In regionem gerasenorum: o exorcismo, os porcos e Maria vencedora do maligno

Et ecce clamaverunt, dicentes: Quid nobis et tibi, Fili Dei? Venisti huc ante tempus torquere nos?
Mt 8,29
O episódio dos endemoninhados de Gadara (Mt 8,28-34) é um dos mais estranhos e perturbadores dos Evangelhos, e um dos que a exegese contemporânea tende a suavizar ou a reler em chave puramente psicológica, perdendo a densidade teológica que Mateus lhe atribui. Dois homens com espíritos impuros saem dos sepulcros, ferozes ao ponto de ninguém poder passar por aquele caminho, e reconhecem imediatamente a identidade de Jesus: «Que temos nós contigo, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo»? (Mt 8,29). Este reconhecimento, a christologia mais explícita do episódio, vem dos demónios, não dos discípulos: os espíritos do mal reconhecem o Filho de Deus com uma precisão que os discípulos ainda não alcançaram.
A cena tem uma estrutura tríplice que Mateus compõe com precisão: o reconhecimento (v.29), o pedido (v.31, «se nos expulsas, envia-nos para aquele rebanho de porcos»), e o resultado (v.32-34, os porcos mergulham no lago, os pastores fogem, os habitantes pedem a Jesus que se vá). O resultado mais perturbador não é a morte dos porcos, é que os habitantes da região, ao verem o que havia acontecido, «rogaram-Lhe que saísse do seu território» (v.34). A libertação de dois homens da possessão foi recebida não com alegria mas com pedido de afastamento: o Libertador perturbou demasiado a ordem estabelecida.
I. «Filho de deus»: os demónios sabem o que os discípulos ainda aprendem
O paradoxo do reconhecimento demoníaco percorre os Evangelhos: em Marcos, um espírito impuro na sinagoga de Cafarnaum proclama «Sei quem és, o Santo de Deus» (Mc 1,24). Os demónios expulsos em Lc 4,41 «sabiam que Ele era o Cristo». Este saber demoníaco é de natureza diferente da fé humana: é reconhecimento sem adesão, conhecimento sem amor, certeza sem conversão. O diabo sabe que Deus existe (como Tiago nota: «os demónios também crêem, e tremem», Tg 2,19) mas esse saber não o salva porque não o transforma.
«Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo»? (Mt 8,29), a referência ao «tempo» é escatológica: os demónios sabem que existe um momento marcado para o seu juízo definitivo, e que esse momento ainda não chegou. A presença de Jesus é para eles um «antes do tempo», uma antecipação do fim que temem. Esta consciência escatológica dos espíritos do mal é teologicamente rica: o próprio mal reconhece que a história tem um fim, que esse fim é o juízo de Deus, e que a presença de Jesus sinaliza a proximidade desse fim. O que os discípulos aprendem pela fé, os demónios sabem pelo terror.
A identificação de Jesus como «Filho de Deus» pelos demónios de Gadara antecipa a confissão de Pedro em Mt 16,16 e a dos discípulos após a calmagem da tempestade (Mt 14,33: «Verdadeiramente és o Filho de Deus»). Mateus usa o reconhecimento demoníaco como contraponto irónico da incompreensão humana: os que deveriam reconhecer não reconhecem. Os que deveriam ignorar reconhecem com tremor. Esta ironia tem um propósito pedagógico: fazer o leitor perguntar, «e eu, onde estou neste espectro? com os que reconhecem com fé, ou com os que recusam por conveniência como os habitantes de Gadara»?
Maria é, na tradição mariana, o ser humano que respondeu ao «Filho de Deus» com a fé mais completa, ao contrário dos demónios que o reconhecem sem amar, e ao contrário dos habitantes de Gadara que o pedem para sair por interesse económico. O «fiat» de Maria é a resposta humana mais completa ao anúncio «serás mãe do Filho do Altíssimo»: não tremor (como os demónios), não recusa (como os gadarenos), mas acolhimento, «faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).
II. O pedido dos demónios e a permissão de Jesus
«Os espíritos impuros saíram e entraram nos porcos» (Mt 8,32), Jesus concede o pedido dos demónios de entrar nos porcos, com o resultado de que dois mil porcos mergulham no lago. A permissão de Jesus levanta a questão teológica da acção divina sobre o mal: Deus não causa o mal, mas pode permitir que o mal siga o seu percurso dentro de limites que Deus fixa. O «antes do tempo» do v.29 é o limite escatológico. A permissão para os porcos é o limite operacional. O mal age dentro do espaço que a soberania divina lhe concede, não além.
A destruição dos porcos como consequência da entrada dos demónios revela a natureza destrutiva do mal quando tem permissão de agir: a acção demoníaca não é criativa nem ordenada, é sempre destruição, dissolução, mergulho no abismo (as águas do lago são o espaço do caos, como na tempestade de Mt 8,23-27). Quando os demónios saem dos homens, os homens são libertados. Quando entram nos porcos, os porcos perecem. Esta assimetria é teologicamente significativa: o mal que sai do ser humano que tem alma e é imagem de Deus não tem o mesmo poder destruidor que o mal sobre os animais sem essa dimensão ontológica.
A reacção dos habitantes, pedir a Jesus que se afaste, é a segunda expulsão do episódio: primeiro os demónios são expulsos dos homens. Depois os habitantes pedem a expulsão de Jesus do território. O paralelismo é perturbador: os que eram possessos pedem implicitamente ficar com Jesus (Mt 8,34, Mt diz que «toda a cidade saiu ao encontro de Jesus», sem dizer que pediram para ele sair, mas o pedido é da cidade). Os que eram livres pedem que o Libertador se vá. A economia dos porcos (provavelmente gentios, já que os judeus não criavam porcos) pesava mais do que a libertação de dois homens.
Maria nunca pediu a Jesus para se afastar, mesmo quando a Sua presença perturbava a ordem estabelecida da sua vida. A fuga para o Egipto (Mt 2,13-15), a perda de Jesus no Templo (Lc 2,41-51), a pedido em Caná antes «da sua hora» (Jo 2,4): em cada um destes momentos em que Jesus perturbou as expectativas de Maria, ela não pediu que Se fosse mas ajustou o seu coração ao que Ele era e fazia. Esta disponibilidade para ser perturbada pela presença de Jesus, que os gadarenos não tiveram, é um dos traços mais notáveis do seguimento mariano.
III. Maria virgo potens: a Imaculada e a vitória sobre o mal
A Litania de Loreto invoca Maria como «Virgo Potens», Virgem Poderosa. Este título não é de poder político ou militar: é o poder da graça que vence o mal desde a origem. A definição dogmática da Imaculada Conceição (Pio IX, «Ineffabilis Deus», 1854) afirma que Maria foi «preservada imune de toda a mancha do pecado original», ou seja, que as «portas do Abismo» (os demónios de Gadara e o que representam) nunca tiveram poder sobre ela. Maria é o ser humano sobre quem o «Filho de Deus» dos demónios de Gadara confessa que «vieste atormentar-nos» teve efeito pleno desde o primeiro momento da sua existência.
O Génesis 3,15, «porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua estirpe e a sua estirpe», foi interpretado pela tradição como o primeiro anúncio da vitória de Maria sobre o mal: a «inimizade» entre a mulher e a serpente prefigura a Imaculada que foi concebida sem o poder da serpente sobre ela. Maria não venceu o mal por força própria, foi preservada pela graça do Filho que ela havia de gerar. Mas a preservação é real: onde os demónios de Gadara tinham acesso aos corpos dos homens e à vida dos porcos, nunca tiveram acesso ao ser de Maria.
A devoção mariana como recurso espiritual contra as forças do mal, a prática do rosário as bênçãos com medalhas de Maria, os santuários marianos como lugares de libertação, tem este fundamento teológico: Maria, que foi preservada do poder do mal, pode interceder de modo especialmente eficaz pelos que lutam contra esse mesmo poder. Não é magia nem superstição: é a lógica da intercessão, quem venceu pode ajudar a vencer. Quem foi curado pode ser médico. Quem foi libertado pode ser libertador.
Os habitantes de Gadara pediram a Jesus para sair porque a Sua presença perturbou a sua economia. A devoção mariana autêntica não pede a Jesus para sair, pede a Maria que O mantenha presente mesmo quando a Sua presença perturba. «Virgo Potens» é a que manteve Jesus presente mesmo no Calvário, quando todos os outros pediram (por fuga) que a Sua presença terminasse. O poder de Maria não é o poder que expulsa o Filho mas o poder que O mantém, a presença que sustenta a presença do Filho onde o medo e o interesse a queriam eliminar.
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