Totus tuus: Maria e São João Paulo II

Introdução

A vida de João Paulo II foi inteiramente marcada por sua devoção a Maria, e ele nunca escondeu sua profunda e concreta piedade em relação à Virgem, a quem chamava de sua “especial patrona”. O lema Totus Tuus, que significa “todo teu”, reflete essa entrega total a Maria, influenciando profundamente seu estilo de vida e sua experiência cristã. Essa devoção foi um dom que se transformou em um princípio de uma consagração ainda mais completa a Cristo, exercendo uma influência determinante em seu pensamento e em seu ministério como bispo de Roma.

O ensinamento mariano de João Paulo II

No Gólgota, Jesus “disse à mãe: ‘Mulher, eis o teu filho!’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe!’. E dessa hora em diante, o discípulo a acolheu em sua casa” (Jo 19,26-27). Esse famoso trecho evangélico, amplamente meditado e estudado por gerações de cristãos, pode ser tomado como base para o “fio mariano”, como o próprio João Paulo II definiu em seu livro Dom e mistério, que sempre uniu o discípulo de Jesus, Karol Wojtyla, a Maria, Mãe do Redentor. Da meditação desse grande mistério de salvação, ele se convenceu e, com seu intenso magistério mariano, nos ensinou que Maria nos conduz a Cristo, mas também que Cristo nos conduz a sua Mãe. A doutrina mariológica de João Paulo II é um patrimônio imenso. Seu magistério combina harmoniosamente a devoção pessoal, a responsabilidade eclesial e ecumênica, a intuição poética e o aprofundamento teológico e antropológico, além de uma flexibilidade pastoral, compondo um quadro vasto e profundamente harmonizado, sempre marcado pelo dinamismo do presente, passado e futuro.

Em seu ensinamento, todos os grandes temas da fé e da existência se encontram; por isso, como ele ensinou, não se pode ignorar a contemporaneidade, que dá à reflexão teológica a capacidade de fazer com que tanto crentes quanto não crentes entrem no mistério trinitário, enfatizando como o coração de Deus em Cristo palpita eternamente pela humanidade de todos os tempos, continentes e culturas. Maria, nesse sentido, foi a beneficiária singular desse mistério e continua sendo, como no passado, no presente da Igreja e do mundo, sua testemunha única. Muito já foi dito e escrito sobre João Paulo II e sua devoção mariana filial e acentuada. Todos concordam que seu ensinamento sempre esteve profundamente conectado e inspirado pelo magistério do Concílio Vaticano II, no qual ele foi um protagonista apaixonado e convicto. Seu ensinamento mariano mais autoritativo e desafiador é uma clara expressão de sua experiência conciliar, pastoral e humana. Ele teve o mérito de apresentar constantemente a Mãe do Redentor à luz do mistério trinitário, cristológico e eclesial, como uma figura exemplar, carismática e “transversal”.

Os discursos, aprofundamentos e menções à Virgem ou aos temas relacionados à mariologia no magistério de Wojtyla são inúmeros; nenhum papa, antes dele, abordou tanto o mistério, o significado e a prática mariana da Igreja. Segundo o então cardeal Joseph Ratzinger, o ensinamento mariano de João Paulo II expressa a convicção de que na Virgem de Nazaré se concentram todos os temas fundamentais da fé, sendo que homens e mulheres, povos e nações buscam na fé dela o sustento para a própria fé. Em última análise, Maria é, para o papa polonês, aquilo que René Laurentin define de maneira concisa como: a chave do mistério cristão. Maria realiza os principais valores cristãos de forma singular, exemplar, inspiradora, dinâmica e imitável, pois está no início do evento Cristo, no centro da história, e porque Deus colocou nesse princípio uma perfeição completa, no centro da Igreja. Aos olhos do povo de Deus, ela se torna, portanto, o “paradigma”, ou seja, o “modelo perfeito” de santidade preservada, plena e brilhante; da mulher e da feminilidade; da graça como gratuidade e plenitude; da fé consciente e total; da virgindade e da maternidade humana e divina, e, consequentemente, das virtudes e carismas dos quais a maternidade divina é o protótipo; da realeza de Deus como o auge da liberdade e da onipotência peculiar do amor; do cêntuplo evangélico; da meta escatológica. Maria lembra e mostra à Igreja e à humanidade, acima de tudo, a dimensão “essencial” e “existencial” da fé, que é uma relação pessoal, familiar e intensa com Cristo, corrigindo uma antropologia órfã de Deus e contribuindo para restaurar aquela cultura da vida, do acolhimento, do dom e do amor, próprios do cristianismo.

As intervenções mais importantes

Agora vejamos brevemente quais foram as intervenções magisteriais mais importantes nos quase vinte e sete anos de pontificado, seguindo uma ordem cronológica:

  • A encíclica Redemptoris Mater (1987). É uma poderosa reflexão sobre a doutrina conciliar com ênfase bíblica, teológica e espiritual, apresentando Maria no evento histórico-salvífico de Cristo, no centro do povo de Deus em seu caminho trinitário e, finalmente, na explicação de sua “mediação materna”, com aprofundamentos originais. A encíclica destaca, mais acentuadamente que o Vaticano II, a dimensão “histórica” de Maria em sua vida e fé, bem como sua ativa e exemplar “presença” no mistério da Igreja e na dinâmica da salvação.
  • A carta apostólica Mulieris dignitatem (1988). O primeiro documento eclesial que trata especificamente da “questão da mulher” e contribui de maneira original com uma proposta de antropologia bíblica, com referência a Maria, que revela às mulheres sua dignidade e vocação. Maria é apresentada como a Nova Eva, sinal da antropologia original, e como Virgem-Mãe, dando sentido à maternidade e virgindade.
  • As catequeses marianas nas audiências gerais de quarta-feira (1995-1997). Consistem em 70 catequeses proferidas entre 7 de setembro de 1995 e 13 de novembro de 1997. Essas catequeses são uma verdadeira summa mariológica, delineando a vida, virtudes, santidade e presença de Maria nas Escrituras e na tradição, sempre à luz do Vaticano II.
  • A carta apostólica Tertio millennio adveniente (1994). Documento dedicado à preparação do Grande Jubileu do ano 2000, onde João Paulo II afirma que Maria está presente de maneira “transversal” ao evento da redenção, expressando sua relação com a Trindade e com a humanidade redimida.
  • A carta apostólica Novo millennio ineunte (2001). Publicada ao final do Jubileu de 2000, é considerada uma síntese de todos os documentos de seu pontificado. Em tom missionário e contemplativo, reafirma a nova evangelização e a contemplação do mistério de Cristo, destacando o papel de Maria como a primeira e maior contempladora.
  • A carta apostólica Rosarium Virginis Mariae (2002). Escrita no início do 25º ano de seu pontificado, chama os cristãos à oração do rosário, motivando sua prática e destacando figuras como o beato Bartolo Longo. A carta incentiva a contemplação do rosto de Cristo na companhia e escola de Maria, que ajuda na contemplação desse mistério.

Além desses, diversos outros documentos do magistério de João Paulo II trazem uma significativa referência à Virgem Maria, como:

  • Na Catechesi tradendae (1979), Maria é “Mãe e modelo do discípulo”.
  • Na Familiaris consortio (1981), Maria é desejada como “Mãe da igreja doméstica”.
  • Na Redemptionis donum (1984), ela é “a mais plenamente consagrada a Deus”.
  • Na Sollicitudo rei socialis (1987), Maria é confiada à difícil conjuntura do mundo.
  • Na Redemptoris missio (1990), ela é “modelo do amor materno”.
  • Na Veritatis splendor (1993), Maria é “sinal luminoso e exemplo fascinante de vida moral”.
  • Na Evangelium vitae (1995), ela é confiada à defesa da vida como “Mãe dos vivos”.
  • Na Ecclesia de Eucharistia (2003), Maria é a “Mulher eucarística”, ensinando à Igreja a redescobrir sua relação íntima com a Eucaristia.

Ave Maria

Durante seu pontificado, João Paulo II realizou 146 visitas na Itália e 104 viagens ao exterior, tornando-se peregrino em numerosos santuários marianos. Em todos eles, ele sempre confiou os povos e as nações visitadas a Maria e, muitas vezes, dirigiu-se à Mãe com uma oração composta para a ocasião. Para concluir este breve excursus, gostaríamos de compartilhar a oração dirigida à Virgem de Lourdes na noite de 14 de agosto de 2004, durante sua última peregrinação apostólica a esse santuário, em comemoração ao 150º aniversário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição:

«Ave Maria, Mulher pobre e humilde, abençoada pelo Altíssimo! Virgem da esperança, profecia dos novos tempos, associamo-nos ao teu cântico de louvor para celebrar as misericórdias do Senhor, para anunciar a vinda do Reino e a plena libertação do homem.

Ave Maria, humilde serva do Senhor, gloriosa Mãe de Cristo! Virgem fiel, morada santa do Verbo, ensina-nos a perseverar na escuta da Palavra, a sermos dóceis à voz do Espírito, atentos aos seus apelos na intimidade das consciências e às suas manifestações nos acontecimentos da história.

Ave Maria, Mulher da dor, Mãe dos viventes! Virgem esposa junto à Cruz, nova Eva, sê nossa guia nas estradas do mundo, ensina-nos a viver e a difundir o amor de Cristo, a permanecer contigo junto às inumeráveis cruzes nas quais teu Filho continua a ser crucificado.

Ave Maria, Mulher da fé, Virgem Mãe da Igreja, ajuda-nos a sempre dar razão à esperança que está em nós, confiando na bondade do homem e no amor do Pai. Ensina-nos a construir o mundo desde dentro: na profundidade do silêncio e da oração, na alegria do amor fraterno, na fecundidade insubstituível da Cruz».

Daniel Afonso

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