Petite et accipietis: Maria e a oração de petição

Fe inabalavel maria bamonte

Petite et accipietis, ut gaudium vestrum sit plenum.
Jo 16,24

«Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja plena». Jo 16,24 coloca a oração de petição no coração da experiência cristã: não apenas como dever ou como técnica espiritual, mas como a expressão natural de uma relação de amor, o filho que pede ao Pai «em nome de Jesus» sabe que será ouvido. A mariologia encontra neste convite à petição o fundamento da intercessão mariana: Maria, que pediu em Caná («Não têm vinho», Jo 2,3) e cuja petição obteve resposta, é o modelo e a intercessora por excelência de todos os que «pedem em nome de Jesus».

I. «Pedir em nome de jesus»: a novidade da oração cristã

Jo 16,23-24 introduz uma novidade na oração cristã: até agora, os discípulos não tinham pedido «nada em nome de Jesus». Mas após a Ressurreição e o envio do Espírito, poderão pedir «em nome de Jesus» e serão ouvidos. O «nome de Jesus» não é uma fórmula mágica, é o reconhecimento de que toda a oração cristã tem acesso ao Pai através do Filho, em virtude da sua obra redentora. Pedir «em nome de Jesus» é pedir como quem está dentro da relação filial que Jesus tem com o Pai.

A estrutura da oração cristã é precisamente esta: a oração «em nome de Jesus» é a oração da Igreja que se apresenta diante do Pai não com a sua própria justiça mas com a justiça do Filho. Esta lógica, que a teologia chamou de «intercessão oblíqua», é fundamental para compreender a intercessão mariana: quando Maria intercede, fá-lo «em nome de Jesus», dentro da relação de amor que ela tem com o Filho. Não «ao lado» de Jesus, não «em vez de» Jesus, mas «dentro de» Jesus, na sua mediação.

O texto de Jo 16,24 especifica o fim da petição: «para que a vossa alegria seja plena» (hina hê chara hymôn ê peplêrômenê). A oração de petição não é egoísta, é orientada para a «alegria plena», que Jo 16 situa no horizonte da Ressurreição. Pedir em nome de Jesus é pedir o que leva à alegria definitiva, não necessariamente o que satisfaz os desejos imediatos, mas o que conduz à plenitude que Cristo prometeu.

A distinção entre «pedir o que queremos» e «pedir o que Deus quer» tem em Maria o seu modelo mais eloquente. Em Caná (Jo 2,3), ela «pediu», mas de um modo peculiar: não formulou uma petição explícita, limitou-se a enunciar o problema («Não têm vinho»). Este modo de pedir, apresentar a necessidade sem formular a exigência da solução, é o modelo da petição mariana: confiante de que o Filho saberá o que fazer, sem pretender determinar como. Esta confiança filial é a essência do «pedir em nome de Jesus».

II. Caná: o modelo da intercessão mariana

Jo 2,1-11 é o texto canónico da intercessão mariana. Maria nota a falta de vinho antes de que seja pedido. Vai ao Filho e apresenta a necessidade. Recebe uma resposta aparentemente negativa «Que tens tu a ver comigo?» (Jo 2,4). E a despeito disso, confia na solução e instrui os serventes: «Fazei o que ele vos disser» (Jo 2,5). O resultado é o primeiro «sinal» de Jesus, que «manifestou a sua glória» (Jo 2,11).

A teologia da intercessão mariana tem o seu núcleo mais claro neste episódio. Primeiro: Maria intercede de modo espontâneo, sem que ninguém lhe peça. Segundo: a sua intercessão não impõe a solução, apenas apresenta o problema e confia no Filho. Terceiro: a resposta «negativa» de Jesus (Jo 2,4) não detém a sua confiança. Quarto: a sua instrução aos serventes aponta para o Filho, não para si mesma. Estes quatro traços definem o modelo da intercessão mariana: espontânea, confiante, persistente, transparente ao Filho.

A tradição interpretou a frase «Que tens tu a ver comigo?» (Jo 2,4) como um teste da fé de Maria, não como uma recusa. O Filho que ainda não atingiu a «hora» (Jo 2,4) não nega o pedido, mas indica que o seu ritmo é diferente do da Mãe. Maria, que «percebe» a mensagem e instrui os serventes a obedecer, independentemente do que o Filho ordenar, demonstra uma fé que vai além da compreensão imediata: ela confia mesmo quando não «entende».

Caná é também o texto que fundamenta a devoção de «pedir a Maria para pedir a Jesus». Esta prática devocional, que poderia parecer um desvio («porque não pedir directamente a Jesus?»), tem um fundamento bíblico preciso: assim como os convidados de Caná foram a Maria e Maria foi a Jesus, assim os cristãos podem «ir a Maria» com as suas necessidades, confiando que ela as apresentará ao Filho com o modo que lhe é próprio, espontâneo, confiante, persistente, transparente.

III. «O Pai mesmo vos ama»: fundamento trinitário da oração

Jo 16,27: «O Pai mesmo vos ama» (autos gar ho Patêr filei hymas). Esta afirmação, que parece óbvia, é na verdade uma das mais consoladoras do IV Evangelho: o Pai não precisa de ser «convencido» a amar os discípulos, ele os ama espontaneamente, com o mesmo amor (filia) com que ama o Filho. A oração de petição não tem de vencer a resistência de um Pai distante ou indiferente, dirige-se a um Pai que já ama e que aguarda a petição dos filhos para a poder satisfazer.

Esta consolação trinitária tem uma dimensão mariológica directa. A intercessão de Maria não é necessária no sentido de que sem ela o Pai não amaria os seus filhos, o Pai «mesmo» os ama. A intercessão de Maria é eficaz precisamente porque está dentro do amor do Pai, não fora dele. Ela intercede como aquela que «permanece no amor» do Filho e do Pai (Jo 15,9-10), e a sua intercessão é a expressão desse amor, não uma pressão exterior sobre ele.

A compreensão correcta da intercessão mariana evita dois extremos: o de minimizá-la («para que serve se o Pai já ama?») e o de absolutizá-la («sem Maria o Pai não nos ouve»). A intercessão de Maria é a expressão da maternidade espiritual que o próprio Pai quis que ela tivesse. E o Pai que «mesmo vos ama» quis exprimir esse amor precisamente através da mediação materna de Maria. Assim como a maternidade biológica de Maria foi querida por Deus para o nascimento do Filho, a maternidade espiritual de Maria é querida por Deus para o crescimento dos filhos.

S. Luís Maria de Montfort, cuja espiritualidade mariana poderia ser mal interpretado como substituição da relação directa com Deus pela mediação de Maria, insistia precisamente neste ponto: a devoção a Maria não desvia de Deus, antes aprofunda a relação com Deus. «A Jesus por Maria» não é um desvio, é o caminho que o próprio Filho traçou ao «ir ao Pai» passando pela mediação da sua Mãe. Pedir a Maria é pedir ao Filho através da Mãe que ele próprio nos deu junto da Cruz.

IV. «A vossa alegria seja plena»: petição e escatologia

Jo 16,24 orienta a petição para um fim escatológico: «para que a vossa alegria seja plena». A «alegria plena» (chara peplêrômenê) é a alegria do Reino consumado, a plenitude que o Apocalipse descreve como o banquete das bodas do Cordeiro (Ap 19,7-9), a Jerusalém celeste onde «Deus enxugará toda a lágrima» (Ap 21,4). A petição cristã é orientada para esta plenitude, cada petição particular é uma expressão desta petição fundamental: «Venha o teu Reino».

Maria glorificada na Assunção é a antecipação desta «alegria plena». Ela que ora com nós e por nós está já na plenitude da alegria que a petição cristã pede. A sua intercessão é, assim, a «voz» da escatologia que já se realizou nela, a favor da escatologia que ainda está em realização em nós. Quando invocamos Maria, invocamos a que já está na «alegria plena» que nós ainda pedimos.

A devoção ao Rosário que termina tradicionalmente com os cinco mistérios gloriosos (Ressurreição, Ascensão, Pentecostes, Assunção, Coroação), expressa esta orientação escatológica da petição mariana. Rezar o Rosário não é apenas pedir graças concretas para o presente, é orientar o coração para a «alegria plena» que Maria já possui e que o Ressuscitado prometeu a todos os seus. A petição que o Rosário expressa é, em última análise, a petição do «Maranatha», «Vem, Senhor Jesus», filtrada através do coração da Mãe que já O vê face a face.

A alegria plena que Jesus promete em Jo 16,24 tem um nome e um rosto: chama-se communio com o Pai, o Filho e o Espírito, a vida trinitária participada plenamente pela humanidade redimida. Maria, que já vive esta communio em plenitude, é a garante de que a promessa é real, que a petição será ouvida, que a «alegria plena» não é uma metáfora mas uma realidade a que a petição nos aproxima de modo concreto e eficaz.

Maria, que «pediu» em Caná com fé confiante e obteve do Filho o primeiro sinal, é o modelo e a intercessora de todos os que «pedem em nome de Jesus» para que a alegria seja plena.

Referências

  • S. Luís Maria de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção n. 139-168.
  • João Paulo II, Redemptoris Mater n. 21 (1987).
  • R. Brown, The Gospel According to John vol. I (1966).
  • A. Serra, Maria a Cana di Galilea (1985).
  • X. Léon-Dufour, Lecture de l’Évangile selon Jean vol. I (1988).

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