos, (Cf. A. M. Canopi, …E c’era la Madre di Gesù, pp. 36-40).

Comunhão com a vida da Igreja

Estar com a Igreja, afirma Galot, não é apenas estar com os que vivem na terra, participando de suas dificuldades e compadecendo-se de seus sofrimentos; é também estar ao lado de todos para ajudá-los a empenhar-se na vida da Igreja. Maria possui toda a delicadeza dos sentimentos de uma mãe que acompanha os seus filhos na estrada da existência terrena, mas nunca perde de vista o objetivo último dessa existência. Não se limita a prodigalizar amor e conforto, mas encoraja cada um a viver mais sinceramente, mais profundamente, uma vida de Igreja, uma vida de união com Cristo e de caridade fraterna, uma vida conforme aos preceitos do Evangelho. Pode-se, portanto, afirmar que, estando com cada um de nós, Maria está realmente com a Igreja inteira. Sua atenção à Igreja nada tira do afeto que testemunha a cada um individualmente. Com cada um de nós, ela procura reproduzir aquela íntima comunhão que existia entre ela e seu Filho na terra. Ela se faz toda para todos em plenitude, sem reservar nada do seu coração.

Maria e a missão social da Igreja

Estando com a Igreja e para a Igreja, Maria procura orientar-nos a concentrar mais os nossos esforços sobre o grande problema da história do mundo, o da propagação da boa-nova, do acolhimento de Cristo, da conversão de cada um e de todos, da instauração da civilização do amor e da paz cristã. Esta é a missão da Igreja, missão antiga e sempre nova, que requer esforços renovados e incessantes, (Cf. A. Grasso, La Madre di Dio e la pace in alcuni documenti magisteriali di Paolo VI, pp. 181-199; C. Boff, Mariologia sociale, Pontifícia Faculdade Teológica “Marianum”, Roma 1999; idem, “Mariologia sociale nei documenti del Magistero”, em AA.VV., Maria e l’impegno sociale dei cristiani, AMI, Roma 2003, pp. 137-168). A Igreja deve ainda percorrer as vias do mundo e renovar-se sempre, para alcançar, no seu desenvolvimento espiritual e apostólico, a plena medida de fé e de caridade que, pelo anúncio do Evangelho a todos os povos, transforma e renova a humanidade, (Cf. Paulo VI, Evangelii nuntiandi, exortação apostólica, 8 de dezembro de 1975, em Enchiridion Vaticanum, EDB, Bolonha 1980, vol. 5, nn. 1588-1716). Maria caminha com esta Igreja, e até nos convida a caminhar de mãos dadas com ela, precedendo-nos como Estrela da nova evangelização do mundo, (Cf. P. Giglioni, “La nuova evangelizzazione di fronte a Maria”, em AA.VV., Il posto di Maria nella nuova evangelizzazione, Centro di Cultura Mariana “Madre della Chiesa”, Roma 1992, pp. 7-34).

À semelhança do discípulo predileto, todos os fiéis, operadores de paz no mundo, são convidados a «levar Maria consigo», isto é, a estreitar com ela os contatos mais íntimos para o cumprimento da sua missão. O papel materno de Maria não se dedica exclusivamente ao desenvolvimento da atividade apostólica; ele diz respeito a todos os aspectos da existência humana e cristã, mas exerce-se de modo particular na promoção de todas as formas de apostolado, (Cf. A. Serra, Dimensioni mariane del mistero pasquale, Paoline, Milão 1985, pp. 13-37).

A experiência secular da Igreja testemunha a fecundidade da atividade apostólica que se desenvolve expressamente com o concurso de Maria. Assim se pode constatar até que ponto Maria trabalha pela Igreja. Essa fecundidade explica-se pelo fato de que, solicitando de modo especial a ação de Maria, o apostolado se situa no prolongamento do acontecimento que inaugurou a obra da salvação: a vinda do Salvador a este mundo, obtida graças ao concurso de Maria com o Espírito Santo. A fecundidade maravilhosa que se seguiu ao empenho da Virgem de Nazaré na Anunciação tende a repetir-se ao longo da história da Igreja. O Espírito Santo compraz-se em realizar maravilhas onde Maria é invocada e chamada em auxílio na obra apostólica. Por isso Maria é reconhecida como a estrela da nova evangelização da Igreja, (Cf. P. Giglioni, “La nuova evangelizzazione di fronte a Maria”, pp. 7-34).

Maria «Mãe para a Igreja»

Aquela que está na Igreja e com a Igreja está também para a Igreja. Não poderia ser de outro modo.

«Sim» a Cristo e «sim» à Igreja

Muitos contemporâneos, afirma Galot, descrevem a sua posição religiosa com um “sim” a Cristo e um “não” à Igreja. Dizem aceitar o Jesus do Evangelho, mas recusam a Igreja que se apresenta em seu nome. Muitos multiplicam as críticas aos que exercem autoridade na Igreja, ou aos fiéis em geral, sustentando, por exemplo, que eles não são melhores do que os outros. Muitos entre eles não sabem captar as exigências de uma vida eclesial e permanecem longe das manifestações do culto. A Igreja vê-se frequentemente oprimida por reprovações e abandonada precisamente por aqueles que dizem amar e seguir os ensinamentos de Cristo.

Em Maria, o “sim” a Cristo sempre esteve unido ao “sim” à Igreja, desde o consentimento dado na Anunciação, em que aceitar a maternidade significava também colaborar para a instauração de um reino que jamais seria destruído. Pentecostes marcou o momento em que tudo o que Maria havia dado antes a Jesus era posto, então, a serviço da Igreja. No amor e na vida de Maria não podia existir qualquer dissociação entre a pessoa de Jesus e a sua obra, entre ele e a sua Igreja.

Maria, portanto, é para a Igreja com todo o seu coração e todas as suas forças. Ela não está unida apenas a uma Igreja ideal, mas à Igreja tal como vive concretamente na terra, pois é esta Igreja que é obra de Cristo e que difunde a boa-nova do Evangelho. Seu apego é límpido, completo e consciente, porque não ignora as faltas e lacunas na vida dos membros da Igreja, antes as vê com mais clareza e justiça do que aqueles que emitem juízos severos. Ela sabe que a Igreja é uma comunidade de pecadores, mas sabe também que é o caminho escolhido por Cristo para comunicar a sua santidade ao mundo, (Cf. E. Ribet, “La Marialis cultus, una lettua evangelica”, em AA.VV., Maria e la cultura del nostro tempo, pp. 75-86).

Mãe para a Igreja

Maria é tanto mais para a Igreja quanto age como Mãe da Igreja. Se é verdadeira Mãe da Igreja, compreende-se melhor até que ponto ela é para a Igreja. Condenar a Igreja, rejeitá-la ou negligenciá-la, escreve Galot, é ofender aquela que a gerou e que vela maternalmente por ela. Maria jamais se desencoraja com as dificuldades que a Igreja encontra nos seus esforços rumo à santidade. Ela persiste em ver na Igreja a grande força espiritual que atua no mundo para torná-lo melhor, e a comunidade que recebeu de Cristo a garantia da sua existência e do seu desenvolvimento.

Se quiséssemos descrever a sua reação diante das deficiências que constata na Igreja atual, poderíamos lembrar a sua intervenção nas bodas de Caná. Ela mesma advertira Jesus: «Eles não têm mais vinho», (Jo 2,3). Há nisso o sinal da sua atenção ao bom andamento da festa nupcial. Enquanto os diretamente interessados, os esposos, não se haviam dado conta da situação, Maria constatara que faltava vinho e entregava tudo nas mãos do Filho. A Igreja nunca tem vinho suficiente para assegurar, como deveria, o banquete messiânico. Ela não possui fé nem caridade suficientes e, por isso, não é capaz de dar ao mundo tudo o que dele se deveria esperar. Com sua compaixão materna, Maria apresenta continuamente a Jesus essas situações deficitárias. Ela está constantemente em estado de intercessão junto ao Filho e sabe que pode contar com a abundância de vinho, de vida de fé e de amor, concedida em resposta aos seus pedidos, (Cf. E. H. Schillebeeckx, Maria madre della Redenzione, Edizioni Paoline 1965, pp. 172-176; G. Colzani, Maria mistero di grazia e di fede, pp. 64-66).

Mãe da caridade e da unidade

Na qualidade de Mãe da Igreja e Mãe dos homens, afirma Galot, Maria consagra a sua solicitude à mais ampla difusão dos valores da vida interior que constituem a riqueza da Igreja. Entre esses valores, a caridade tem importância essencial, pois resume e contém todos os demais, já que a Igreja vive do amor de Deus e do amor do próximo. Maria, que na sua vida terrena deu um humilde exemplo de perfeita caridade, emprega todos os seus recursos maternos para fortalecer o reino do amor. Ela é a primeira a difundir um espírito de doçura que renuncia a toda violência e uma disposição de simpatia universal que supera exclusões e discriminações. Maria se prodigaliza sem reservas para que o amor trazido pelo Salvador à humanidade se traduza concretamente nas relações sociais com maior justiça, com ajuda recíproca sincera, com benevolência mútua, compaixão, indulgência e paz, (Cf. S. De Fiores, “La figura liberatrice di Maria e l’impegno sociale dei cristiani”, em AA.VV., Maria e l’impegno sociale dei cristiani, AMI, Roma 2003, pp. 27-32).

Mãe da Igreja, ela é mais precisamente mãe da unidade de todos os que aderem ao Filho. A oração dirigida por Jesus ao Pai para que «todos sejam um» está permanentemente gravada no seu coração materno. Uma mãe deseja a união dos seus filhos. Esse desejo natural é reforçado pela orientação tão profundamente unificante da graça redentora. No Calvário, Maria sofreu pela reconciliação da humanidade com Deus e pela reconciliação dos homens entre si. No seu papel celeste, ela se empenha para fazer penetrar essa reconciliação em todos os corações humanos.

Mãe da unidade, Maria sustenta tudo o que contribui para a unidade na Igreja Católica. Ela trabalha pela harmonia entre pastores e fiéis e, nos conflitos, procura fazer prevalecer a vontade do bom entendimento. Ela favorece também todas as aproximações ecumênicas, contribuindo para fazer crescer, nos cristãos das diversas Igrejas, um desejo superior de unidade. Também entre os não cristãos, ela encoraja, quanto pode, o que mais une os homens entre si, com uma graça que opera secretamente em todos e que, na realidade, é graça de Cristo Salvador e Reconciliador, (Augustinus, Sermo 192, 2; Patrologia Latina 38, 1013: «Mater est unitatis»; Cf. M. Triaca, “Maria vergine madre dell’unità”, em La Theotokos nel dialogo ecumenico, Rivista liturgica 2-3 [1998], pp. 171-208; S. M. Perrella, Non temere di prendere con te Maria [Mt 1,20]. Maria e l’ecumenismo nel post moderno, San Paolo, Cinisello Balsamo 2004, sobretudo a pósfação de I. Calabuig, pp. 213-231; H. W. Taja, “La Beata Vergine Maria segno di unità tra i cristiani”, em AA.VV., Maria e l’impegno sociale dei cristiani, pp. 55-64).

Podemos concluir afirmando que todas as riquezas acumuladas pelo Espírito Santo em Maria são destinadas a enriquecer a Igreja e a enriquecem real e continuamente. Tudo nela é para a Igreja. Uma Igreja sem Maria não seria a Igreja que conhecemos e amamos. Faltaria um traço essencial ao seu rosto de mãe. Não há verdadeira Igreja sem Maria. A Mãe de Jesus, tornada nossa mãe, é para sempre Mãe da Igreja e estará sempre na Igreja, com a Igreja, para a Igreja, até o seu último e final cumprimento.

CONCLUSÃO

À luz do caminho percorrido, torna-se claro que o título «Mãe da Igreja» não é um ornamento devocional nem uma fórmula tardia de piedade, mas a síntese orgânica de uma realidade inscrita no desígnio de Deus. Tudo o que o Espírito realizou em Maria, desde a plenitude de graça que a prepara para o «sim» da Anunciação até a sua associação dolorosa à oferta do Filho no Calvário, foi concedido em vista da geração e da edificação do Povo de Deus. A maternidade divina virginal, por sua própria natureza, abre-se em maternidade eclesial: aquela que deu ao mundo a Cabeça não pode deixar de estar vinculada, de modo singular e permanente, ao Corpo.

Por isso, as três modalidades aqui consideradas não se somam como aspectos independentes, mas se iluminam mutuamente. Maria é «Mãe na Igreja» como presença viva e rosto da santidade que a Igreja contempla para reconhecer a primazia da graça, a beleza da fé e a exigência do amor. Ela é «Mãe com a Igreja» como comunhão, compaixão e solicitude que acompanham o caminho concreto dos fiéis, sustentando-os nas provas, orientando-os para a vida interior, fortalecendo a perseverança e animando o ardor apostólico. Ela é «Mãe para a Igreja» como intercessora e educadora, comprometida com a maturação da caridade e com o dom da unidade, sempre em favor da missão evangelizadora e do testemunho de paz que a Igreja é chamada a oferecer ao mundo.

A centralidade de Cristo, longe de ser obscurecida, resplandece com maior nitidez. A relação de Maria com a Igreja é inteiramente cristológica: ela não substitui o Senhor, mas remete a Ele; não retém, mas entrega; não dispersa, mas reúne. O seu «fazei tudo o que Ele vos disser» permanece como forma permanente do seu serviço materno, ajudando a Igreja a reconhecer, acolher e obedecer à Palavra, a viver dos sacramentos, a perseverar na oração e a configurar-se, sempre mais, ao Crucificado-Ressuscitado.

Daí decorre também uma consequência pastoral decisiva. O verdadeiro amor a Maria não conduz a uma espiritualidade intimista, nem a uma devoção desligada da vida eclesial, mas a um «sim» integral, simultaneamente a Cristo e à Igreja. Levar Maria consigo, à semelhança do discípulo amado (Jo 19,26-27), significa acolher a sua pedagogia de fé, entrar na lógica do Evangelho, abraçar a comunhão e servir a missão. Onde Maria é recebida como Mãe, a Igreja reencontra, com maior limpidez, o seu próprio rosto materno, aprende a compadecer-se, a reconciliar, a educar, a reunir, a evangelizar.

Podemos, portanto, concluir com a afirmação que atravessa todo este estudo: tudo em Maria é para a Igreja, e tudo na Igreja encontra em Maria um auxílio materno singular. Não há verdadeira Igreja sem Maria, não como condição paralela a Cristo, mas como dom do próprio Cristo à sua Esposa. Até o pleno cumprimento escatológico, a Mãe de Jesus permanece, sem cessar, na Igreja, com a Igreja e para a Igreja, para que ela seja, em cada tempo, mais fiel ao seu Senhor e mais transparente à graça que a constitui.

Daniel Afonso

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