Dedit illis potestatem: os doze enviados e Maria Mater ecclesiae

Dedit illis potestatem: os doze enviados e Maria Mater ecclesiae
Et convocatis duodecim discipulis suis, dedit illis potestatem spirituum immundorum, ut eicerent eos, et curarent omnem languorem et omnem infirmitatem.
Mt 10,1

O capítulo 10 de Mateus é o segundo dos cinco grandes discursos do Evangelho, o discurso missionário, e começa com o gesto fundacional do apostolado: Jesus reúne os doze discípulos, dá-lhes autoridade, lista os seus nomes e envia-os em missão. A estrutura é tripartida: o dom de autoridade (Mt 10,1), a lista dos nomes (Mt 10,2-4), e as instruções de missão (Mt 10,5-42). Este episódio é um dos mais estruturantes de toda a eclesiologia de Mateus: é a primeira vez que Mateus usa a palavra «apóstolo» (Mt 10,2), a primeira vez que os doze são enviados como grupo, e o momento em que a missão de Jesus começa a ser participada por outros.

O número doze não é casual: corresponde às doze tribos de Israel, o que revela a intenção de Jesus de reconstituir o povo de Deus, não como nação política mas como comunidade de missão. Os doze apóstolos são os pilares da nova Israel que Jesus está a fundar, o sinal escatológico de que a promessa de Deus ao povo das doze tribos se cumpre agora de modo novo. Em Mt 19,28, Jesus dirá explicitamente que os doze sentarão em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel, o apostolado tem uma dimensão escatológica que vai além da missão imediata de percorrer as aldeias da Galileia.

I. «Deu-lhes poder»: a autoridade delegada

«Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros para os expulsar e curar toda a doença e toda a enfermidade» (Mt 10,1), a autoridade que Jesus dá aos doze é exactamente a autoridade que Ele mesmo exerceu nos cap. 8-9: curar doenças, expulsar demónios. A missão dos doze não é uma imitação da missão de Jesus, é uma participação na mesma missão, com a mesma autoridade. Jesus não está a criar substitutos para quando Ele estiver ausente: está a multiplicar a Sua presença eficaz pela mediação de outros.

A delegação de autoridade que Jesus realiza em Mt 10,1 é o fundamento teológico do sacramento da Ordem. Os bispos como sucessores dos Apóstolos, e os presbíteros e diáconos como colaboradores dos bispos, exercem uma autoridade que foi delegada por Jesus aos doze e transmitida através da sucessão apostólica. O «dedit illis potestatem» (deu-lhes poder) de Mt 10,1 é o primeiro acto formal desta cadeia de delegação que chega até hoje: a autoridade de pregar, curar, absolver, consagrar tem a sua fonte no mesmo gesto de Jesus que deu poder aos doze.

A lógica da autoridade delegada é importante para compreender a natureza da missão cristã: os apóstolos não agem por sua própria autoridade mas pela autoridade que receberam de Jesus. O missionário não é proprietário da mensagem que anuncia, é portador de uma mensagem recebida. Não cura por poder próprio, age pelo poder de Cristo que lhe foi confiado. Esta distinção entre a autoridade pessoal do apóstolo e a autoridade de Cristo que ele exerce em nome de outro é o que a Igreja primitiva chamou «ex opere operato» nos sacramentos: a eficácia do sacramento não depende da santidade pessoal do ministro mas da autoridade de Cristo que age nele e por ele.

Maria recebeu uma forma única de participação na missão de Jesus, não a delegação apostólica da pregação pública, mas a missão materna e intercessória que é inseparável da missão do Filho. A maternidade divina de Maria, ser a Mãe de Deus é ela própria uma forma de «potestatem» recebida: não a autoridade de pregar ou sanar, mas a autoridade de apresentar ao mundo o Salvador, de interceder junto do Filho, de ser para a Igreja a Mãe que o próprio Jesus lhe deu no Calvário («Eis a tua mãe», Jo 19,27).

II. A lista dos doze: a diversidade do apostolado

«Os nomes dos doze apóstolos são: o primeiro, Simão, chamado Pedro, e o seu irmão André. Tiago, filho de Zebedeu, e o seu irmão João. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o Zelote, e Judas Iscariotes, que O traiu» (Mt 10,2-4), a lista inclui um pescador que se tornará pedra (Pedro), um publicano (Mateus), um zelote (Simão, membro de um movimento político-religioso de resistência a Roma), e um traidor (Judas). A diversidade é radical: os doze incluem as classes sociais, os temperamentos e, tragicamente, o futuro traidor.

A presença de Judas na lista é um dado que Mateus não suaviza: «Judas Iscariotes, que O traiu», o traidor é mencionado como apóstolo, recebe o mesmo envio, a mesma autoridade, as mesmas instruções. A traição de Judas não invalida o apostolado, confirma a liberdade com que Jesus escolheu os seus apóstolos: incluiu o que sabia que iria trair, sem por isso exclui-lo da lista dos enviados. A fragilidade humana do apostolado, que inclui um traidor entre os doze, é parte do mistério da Igreja que o Senhor fundou.

A diversidade dos doze antecipa a diversidade da Igreja universal: o apostolado não é propriedade de um grupo social, étnico ou cultural. Pedro e André eram pescadores da Galileia. Mateus era cobrador de impostos da administração romana. Simão o Zelote era activista político de resistência a Roma. Que estes dois, o colaborador do poder romano e o resistente, formassem parte do mesmo grupo apostólico era em si um sinal escatológico: em Cristo, as divisões políticas e sociais são superadas pela missão comum.

A lista dos doze em Mateus termina com o nome de Judas «que O traiu», o único apóstolo identificado pela sua traição, não pela sua origem ou profissão. Este detalhe é pastoralmente importante: a Igreja que Jesus fundou não é uma comunidade de perfeitos mas uma comunidade de enviados que inclui o fraco e o infiel. A traição de Judas não é escondida ou minimizada na tradição apostólica: é parte da honestidade com que a Igreja narra a sua própria origem, fundada na escolha livre de Jesus, que incluiu a fragilidade humana no próprio colégio apostólico.

III. «Ide antes às ovelhas perdidas de israel»: a sequência da missão

«A estes doze enviou Jesus, dando-lhes as seguintes instruções: Não vades para os países pagãos nem entreis em cidade alguma dos samaritanos. Ide antes de preferência às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 10,5-6), a instrução de restringir a missão a Israel choca com o mandato universal de Mt 28,19. A tensão é real e tem sido muito discutida: Jesus limita aqui a missão imediata dos doze a Israel, mas promete na ressurreição uma missão a todas as nações. A explicação mais coerente é que a ordem salvífica é «primeiro para o judeu, depois para o grego» (Rom 1,16): Israel tem prioridade no momento da missão histórica de Jesus, mas a missão universal já está no horizonte desde o início.

«Ovelhas perdidas da casa de Israel», o mesmo vocabulário da compaixão de Jesus em Mt 9,36 («ovelhas sem pastor») é agora o vocabulário da missão dos doze. Jesus envia os doze exatamente para o que o seu coração viu com compaixão: as ovelhas perdidas. A missão não parte de uma estratégia de expansão religiosa mas da compaixão concreta por quem está perdido. Os enviados vão para onde o coração compaixivo de Jesus os envia, e esse coração está sempre orientado para os que estão «aflitos e abatidos».

Maria, «Mater Ecclesiae», Mãe da Igreja, é o título que Paulo VI proclamou no encerramento da terceira sessão do Concílio Vaticano II (1964). Esta proclamação não é uma novidade doutrinal mas a explicitação de uma realidade presente em Jo 19,26-27: «Eis a tua mãe», Jesus dá Maria como mãe ao discípulo amado e, por extensão, à Igreja que ele representa. A Igreja que os doze inauguram com o seu envio em Mt 10 tem em Maria a sua Mãe, não a fundadora institucional (esse papel é de Pedro e dos apóstolos), mas a Mãe que acompanha, intercede e sustenta.

IV. Maria e os doze no cenáculo: a Igreja nasce na oração

Depois da Ascensão, «os apóstolos regressaram a Jerusalém […] e entraram no Cenáculo […] Todos eles perseveravam unanimemente na oração, com algumas mulheres, com Maria, a mãe de Jesus, e com os seus irmãos» (At 1,12-14). Esta imagem dos doze, menos Judas e mais Matias que estava prestes a ser escolhido, reunidos com Maria em oração antes do Pentecostes é uma das imagens mais teologicamente densas do Novo Testamento para a relação entre Maria e o apostolado.

Maria no Cenáculo não está na posição de autoridade apostólica, não prega, não preside, não é a doze. Está na posição que corresponde à sua missão específica: a mãe que reúne os filhos, que ora com eles, que sustenta pelo silêncio intercessório o que os apóstolos sustentam pela palavra da pregação. A «unanimidade» da oração do Cenáculo, «homothumadón», com um só coração, inclui Maria como elemento de coesão: a presença materna que une os que poderiam dispersar-se pela diferença de temperamento e de percurso.

O Pentecostes que acontece depois desta oração unânime é o equivalente do «dedit illis potestatem» de Mt 10,1, mas ampliado: o Espírito Santo dado em Pentecostes não é apenas autoridade sobre os demónios e doenças. É a força da missão universal que vai de Jerusalém até aos confins da terra (At 1,8). Maria que estava no Cenáculo quando o Espírito desceu sobre os doze foi parte do acontecimento fundacional da missão universal, e continua, pela sua intercessão, a acompanhar a missão que aquele Pentecostes inaugurou.

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