Vae tibi corozain: o lamento sobre as cidades e Maria causa nostrae laetitiae

Vae tibi corozain: o lamento sobre as cidades e Maria causa nostrae laetitiae
Vae tibi, Corozain! Vae tibi, Bethsaida! Quia si in Tyro et Sidone factae fuissent virtutes quae factae sunt in vobis, olim in cilicio et cinere paenitentiam egissent.
Mt 11,21

Mt 11,20-24 é uma das passagens mais sombrias do Evangelho de Mateus: Jesus «começou a reprovar as cidades onde havia sido feito o maior número dos Seus milagres por não terem feito penitência» (Mt 11,20). Este «ai», o «ouaí» grego, equivalente ao hebraico «hoy», o lamento profético clássico, é o lamento de Jesus sobre a recusa: os milagres foram feitos, o Reino foi anunciado, e as cidades não se converteram. A tristeza de Jesus sobre a recusa do dom é uma das expressões mais explícitas da vulnerabilidade divina nos evangelhos: Deus oferece, e a oferta pode ser recusada.

Corozain, Betsaida e Cafarnaum foram as cidades da Galileia onde Jesus realizou a maior parte dos Seus milagres públicos. Eram cidades que tinham «visto», que tinham sido testemunhas oculares das obras de poder de Jesus, e não se converteram. O argumento «a contrario» de Jesus é devastador: se os milagres que foram feitos em vós tivessem sido feitos em Tiro e Sídon (cidades fenícias pagãs), elas teriam feito penitência. A recusa das cidades israelitas é mais grave do que a recusa das cidades pagãs, porque as cidades israelitas tinham mais luz e recusaram mais luz.

I. «Se os milagres feitos em vós tivessem sido feitos em tiro»: a lógica da responsabilidade

«Se os milagres feitos em vós tivessem sido feitos em Tiro e Sídon, elas teriam feito penitência» (Mt 11,21), o argumento contrafactual de Jesus estabelece o princípio da responsabilidade proporcional ao dom recebido. A culpa de Corozain e Betsaida não é a culpa de ter feito algo terrível, é a culpa de não ter correspondido ao que recebeu. A «não conversão» perante os milagres é em si mesma um acto de recusa: ver os sinais do Reino e não mudar de vida é uma escolha, não uma passividade neutra.

A lógica da responsabilidade proporcional ao dom é consistente com a teologia de Mateus: «A quem mais foi dado mais será exigido» (Lc 12,48, paralelo). As cidades que receberam a presença pessoal de Jesus, os milagres, a pregação directa, têm uma responsabilidade maior do que as que não tiveram esse acesso. O «ai» de Jesus sobre as cidades galileias não é crueldade mas honestidade: a gravidade da recusa é proporcional à grandeza do dom recusado.

A aplicação desta lógica à história da Igreja é desconfortável mas necessária: as culturas que tiveram séculos de evangelização profunda, as famílias que cresceram com a fé, os indivíduos que receberam educação religiosa sólida, todos têm uma responsabilidade maior do que os que nunca tiveram acesso ao Evangelho. O «vae» de Jesus sobre as cidades galileias é também um aviso para as culturas cristãs que se secularizaram: «olim in cilicio et cinere paenitentiam egissent», as cidades pagãs teriam feito penitência se tivessem recebido o que vós recebestes.

Maria nasceu e viveu em Nazaré, uma das cidades da Galileia do tempo de Jesus, próxima de Corozain e Betsaida. A mesma região geográfica que foi palco das recusas foi também o lugar de criação da mulher que disse o «fiat» mais radical da história sagrada. O contraste geográfico é também um contraste espiritual: na mesma região onde as cidades recusaram, uma mulher acolheu, com tudo o que tinha e era.

II. «Cafarnaum, serás lançada até ao hades»: a queda da soberba

«E tu, Cafarnaum, acaso serás elevada até ao céu? Até ao hades serás lançada» (Mt 11,23), Cafarnaum era a «cidade de Jesus» durante o ministério galileu: o lugar onde habitou, onde realizou numerosos milagres, onde pregou na sinagoga. A queda de Cafarnaum é a queda da cidade mais privilegiada, a que tinha a maior proximidade com Jesus e recusou com maior obstinação. A alusão a Is 14,13-15 (o lamento sobre o rei da Babilónia que queria «elevar-se até ao céu» e foi «lançado ao sheol») é intencional: a soberba da cidade que se pensa especial por ter tido Jesus no meio dela é o caminho da ruína.

«Porque se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres que foram feitos em ti, ela subsistiria até hoje» (Mt 11,23), o argumento counterfactual atinge o clímax: Sodoma, o símbolo bíblico da corrupção total que mereceu a destruição por fogo e enxofre (Gn 19), teria sobrevivido se tivesse recebido o que Cafarnaum recebeu e rejeitou. A comparação é deliberadamente hiperbólica mas o ponto é claro: a recusa da luz que se recebeu é mais grave do que a corrupção de quem nunca recebeu essa luz.

O lamento de Jesus sobre Cafarnaum é uma das expressões mais nítidas da «tristeza de Deus» nos evangelhos. Deus não é indiferente à recusa humana, o «vae» de Jesus é a expressão da dor do amor não correspondido. Esta dimensão da «tristeza de Deus» perante a recusa humana é um dos fundamentos teológicos da devoção ao Sagrado Coração: o coração de Jesus que sofre pela indiferença humana é o mesmo coração que lamenta Corozain e Betsaida e Cafarnaum.

III. Maria «Causa nostrae laetitiae»: o contraste com a cidade que recusou

«Causa nostrae laetitiae», «causa da nossa alegria», é uma das invocações mais amadas das Ladainhas Lauretanas. Maria é chamada «causa da nossa alegria» porque foi, pela sua resposta ao anjo, a causa da Encarnação que é a fonte de toda a alegria cristã. O «sim» de Maria foi a resposta que as cidades galileias recusaram dar: o acolhimento do dom de Deus que transforma a tristeza do «vae» em alegria.

O contraste entre o «vae tibi Corozain» de Mt 11,21 e o «ave gratia plena» de Lc 1,28 é o contraste entre a recusa e o acolhimento, entre a cidade que não correspondeu e a mulher que correspondeu com todo o ser. O anjo não disse «vae tibi Maria», disse «Ave» (χαῖρε, «alegra-te»). A saudação do anjo é o antídoto do «vae» profético: onde a recusa merece lamento, o acolhimento merece alegria. Maria é «causa da nossa alegria» precisamente porque não recusou, porque disse «fiat» onde as cidades disseram «não».

A devoção mariana como «alegria» tem raízes neste contraste: contemplar Maria é contemplar a possibilidade do «sim» humano ao dom divino, a prova de que a recusa não é inevitável, de que a graça pode ser acolhida, de que a «vae» das cidades galileias não é a última palavra sobre a capacidade humana de responder a Deus. Maria é a «causa da nossa alegria» porque a sua resposta demonstra que o «fiat» é possível, que o coração humano pode dizer «sim» a Deus sem reserva.

IV. O lamento de Jesus como oração: «Confesso-te, pai»

Imediatamente após o lamento sobre as cidades (Mt 11,20-24), Mateus coloca uma das mais belas orações de Jesus: «Confesso-te, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos» (Mt 11,25). A transição do «vae» para o «confiteor» é surpreendente: Jesus passa do lamento sobre a recusa para a acção de graças pela revelação aos «pequeninos».

O «confiteor» de Jesus revela a lógica paradoxal do Reino: os que «não viram» (os «pequeninos», os simples, os que não têm pretensões de sabedoria) compreenderam o que os «sábios e entendidos» das cidades privilegiadas recusaram. A recusa das cidades não é a última palavra, há «pequeninos» que acolheram o que as cidades recusaram. Maria é o modelo dos «pequeninos» que acolhem: jovem desconhecida de uma cidade obscura (Nazaré, sobre a qual Natanael perguntou «pode sair algo de bom de Nazaré»?), sem pretensões de sabedoria ou poder, diz o «fiat» que as cidades grandes recusaram.

O «fiat» de Maria e o «confiteor» de Jesus têm a mesma estrutura de acção de graças pela revelação feita aos pequenos: onde as cidades orgulhosas recusam, os humildes acolhem. Onde os sábios de si mesmos rejeitam, os simples recebem. A liturgia da Igreja, ao colocar o «confiteor» de Mt 11,25 no Ofício da Sexta-Feira e ao associar a memória mariana ao Sábado, revela a coerência teológica da devoção: Maria a «pequenina» que acolheu é a antítese das cidades que recusaram, e a sua alegria é a alegria de quem recebeu o que os outros recusaram.

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