Nisi abundaverit iustitia vestra: Maria e a justiça do coração

Nisi abundaverit iustitia vestra plus quam scribarum et pharisaeorum, non intrabitis in regnum caelorum.
Mt 5,20
Mt 5,20-26 apresenta a primeira das seis «antíteses» do Sermão da Montanha: «Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás. E quem matar incorrerá em julgamento. Mas eu digo-vos: Todo aquele que se irritar com o seu irmão incorrerá em julgamento» (Mt 5,21-22). Jesus não abole o preceito «não matarás», radicaliza-o, indo à raiz do acto homicida: a ira, o desprezo, a insulto ao outro. A «justiça» que Jesus pede aos seus discípulos «excede» (perisseuô transborda) a dos escribas e fariseus não porque observe mais preceitos, mas porque vai mais fundo: até ao coração, até à raiz das atitudes e das intenções que os preceitos externos só podem regular superficialmente.
I. A justiça que «Excede»: da exterioridade à interioridade
A «justiça» (dikaiosynê) dos escribas e fariseus era uma justiça de observância externa: cumprir os preceitos da Torá na sua dimensão comportamental visível. Esta observância não era desprezível, exigia esforço, disciplina, fidelidade. O problema que Jesus aponta não é a exterioridade em si, mas a suficiência da exterioridade: quando a observância externa é considerada suficiente para a «justiça», e não há preocupação com o estado interior do coração que os actos externos expressam.
A «justiça que excede» que Jesus pede é a que vai da exterioridade à interioridade. Não basta não matar, é necessário não odiar, não desprezar, não insultar. Não basta oferecer sacrifícios, é necessário estar reconciliado com o irmão antes de oferecer (Mt 5,23-24). Esta radicalização não torna os preceitos mais difíceis de observar na sua letra, torna-os impossíveis de observar sem a transformação interior que apenas a graça pode operar. É por isso que a «justiça que excede» não é um esforço adicional do livre-arbítrio humano, é o fruto da graça que transforma o coração de dentro.
A exortação de Mt 5,23-24, «Se vais apresentar a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem algo contra ti, deixa ali a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão, e depois volta e apresenta a tua oferta», é uma das mais radicais do Sermão. A reconciliação com o irmão tem prioridade sobre o culto a Deus: isto não porque o culto seja secundário, mas porque o culto que não nasce de um coração reconciliado é uma contradição em termos. Não se pode adorar o Deus do amor com um coração que odeia o irmão feito à imagem de Deus.
A urgência da reconciliação antes do julgamento (Mt 5,25-26: «vai reconciliar-te com o teu adversário enquanto estás a caminho com ele») aplica o princípio ao plano escatológico: há um «momento» para a reconciliação, o tempo presente da vida terrena, que não pode ser indefinidamente adiado sem consequências. Esta urgência escatológica da reconciliação é um dos temas mais consistentes do Novo Testamento: o amor ao irmão como sinal do amor a Deus (1Jo 4,20), a reconciliação como condição da oração eficaz (Mt 6,12.14-15).
II. Maria e a «Justiça do coração»
Maria é o modelo da «justiça que excede», não a que multiplica os preceitos externos, mas a que emana de um coração sem divisão. Os Evangelhos não registam nenhum conflito de Maria com ninguém, não há ira, não há desprezo, não há insulto. Isto não é um argumento do silêncio (os Evangelhos registam muito pouco da vida de Maria em geral), mas é significativo: a tradição que meditou sobre Maria nunca encontrou nela a sombra de uma injustiça interior.
O episódio mais próximo de um «conflito» entre Maria e alguém é a cena de Mt 12,46-50, onde Jesus parece distanciar-se da mãe e dos irmãos que o procuram de fora: «Quem é minha mãe e quem são meus irmãos»? A tradição interpretou este episódio de formas diversas, mas a mais comum é a de que Jesus não rejeita Maria, aprofunda o fundamento da sua relação: o que vincula Jesus a Maria não é apenas o laço biológico, mas o laço da fé, e Maria está do lado daqueles que «fazem a vontade do Pai». Não há conflito entre Jesus e Maria, há um aprofundamento do vínculo.
A reconciliação como prioridade sobre o culto (Mt 5,23-24) tem uma dimensão mariana importante: Maria, que intercede junto do Filho pelos homens (como em Caná), é a mediadora da reconciliação entre os homens e Deus. Mas a sua mediação não substitui a reconciliação directa entre os irmãos, pelo contrário, aponta para ela. A oração mariana mais eficaz é aquela que, ao invocar Maria, se converte também em disposição de reconciliação com o irmão. Maria que ficou junto da Cruz, onde Jesus realizou a reconciliação suprema, é o ícone de uma fé que não separa o amor a Deus do amor ao próximo.
III. «Não te irrites com o teu irmão»: a ira e a sua raiz
A radicalização de Jesus sobre a ira (Mt 5,22) aponta para a antropologia bíblica do coração como fonte de todos os actos: «é do coração que saem os maus pensamentos» (Mt 15,19). A ira, o orgê grego, que abrange desde a irritação passageira até ao ódio enraizado, é a raiz do homicídio, não apenas o homicídio o fruto da ira. Combater apenas os frutos (os actos violentos) sem combater a raiz (a ira do coração) é uma abordagem superficial que não resolve o problema.
A tradição ascética e mística (em particular Evágrio Pôntico, João Clímaco, e mais recentemente Thomas Merton) tratou a ira como um dos «pensamentos» fundamentais que perturbam a oração e a vida espiritual. A cura da ira não é a repressão, é a transformação: o reconhecimento das suas causas (a ferida do orgulho ferido, o medo da perda, a sensação de injustiça real ou percebida) e a sua entrega a Deus. Maria, que nunca aparece irada nos Evangelhos, que «guarda no coração» em vez de reagir com irritação, é o modelo desta transformação interior da ira em serena confiança em Deus.
A conexão entre a «justiça do coração» que Mt 5,20-26 descreve e a espiritualidade mariana é mais profunda do que pode parecer: a «justiça» que Maria pratica não é a da lei que regula comportamentos externos, é a do amor que transforma o coração e, através do coração transformado, transforma os comportamentos. É a «justiça» que brota da «pobreza em espírito» das Bem-aventuranças: a que não tem nada a provar, nada a defender, nada a impor, apenas a clareza serena de quem é, ao mesmo tempo, completamente dependente de Deus e completamente disponível para o irmão.
Maria, cuja «justiça excede» toda a observância legalista por brotar de um coração sem ira e sem divisão, é o modelo da reconciliação interior que Jesus pede no Sermão da Montanha como condição do culto autêntico a Deus.
Referências
- Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes n. 22 (1964).
- João Paulo II, Redemptoris Mater n. 39-41 (1987).
- U. Luz, Das Evangelium nach Matthäus vol. I (1985).
- R. Schnackenburg, Die Bergpredigt (1984).
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