Thesaurizate vobis thesauros in caelo: Maria e os tesouros do coração

Thesaurizate vobis thesauros in caelo: Maria e os tesouros do coração
Ubi enim est thesaurus tuus, ibi est et cor tuum.
Mt 6,21

A instrução de Jesus sobre os dois tipos de tesouro em Mt 6,19-21 é uma das mais penetrantes do Sermão da Montanha. A aparente simplicidade da distinção, não acumules riquezas na terra, acumula-as no céu, esconde uma análise profunda da dinâmica do coração humano e da sua relação com o que valoriza. A palavra grega thesauros designa tanto o cofre como o precioso guardado nele. E a frase que encerra o argumento, «onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração», revela que o que está em jogo não é gestão financeira mas a orientação fundamental da pessoa: onde o coração aposta o seu amor, aí está a sua identidade mais profunda.

A distinção entre tesouros terrestres e celestiais não é uma distinção entre matéria e espírito no sentido platónico, como se o material fosse mau por natureza. A tradição cristã recusou sistematicamente este dualismo: a matéria é boa (Gn 1,31), o corpo será ressuscitado, a Eucaristia é pão e vinho. O que Jesus contrasta não é matéria versus espírito, mas provisório versus definitivo, corruptível versus incorruptível. Os tesouros terrestres são os que a ferrugem (brosis), a traça (tinea) e o ladrão (kleptes) podem destruir. Os tesouros celestiais são os que nenhuma força temporal pode tirar, o amor, a justiça, a misericórdia que constroem uma realidade imperecível.

I. A lógica dos dois tesouros

Na tradição judaica de que Jesus parte, «fazer tesouros no céu» era expressão corrente para atos de misericórdia e de justiça cujos frutos perduram para a eternidade. O Talmud regista a expressão em vários lugares. Os Padres da Igreja a adoptaram. A esmola dada ao pobre, a reconciliação com o irmão, o amor ao inimigo, estes atos constroem um «tesouro celestial» não porque Deus registe transacções num livro contabilístico, mas porque o amor autêntico produz uma realidade que não passa. O amor é o único «tesouro» que nem a morte pode destruir. É o único bem que se torna mais rico quanto mais se partilha.

A «decisão fundamental» a que o Evangelho chama, orientar o coração para o tesouro celestial, foi desenvolvida pela teologia moral contemporânea como conceito central da ética cristã. A opção fundamental (Grundentscheidung) não é este ou aquele ato isolado, mas a direção geral da liberdade: o que o coração escolheu como o bem supremo, como o ponto de referência definitivo. Jesus não está pedindo um ajustamento comportamental superficial: está convidando a uma metanoia, uma reorientação do coração que transforma o que se valoriza. Esta reorientação, que só a graça torna possível, é a conversão no sentido mais profundo.

A parábola do «olho são e do olho mau» que se segue (Mt 6,22-23) insere-se no mesmo contexto. O «olho mau» (ophthalmos poneros) era expressão proverbial para a avareza. O «olho são» (ophthalmos haplous) designava a generosidade e a simplicidade. Dois modos de «ver» a realidade: com o olho gerado pela posse (que distorce tudo em função do ter) ou com o olho gerado pela doação (que vê o mundo com a clareza do amor). A orientação fundamental do coração, o «tesouro», determina o «olho» com que se vê tudo o mais.

II. Maria que «Guardava no coração»

Lucas descreve a vida interior de Maria com a expressão «guardava todas estas coisas, meditando-as em seu coração» (Lc 2,19. Cf. 2,51). Esta expressão é precisamente a linguagem do «tesouro»: Maria acumulava no coração não riqueza material, não prestígio, não poder, mas a Palavra de Deus, os eventos do mistério de Cristo que contemplava e custodiava. O coração de Maria era literalmente um «tesouro celestial»: repleto da presença do Filho de Deus que ela carregou, cuidou e acompanhou até o Calvário e à Ressurreição.

A devoção ao «Imaculado Coração de Maria», celebrada a 22 de Agosto, tem o seu fundamento teológico nesta imagem lucana. O coração de Maria não é símbolo sentimental: é símbolo da sua liberdade fundamental, da orientação total da sua pessoa para Deus. Que o seu coração seja «imaculado» não significa que nunca sofreu, a profecia de Simeão sobre a espada contradiz isso. Significa que nunca se desviou da sua orientação fundamental para Deus: mesmo na dor do Calvário, o «tesouro» do coração de Maria permaneceu no céu, no Filho que a Cruz não pôde separar do Pai.

A contemplação do coração de Maria como modelo do «tesouro celestial» tem um valor pedagógico concreto: mostra que acumular tesouros celestiais não é uma atividade separada da vida quotidiana. Maria acumulou o seu tesouro em Nazaré, no serviço doméstico, na educação de Jesus, na presença junto de Isabel, nos trinta anos de vida escondida. O «tesouro» celestial não requer contextos extraordinários: requer atenção e amor ordinários transfigurados pela graça. É o tesouro da fidelidade quotidiana, invisível aos olhos dos homens mas visível ao Pai que «vê em segredo».

III. O «Olho são» e o discernimento espiritual

A conexão entre o «olho são» de Mt 6,22-23 e a tradição mística da «limpeza do coração» é explícita nas Bem-Aventuranças: «Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus» (Mt 5,8). O coração orientado para o tesouro celestial desenvolve um «olho» que percebe a realidade com uma claridade que o coração orientado para os tesouros terrestres não pode ter. A contemplação purifica o olhar. O amor rectifica a visão. Esta limpeza não é conquista humana, é fruto da graça que transforma o coração de dentro para fora.

Mestre Eckhart, João Tauler e a escola mística renana do século XIV desenvolveram extensamente este tema da «visão purificada» como fruto da união com Deus. O «olho do coração» (Eckhart usa a expressão Herzensauge) que vê Deus nas criaturas e as criaturas em Deus é o «olho são» que Mt 6,22 descreve: a faculdade espiritual que nasce da orientação fundamental para o tesouro celestial. Esta tradição mística recuperou uma intuição profunda do Sermão da Montanha: que o modo como se vê o mundo depende do que o coração escolheu como tesouro.

Maria é o modelo da «limpeza do olhar» correspondente ao «olho são». O seu olhar sobre o Filho, descrito nos Evangelhos como atenção profunda e meditação constante, é o olhar do coração que acumulou o tesouro certo. Ela não via Jesus apenas como filho biológico. Via nele o Messias, o Filho de Deus, o Salvador do mundo. Esta profundidade do olhar nasceu de anos de contemplação e de oração: de uma vida inteiramente orientada para o «tesouro» que o ângelo tinha anunciado. O seu «olho são» era o fruto da sua opção fundamental por Deus.

IV. Onde está o coração: a prova da vida

A frase final, «onde está o teu tesouro, aí está o teu coração», é uma das mais psicologicamente penetrantes de todo o Evangelho. Revela que o coração não escolhe livremente onde se apega: ele segue o tesouro. Quem investiu anos de energia e amor num projeto, numa relação, num ideal, esse é o seu «tesouro», e o coração habita nele. Por isso a conversão cristã não é primariamente um ato de vontade («decido amar Deus acima de tudo»), mas uma transformação do coração que passa por mudar o que se investe com amor.

A pedagogia espiritual cristã entendeu esta lógica. Inácio de Loyola não pede ao iniciante dos Exercícios que «ame Deus acima de tudo» como ato de vontade impotente, mas que invista tempo e atenção na oração, na lectio divina, no serviço ao pobre, e que o coração, seguindo o tesouro investido, se reoriente gradualmente. A conversão é um processo de «reapego»: o coração aprende a amar Deus quando começa a investir na relação com Deus. A graça transforma o coração. Mas a liberdade investe o tesouro.

Maria é o modelo da pessoa cujo coração foi completamente reorientado para o tesouro celestial. Não porque «decidiu» ser assim num ato singular de vontade, mas porque toda a vida, da Anunciação ao Pentecostes, foi um processo de crescente investimento do coração em Deus. O «fiat» não foi um ato isolado: foi o fruto maduro de um coração que tinha, ao longo dos anos, acumulado o seu tesouro onde a ferrugem e a traça não chegam, onde os ladrões não entram. E este coração, que «guardou no coração» (Lc 2,19) o tesouro mais precioso, é o modelo de todo o discípulo que ouviu o Sermão da Montanha e respondeu com a vida inteira.

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