Sicut oves in medio luporum: a perseguição prometida e Maria Rainha dos mártires

Sicut oves in medio luporum: a perseguição prometida e Maria Rainha dos mártires
Ecce ego mitto vos sicut oves in medio luporum. Estote ergo prudentes sicut serpentes et simplices sicut columbae.
Mt 10,16

A segunda secção do discurso missionário (Mt 10,16-23) é uma das passagens mais sombrias do Evangelho de Mateus: Jesus anuncia aos seus enviados que serão perseguidos, entregues a tribunais, açoitados nas sinagogas, odiados por todos por causa do Seu nome. Esta secção é habitualmente designada como o «discurso de perseguição» e distingue-se da secção anterior (Mt 10,7-15) por alargar o horizonte: já não fala apenas da missão imediata na Galileia mas de um futuro de perseguição que vai além do episódio da missão dos doze e que prefigura a experiência da Igreja de todas as épocas.

A transição de «ide às ovelhas perdidas de Israel» (Mt 10,6) para «sereis conduzidos perante os governadores e os reis por minha causa, para dar testemunho a eles e aos gentios» (Mt 10,18) é significativa: a missão que começa em Israel acabará diante dos governadores romanos e dos reis, diante dos Pilatos e dos Herodes da história da Igreja. A perseguição anunciada não é acidente da missão, é constitutiva dela: ser enviado por Jesus é ser enviado para onde Jesus foi, e Jesus foi ao tribunal de Pilatos.

I. «Prudentes como serpentes, simples como pombas»: a sabedoria na perseguição

«Sede prudentes como serpentes e simples como pombas» (Mt 10,16), o emparelhamento destes dois animais é um dos mais memoráveis da catequese de Jesus. A serpente, no contexto bíblico, evoca a astúcia, não a malícia, mas a capacidade de distinguir o perigo, de navegar situações complexas, de não entregar ingenuamente o que é precioso ao primeiro adversário. A pomba evoca a simplicidade do coração que não tem agenda oculta, que não manipula, que não usa o mal para fazer o bem.

A combinação de prudência e simplicidade é o modelo cristão da acção no mundo hostil: o missionário não é ingénuo (como a ovelha que não sabe que está no meio de lobos) nem é astuto com fins manipuladores (como a serpente que engana). É prudente, sabe ler a situação, conhece os perigos, não se expõe desnecessariamente, e simples, não usa meios ilegítimos, não recorre à mentira ou à manipulação, confia na verdade da mensagem mais do que na sua própria habilidade retórica.

A história dos mártires cristãos é, em grande parte, a história desta combinação: os que sobreviveram às perseguições sem abjurar foram frequentemente os que souberam ser prudentes (não se expor desnecessariamente, não provocar, distinguir o que é negociável do que não é) e simples (quando chegou o momento da escolha, escolheram a verdade sem cálculo). A prudência da serpente permitiu-lhes chegar ao momento da escolha. A simplicidade da pomba permitiu-lhes fazer a escolha certa quando chegou.

Maria na narrativa da Paixão exibiu esta combinação: não provocou o Sinédrio, não impediu publicamente o processo, não organizou resistência política, foi prudente como a serpente. Mas esteve ao pé da Cruz sem se esconder, sem negar o Filho, sem se dissociar publicamente do condenado, foi simples como a pomba. A «prudência» de Maria não a afastou do Calvário, e a «simplicidade» de Maria não a levou a gestos inúteis que teriam apenas precipitado a sua própria prisão sem benefício para o Filho.

II. «Sereis odiados por todos por causa do meu nome»: o ódio ao nome

«Sereis odiados por todos por causa do meu nome. Mas quem perseverar até ao fim, esse será salvo» (Mt 10,22), a promessa da perseguição é universal («por todos») e permanente (até ao fim). Não há época da história da Igreja em que a perseguição tenha cessado completamente: os mártires dos primeiros séculos romanos, os mártires das reformas, os mártires dos totalitarismos do século XX, os mártires das perseguições contemporâneas em zonas de conflito, a corrente de sangue dos que foram «odiados por causa do nome de Jesus» é ininterrupta desde o século I.

«Por causa do meu nome», a especificidade da perseguição cristã é que não é perseguição por razões políticas primárias (embora possa tomar forma política) mas por causa do nome de Jesus. Os que perseguem os cristãos não os perseguem principalmente por razões económicas ou étnicas, perseguem o que o nome de Jesus representa: a soberania de Deus sobre o poder humano, a liberdade da consciência que não se submete ao Estado, a identidade que transcende a identidade étnica e política. «Por causa do meu nome» é a confissão do perseguido de que há algo pelo qual vale a pena morrer.

«O Espírito do vosso Pai falará por vós» (Mt 10,20), no momento do julgamento, Jesus promete que não será o discípulo a falar mas o Espírito. Esta promessa é cumprida nos relatos dos processos dos mártires: os Actos dos Mártires de Cartago, os relatos do processo de Perpétua e Felicidade, os processos dos mártires do Japão do século XVII, todos descrevem uma eloquência que os próprios confessaram não ser sua. A promessa de Mt 10,20 é cumprida na história dos mártires de modo verificável.

Maria não foi mártir no sentido técnico, não derramou sangue por causa do nome de Jesus. Mas foi mártir no sentido original da palavra: «mártir» significa «testemunha». Maria foi a testemunha mais íntima de quem Jesus era e do que aconteceu no Calvário. A sua presença ao pé da Cruz, quando os «lobos» da perseguição tinham dispersado a maioria dos discípulos, é o supremo acto de testemunho: estar ali, não fugir, não negar. A Rainha dos Mártires não é mártir de sangue mas de presença, a que ficou quando os outros fugiram.

III. Maria Rainha dos mártires: a espada que atravessou a alma

Simeão profetizou a Maria: «Uma espada atravessará a tua alma» (Lc 2,35). Esta «espada» é a forma específica do martírio de Maria: não de sangue, mas de dor compassiva, a dor de ver o Filho ser perseguido, condenado, crucificado. O «sicut oves in medio luporum» de Jesus (Mt 10,16) descreve a situação dos discípulos enviados. Mas antes de todos os discípulos, foi o próprio Jesus que foi «ovelha no meio de lobos», e Maria que esteve ao lado da ovelha quando os lobos a despedaçaram.

A tradição da «Stabat Mater», o hino medieval que descreve Maria «de pé junto à Cruz, a Mãe, em lágrimas», captura a dimensão martirial da presença de Maria no Calvário. A «estabilidade» de Maria no Calvário, «stabat», estava de pé, é o contraponto da fuga dos discípulos: os que tinham prometido não abandonar (Pedro: «Morrerei contigo») fugiram. A que não tinha feito promessas heróicas ficou. Maria «de pé» junto à Cruz é a figura do mártir que permanece no testemunho quando o custo se torna máximo.

A intercessão de Maria pelos mártires e perseguidos tem uma longa história na devoção cristã. As comunidades cristãs que sofreram perseguição, no Japão do período Edo, na China imperial, no México da Cristiada, na União Soviética, desenvolveram invariavelmente uma forte devoção mariana como forma de sustentação espiritual na perseguição. A «prudência da serpente» e a «simplicidade da pomba» de Jesus eram pedidas à intercessora que havia estado ao pé da Cruz, que sabia, por experiência, o que era permanecer quando o custo era máximo.

IV. «Quem perseverar até ao fim será salvo»: a esperança que sustenta

«Quem perseverar até ao fim, esse será salvo» (Mt 10,22), a promessa que encerra esta secção sobre a perseguição é uma promessa de salvação escatológica: não a sobrevivência física, não a vitória histórica, mas a salvação final do que perseverar. A perseverança, «hupoménōn» em grego, literalmente «ficar debaixo do peso», é a virtude do mártir: não resistência heróica que não sente o peso, mas fidelidade que suporta o peso sem sucumbir.

«Não fujas desta cidade para aquela» (Mt 10,23), a instrução de fugir da perseguição quando possível (não exigir o martírio desnecessariamente) é parte da mesma «prudência da serpente»: o mártir não é quem procura a morte mas quem, quando a morte chega, não a esquiva pela apostasia. A fuga é lícita e até recomendável. A apostasia não o é. Esta distinção, clara na doutrina do martírio desde os Padres, rejeita tanto o fanatismo martirial (procurar a morte) como a cobardia apostásica (negar a fé para sobreviver).

Maria representa a «perseverança até ao fim» que Jesus promete recompensar. Do «fiat» da Anunciação ao «stabat» do Calvário ao «orabat» do Cenáculo, Maria perseverou em todas as estações do caminho do Filho: na alegria de Belém, na obscuridade de Nazaré, na glória da Galileia, no escândalo do processo, na agonia do Calvário, na incerteza do Sábado Santo, na alegria da Ressurreição, na espera de Pentecostes. A «perseverança até ao fim» de Maria abrange toda a vida, é o modelo da fidelidade que não é apenas resistência num momento de crise mas adesão constante ao longo de toda a existência.

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