Non veni vocare iustos: Mateus, os publicanos e Maria refugium peccatorum

Non enim veni vocare iustos, sed peccatores.
Mt 9,13
O Sábado da décima terceira semana do Tempo Comum é, na tradição litúrgica, o Sábado de Nossa Senhora, o dia da memória mariana que a devoção medieval generalizou como dia de contemplação e de oração a Maria. A pericope evangélica da liturgia ferial deste sábado, Mt 9,9-13, a vocação de Mateus e o banquete com os publicanos, oferece uma chave inesperadamente precisa para a contemplação mariológica do dia: a misericórdia que chama os excluídos, o banquete que abre as portas aos que o sistema religioso fechava, e Maria como o rosto dessa misericórdia que nunca fecha a porta.
A vocação de Mateus tem uma estrutura brevíssima e impactante: Jesus passa, vê Mateus sentado na repartição dos impostos, diz «Segue-me», e Mateus «levantou-se e seguiu-O» (Mt 9,9). Nenhuma hesitação, nenhum processo de discernimento descrito, nenhuma explicação. O «Segue-me» de Jesus produz imediatamente o «levantou-se e seguiu». Esta velocidade de resposta tem em Mateus o seu próprio comentário autobiográfico: o Evangelho que narra esta vocação foi escrito pela mão do mesmo Mateus que se levantou e seguiu. A Boa nova que anunciamos foi escrita por um pecador convertido, e isso diz algo sobre a natureza da Boa nova.
I. O publicano que se levantou: a vocação como ruptura
Mateus era publicano, cobrador de impostos ao serviço de Roma. Esta profissão tornava-o impuro segundo a lei judaica (contacto com gentios, possibilidade de fraude, colaboração com o ocupante) e socialmente excluído da comunidade religiosa. Os publicanos eram colocados, na casuística rabínica, na mesma categoria dos «pecadores», os que viviam em estado permanente de afastamento da aliança. Que Jesus chamasse um publicano para o grupo dos doze era, do ponto de vista da sensibilidade religiosa judaica, um escândalo institucional: os discípulos deveriam ser tirados dos que eram puros, não dos que eram impuros.
O «levantou-se e seguiu-O» de Mateus é paralelo ao «levantou-se e servia» da sogra de Pedro (Mt 8,15): a cura/chamado de Jesus produz imediatamente serviço, movimento, vida nova. O leito do paralítico que ele carregava ao sair (Mt 9,7) e a repartição fiscal que Mateus abandona ao sair (Mt 9,9) são os «arados» que se queimam, o instrumento da vida anterior deixado para trás sem hesitação quando Jesus chama. A vocação não é um processo lento de deliberação interior que culmina numa decisão difícil: é resposta imediata a uma chamada imediata, com a ruptura que ela implica.
O banquete que se segue, «estando Jesus à mesa na casa de Mateus, muitos publicanos e pecadores estavam à mesa com Jesus e os seus discípulos» (Mt 9,10), é o gesto de incorporação na nova comunidade. Mateus não guarda a sua conversão como facto privado: abre a sua casa, convida os seus amigos (outros publicanos e pecadores), e o banquete torna-se o espaço onde a nova aliança começa a tomar forma. A mesa de Mateus antecipa a mesa eucarística: o lugar onde os excluídos são acolhidos, onde a distinção entre puros e impuros é superada pelo amor que convida todos.
A Visitação de Maria a Isabel tem a estrutura da vocação de Mateus: Maria recebeu a chamada (Anunciação) e «levantou-se e foi» (Lc 1,39, «anestousa»). Como Mateus que se levantou da repartição fiscal, Maria levantou-se da sua casa em Nazaré. Como Mateus que levou Jesus para a casa e para a mesa dos excluídos, Maria levou Jesus para a casa de Isabel e para o «banquete» da Visitação, o encontro onde João saltou de alegria no ventre de Isabel. A estrutura do seguimento imediato, sem deliberação hesitante, é comum a Mateus e a Maria.
II. «Por que come o vosso mestre com os publicanos»?: o escândalo da misericórdia
«Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores»? (Mt 9,11), a pergunta dos fariseus a os discípulos de Jesus revela o código social que Jesus estava a violar: a mesa partilhada implica comunhão. Comer com impuros torna impuro quem come com eles. Os fariseus não estavam errados na lógica interna do sistema de pureza, estavam errados em aplicar esse sistema a Jesus, cujo contacto com os impuros os purifica em vez de o contaminar (como já vimos com o leproso de Mt 8,3).
«Não precisam de médico os que têm saúde, mas os enfermos» (Mt 9,12), a resposta de Jesus à acusação implícita é uma máxima de sabedoria: os médicos estão onde os doentes estão, não onde os saudáveis estão. A lógica da missão de Jesus inverte a lógica da pureza ritual: não é o curador que deve afastar-se dos doentes para se manter puro. É o curador que deve ir para onde os doentes estão para os curar. Esta inversão é o princípio da encarnação: Deus não ficou afastado da humanidade para se manter «puro» da contaminação humana. Entrou na humanidade para curá-la de dentro.
«Ide aprender o que significa: misericórdia é o que eu quero e não sacrifício» (Mt 9,13, citando Os 6,6), a citação de Oséias é programática para a ética de Jesus em Mateus. O «sacrifício» que Os 6,6 contrasta com a «misericórdia» não é o sacrifício litúrgico em si, é a observância ritual que se torna fim em si mesma, desconectada do amor ao próximo que ela deveria expressar. Jesus não aboliu o ritual. Aboliu o ritualismo que usa o ritual como defesa contra os excluídos. A «misericórdia» que Oséias reivindica é o hesed hebraico, o amor leal que não abandona.
A devoção mariana à «misericórdia» tem neste texto o seu fundamento evangélico: Maria é «cheia de graça» (Lc 1,28), plena do hesed de Deus, e como tal pode oferecer o refúgio que os «fariseus» de todas as épocas recusam. Os que chegam a Maria são frequentemente os que a estrutura religiosa formal tornou sentir excluídos, os divorciados, os que abandonaram a prática, os que se sentem indignos de entrar pela porta principal. Maria é a porta lateral que acolhe quando a porta principal parece fechada, não porque a porta principal deva estar fechada, mas porque a sua misericórdia não impõe condições prévias.
III. Maria refugium peccatorum e o sábado mariano da misericórdia
«Refugium Peccatorum», Refúgio dos Pecadores, é um dos títulos da Litania de Loreto que capta de modo mais directo a função que a devoção mariana atribuiu a Maria ao longo dos séculos. O «refugium» é o espaço de acolhimento antes do julgamento, como as «cidades de refúgio» do Antigo Testamento (Nm 35,11-15) que protegiam o homicídio involuntário até ao julgamento. Maria como «refúgio» é a que acolhe o pecador antes que ele seja capaz de se apresentar ao Sacramento, o espaço de transição entre o estado de afastamento e a reconciliação formal.
O Sábado mariano como dia de reflexão sobre o pecado e a misericórdia tem uma longa história devocionada. A prática dos «cinco primeiros sábados» (promovida pela devoção ao Imaculado Coração de Maria após Fátima) associa o sábado mariano ao exame de consciência, à confissão e à comunhão reparadora. Esta prática, quando entendida correctamente, não é ritualismo, é a estrutura semanal que convida o cristão a examinar onde esteve esta semana como Mateus na repartição fiscal, e a «levantar-se e seguir» Cristo de novo.
A mesa de Mateus, aberta a publicanos e pecadores, é a antecipação da mesa eucarística dominical. O Sábado mariano é o dia de preparação para essa mesa: o dia de «ir aprender o que significa misericórdia» (Mt 9,13) como disposição para receber o dom eucarístico do domingo. Maria que esteve presente na Última Ceia (segundo a tradição) e no Cenáculo (segundo At 1,14) é o modelo desta preparação: a que chegou ao domingo da Ressurreição e ao domingo de Pentecostes pela via do Sábado Santo, o dia em que a misericórdia ainda não era visível mas já era real.
«Não vim chamar os justos, mas os pecadores», esta frase de Jesus permanece como um dos textos mais libertadores do Novo Testamento para os que se sentem excluídos. Maria, que cantou «encheu de bens os famintos e despediu de mãos vazias os ricos» (Lc 1,53), entendeu esta lógica desde o início: os que chegam com as mãos cheias de justiça própria não têm espaço para receber. Os que chegam com as mãos vazias têm todo o espaço. O Sábado mariano é o dia de esvaziar as mãos, de reconhecer a própria pobreza espiritual, para estar pronto a receber o dom dominical da Eucaristia e do Evangelho que Jesus traz para a mesa dos pecadores.
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