O corpo e a cabeça: Aparecida e a unidade de um povo

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Sub tuum praesidium confugimus, sancta Dei Genetrix (À vossa proteção recorremos, santa Mãe de Deus)
Antífona mariana, a mais antiga oração dirigida à Virgem de que temos testemunho escrito
O que a imagem encontrada em duas partes no rio Paraíba ensina ao Brasil de hoje
Meditação mariológica sobre a Padroeira do Brasil
A história de Nossa Senhora Aparecida é conhecida por quase todos os brasileiros, mas raramente nos detemos num detalhe que, à luz da fé, se torna profundamente eloquente. A imagem não foi encontrada inteira. Primeiro veio o corpo, depois a cabeça. Só quando as duas partes se reuniram nas mãos dos pescadores é que a rede, até então vazia, se encheu de peixes.
Num tempo em que o país parece dividido em partes que já não se reconhecem, essa narrativa merece ser relida com atenção. Não como alegoria política, que a Mãe de Deus não pertence a nenhuma facção, mas como catequese sobre a unidade de um povo que a Igreja colocou, há quase um século, sob a proteção de Maria.
I. Um rio, três pescadores e uma rede vazia
Em outubro de 1717, a vila de Guaratinguetá preparava-se para receber o governador da capitania, Pedro de Almeida, conde de Assumar. Os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso foram encarregados de conseguir peixe para o banquete. Era uma época pouco propícia, e as redes voltavam vazias das águas do rio Paraíba do Sul.
Segundo o relato conservado pela tradição, numa das tentativas a rede trouxe o corpo de uma pequena imagem de terracota da Imaculada Conceição. Lançada novamente, trouxe a cabeça. Reunida a imagem, a pesca tornou-se tão abundante que os pescadores temeram pelo barco. A devoção começou na casa simples de um deles e espalhou-se entre os vizinhos, depois pela região, depois pelo país inteiro.
A fé simples do povo leu ali um sinal. E a teologia pode acrescentar: Deus escolheu revelar a abundância precisamente quando o que estava separado foi reunido. A fecundidade veio depois da unidade.
II. Rainha e Padroeira de todos
A Igreja acolheu essa devoção com prudência e, aos poucos, com solenidade. A imagem foi coroada em 1904, e em 1930 o Papa Pio XI proclamou Nossa Senhora da Conceição Aparecida Padroeira principal do Brasil. Desde então, o 12 de outubro tornou-se o dia em que o país inteiro, de norte a sul, volta os olhos para a Mãe negra do rio Paraíba.
É importante notar a palavra: Padroeira de todos. Não de uma região, de uma classe social ou de uma corrente de pensamento. O Concílio lembra que a Igreja, em razão da sua missão, de modo algum se confunde com a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político determinado (GS 76). Por isso mesmo, a Mãe que a Igreja dá ao Brasil pode acolher a todos. Quem tenta fazer de Nossa Senhora bandeira de um grupo contra outro esquece que ela foi pescada das águas para ser Mãe de um povo inteiro.
O Papa Bento XVI, ao abrir em Aparecida a V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, em 2007, quis que o grande documento sobre a missão da Igreja no continente nascesse justamente aos pés dessa imagem. Não é coincidência. Ali onde a Mãe reúne, a Igreja aprende a ser missionária.
III. Sub tuum praesidium: a oração dos tempos difíceis
A epígrafe deste artigo é tirada de uma oração muito antiga. Um papiro egípcio, que muitos estudiosos datam do século III, conserva em grego as palavras que a Igreja reza até hoje: «À vossa proteção recorremos, santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita».
Não é uma oração de tempos tranquilos. Nasceu numa Igreja que conhecia a perseguição, a instabilidade e o medo. Os primeiros cristãos não tinham poder político nem segurança social. Tinham a certeza de uma Mãe a quem recorrer. O verbo é forte: confugimus (refugiamo-nos), como quem corre para um abrigo durante a tempestade.
O Concílio ensina que Maria, assunta ao céu, continua a cuidar com amor materno dos irmãos de seu Filho que ainda peregrinam entre perigos e angústias, até chegarem à pátria bem-aventurada (LG 62). Recorrer à sua proteção não é fugir da realidade. É enfrentá-la de mãos dadas com quem já atravessou, de pé, a hora mais escura da história.
IV. A rede que precisa ser lançada de novo
Há ainda um último símbolo no relato de Aparecida. Os pescadores não desistiram após a primeira rede vazia. Lançaram de novo. E depois de encontrar o corpo, lançaram mais uma vez. A perseverança precedeu o milagre.
Muitos brasileiros sentem hoje que as redes voltaram vazias. Cansaço, desconfiança, famílias divididas, amizades rompidas. A lição do rio Paraíba é simples e exigente: voltar a lançar a rede, juntos. Rezar pelo país inteiro, e não apenas pela parte com que concordamos. Pedir à Padroeira não a vitória de uns sobre os outros, mas a reconciliação de todos sob o olhar de Cristo. Reunir, como os pescadores, o que se encontra separado.
Talvez o maior milagre que Nossa Senhora Aparecida queira fazer no Brasil de hoje não seja outra pesca abundante, mas a recomposição de um povo capaz de se reconhecer como irmão.
* * *
A imagem que os pescadores encontraram em duas partes é hoje venerada inteira, e é diante dela que milhões de brasileiros, de todas as convicções, se ajoelham. Que essa unidade diante da Mãe seja semente de unidade entre os filhos.
O Locus Mariologicus convida você a recorrer à proteção de Maria com a oração mais antiga da Igreja. Reze o Sub tuum praesidium pelo Brasil inteiro nos próximos dias e aprofunde, conosco, a teologia daquela que o povo brasileiro aprendeu a chamar de Mãe.
Prof. Dr. Daniel Cerqueira Afonso
Presidente do Locus Mariologicus
Roma, 25 de outubro de 2026
Referências principais
Concílio Vaticano II. Constituição dogmática Lumen Gentium: sobre a Igreja. Vaticano, 1964.
Concílio Vaticano II. Constituição pastoral Gaudium et Spes: sobre a Igreja no mundo atual. Vaticano, 1965.
CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO. Documento de Aparecida: texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Brasília: CNBB, São Paulo: Paulus, Paulinas, 2007.
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