Mérito e graça


No quotidiano contemporâneo, a palavra «mérito» associa-se frequentemente à lógica meritocrática: o reconhecimento laboral, a recompensa proporcional ao esforço. Segundo o CIC no §2006, o termo «mérito» designa, em geral, a retribuição devida por uma comunidade ou uma sociedade à acção de um de seus membros, sentida como boa ou má, digna de recompensa ou castigo. O mérito relaciona-se com a virtude da justiça, em conformidade com o princípio da igualdade que a rege. Diante de Deus, porém, a questão adquire contornos radicalmente distintos: como alcançar mérito perante Aquele de quem tudo recebemos? Ele é a causa primeira de todas as coisas, como bem diz São Tomás, e sem Ele não fazemos nada de bom.

A gratuidade da graça não pode conter o mérito. Além do mais, o mérito enquanto substantivo não existe na Sagrada Escritura. Contudo, quando nos referimos a mérito, estamos a dizer que Deus promete recompensa àqueles que cumprem a sua palavra. Convém ter em consideração que a noção de recompensa depois da morte aparece na Sagrada Escritura apenas no século II a.C.
A doutrina paulina, dando ênfase à gratuidade da graça, não deixou de referir também que, depois de termos recebido os meios do mérito (ou seja, a graça), o cristão na parusia receberá a coroa da justiça do justo Juiz:
«Desde agora, está reservada para mim a coroa da justiça que o Senhor, o justo juiz, me dará naquele dia, não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua manifestação» (2 Tm 4,8). «Aliás, todos temos de comparecer, às claras, perante o tribunal de Cristo, para cada um receber a devida recompensa, prémio ou castigo, do que tiver feito, de bem ou de mal, ao longo de sua vida corporal» (2 Cor 5,10).
Por conseguinte, Paulo insiste que o homem não pode ganhar uma recompensa no sentido pleno, da mesma forma que alcança a punição. Os seus méritos são num sentido menor e secundário, dado que as graças que o tornam santo e o movem para o bem são um dom, segundo Paulo: «Com efeito, a paga do pecado é a morte, mas o dom de Deus é a vida eterna no Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rm 6,23).
Ao fazer esta distinção, Paulo sublinha uma implicação pelo facto de Deus ser o Pai e toda a paternidade ter o seu nome: «de quem recebe o nome toda paternidade no céu e na terra» (Ef 3,15). «Com efeito, vós todos sois filhos de Deus pela fé no Cristo Jesus» (Gl 3,26). As crianças podem, em sentido pleno, ganhar uma punição, um desinteresse, mas não podem ter a necessidade de meritar o amor básico dos seus genitores. Da mesma forma, a esperança humana de alcançar as moradas do Pai baseia-se nesta verdade: «E, se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, se, de facto, sofremos com ele, para sermos também glorificados com ele» (Rm 8,17). «Sabendo que é o Senhor que vos recompensará, fazendo-vos seus herdeiros. Ao Cristo e Senhor é que estais servindo» (Cl 3,24). Contudo, o Pai requer que os fiéis sejam conformes ao seu Filho, Jesus Cristo. Neste sentido, do mesmo modo que o verdadeiro mérito de Cristo não move o Pai para alcançar misericórdia e graça (dado que Ele não tem necessidade de ser comovido, pois Ele desde sempre amou o homem, e foi o seu amor espontâneo que o levou a enviar o seu Filho ao mundo), o seu não meritado amor é a explicação básica de todas as coisas boas que o homem possui e é. A obediência meritória é uma condição humana, a qual, no Seu amor divino e humano, o Pai deseja oferecer ao homem. Apesar de não receber nada em troca, concede a plenitude da aliança fundada pelo e no amor de Deus que o homem não pode ganhar.
Ainda sobre isso, quais suas dúvidas sobre o tema «Mérito e Graça»? Será que Deus nos dá graças diante de nossos feitos?
Maria é o modelo perfeito de mérito e acolhida da graça divina. Para aprofundar, leia a encíclica Redemptoris Mater de São João Paulo II, sobre Maria e a plenitude da graça.
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A Graça e os dons provém de Deus, recebemos tudo dele por amor! Cristo também veio por nós, e por amor. E o mérito, escutei algumas vezes que temos que merecer tudo o que Deus nos dá! Mas como merecer o que já nos foi dado de forma gratuita? A “obediência meritória é uma condição humana, e não divina”? Por isso devemos descobrir o verdadeiro valor de nossas ações, quando colocadas a serviço de Deus?
Isso, no fundo as nossas obras são resposta a um primeiro amor
“O bom Deus não recusa jamais essa primeira graça que dá coragem de agir; após então, o coração se fortifica e se vai de vitória em vitória.”
Amén
A obediência meritória é uma condição meramente humana? Tudo é Graça, até a Graça de merecer. A Parábola dos Talentos (Mt 25,14-30) é muito clara. Deus dá os talentos (Graças) aos homens e espera que elas frutifiquem. Quem não der frutos, será lançado nas trevas exteriores (Mt 25,30). Aqui, não me parece que a condição meritória é meramente humana, mas, antes, parece ser uma condição do próprio Deus a nós, indispensável para alcançar a Graça maior da Salvação. Santa noite, com Maria!!
Quem obedece é o homem. É na obediência à vontade do Pai que encontramos a vida da graça.
A gratuidade disponibilidade humana é ação do Espírito no homem que não violando a liberdade ‘bate à porta e espera’.
Mas antes mesmo de decidirmos obedecer, Deus já sabe, como é, como foi, como vai ser.
É paradoxal esta questão, mas também é verdade que é um esforço de ser aquilo que é a nossa vocação.
Por isso Jesus revela o homem ao próprio homem.
A Gratuidade da graça em nossa vida, é sinal do amor incondicional de Deus Trindade para nós seus filhos e filhas , por meio da participação deste grande amor . Este presente concedido a nós é Maria a Cheia de Graça, que pela sua Maternidade Divina nos envolve deste amor.
Todos somos filhos de Deus e todos podemos receber as graças Dele. Mas, os méritos precisamos ser dignos de tê-los. Eu penso assim… Estou errada professor Daniel?
Os mérito são a obediência à vontade do Pai…
São resposta ao amor que já recebemos…
O que temos que não nos foi dado? Dizia São Paulo
O meu esforço de dignidade não vem da minha vontade mas do abandono à vontade do Pai.
Obrigada professor.
Todos nós como filhos amados de Deus, somos convidados à todo instante de nossas vidas, a trabalhar a Graça Divina em nós como templos do Espírito Santo de Deus! Em nós e em nossos irmãos, motivados pelo ânimo em compartilharmos essa Grande Graça! Quando nos entendemos, conhecemos e encontramos como princípio, meio e fim deste caminho de recebimento, a cada ato de Misericórdia, passamos a nos sentir participantes de uma só comunhão das Graças de Deus! E, isso é maravilhoso, pois é Vida Plena 🙏🏼
Amén