Abscondisti haec a sapientibus: o mistério revelado aos pequeninos e Maria sede sapientiae

Confiteor tibi, Pater, Domine caeli et terrae, quia abscondisti haec a sapientibus et prudentibus et revelasti ea parvulis.
Mt 11,25
Mt 11,25-27 contém uma das mais densas afirmações cristológicas do Evangelho de Mateus, «Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai, nem ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar» (Mt 11,27), emoldurada numa oração de louvor ao Pai pela lógica paradoxal do Reino: o que foi ocultado aos sábios foi revelado aos «pequeninos» (νήπιοι, «infantes», os que não têm capacidades críticas desenvolvidas). Esta oração de Jesus é designada pela exegese como o «hino jubiloso», um dos raros momentos em que Mateus apresenta Jesus em oração explícita de louvor.
O contexto imediato é o lamento sobre as cidades galileias (Mt 11,20-24): Jesus acabou de reprovar as cidades que não se converteram apesar dos milagres. A transição para o louvor, «naquele momento, Jesus tomou a palavra e disse: Confesso-te, Pai» (Mt 11,25), é significativa: Jesus passa do lamento sobre a recusa dos «sábios» para o louvor pela revelação aos «pequeninos». A recusa das cidades privilegiadas não é a última palavra. Há «pequeninos» que receberam o que as cidades recusaram, e Deus merece louvor por isso.
I. «Ocultaste aos sábios»: o paradoxo da revelação
«Ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e revelaste-as aos pequeninos» (Mt 11,25), o paradoxo não é que Deus deliberadamente escondeu a verdade dos sábios para os punir. É que a lógica da sabedoria humana é, em si mesma, um obstáculo à recepção da revelação divina. Os «sábios e entendidos» das cidades galileias, os escribas, os fariseus, os doutores da Lei, tinham todo o aparato intelectual para «compreender» o Messias, e precisamente por isso foram incapazes de o receber quando chegou de forma inesperada.
A «sabedoria» que se torna obstáculo não é a sabedoria genuína mas a sabedoria que se basta a si mesma, a que não está disponível para ser surpreendida, que já sabe o que esperar e recusa o que não se encaixa nas expectativas. Os «pequeninos», os νήπιοι, os que não têm pressupostos elaborados sobre como deve ser a revelação de Deus, estão disponíveis para receber o que vem de forma inesperada. A disponibilidade para ser surpreendido é a condição de possibilidade da fé.
Esta lógica atravessa a história da revelação: os profetas foram rejeitados pelos sábios do seu tempo e recebidos pelos simples. Jesus foi recusado pelos doutores da Lei e acolhido pelos pescadores e publicanos. A mensagem pascal foi primeiro recebida pelas mulheres (Mt 28,1-10), consideradas testemunhas inválidas no direito judaico, antes de ser recebida pelos apóstolos. A «lógica dos pequeninos» é uma constante da história da salvação: Deus revela-se aos que estão disponíveis para ser surpreendidos.
A contemplação deste paradoxo é parte da espiritualidade mariana: Maria, jovem de Nazaré sem prestígio social ou reputação intelectual, foi escolhida para ser Mãe do Filho de Deus precisamente porque era «pequenina» no sentido evangélico, disponível, sem agenda, capaz de dizer «fiat» sem compreender plenamente o que o «fiat» implicava. «Porque Ele atentou para a humildade da sua serva» (Lc 1,48), o «olhar» de Deus para a «humildade» de Maria é o mesmo «esconder dos sábios e revelar aos pequeninos» de Mt 11,25.
II. «Tudo me foi entregue pelo meu pai»: a intimidade do Filho
«Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai, nem o Pai senão o Filho» (Mt 11,27), esta afirmação de mútuo conhecimento exclusivo entre Pai e Filho é, nos evangelhos sinópticos, a afirmação mais próxima do vocabulário joânico sobre a relação Pai-Filho (cf. Jo 10,15: «como o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai»). A cristologia implícita desta afirmação é elevada: Jesus reivindica um conhecimento do Pai que é análogo ao conhecimento que o Pai tem d’Ele, um conhecimento que vai além do profético e que só pode ser o conhecimento da relação filial eterna.
«Ninguém conhece o Filho senão o Pai», a impenetrabilidade do Filho é o fundamento teológico da mariologia: Maria é «Mãe do Filho de Deus» mas não «conhece» o Filho no sentido absoluto de Mt 11,27. O «conhecimento» que Maria tem de Jesus é o conhecimento materno, íntimo, real, experiencial, mas diferente do conhecimento do Pai. A mariologia respeita esta distinção: Maria é a criatura mais próxima do Filho mas não é divina. O seu conhecimento de Jesus é o conhecimento da fé, não o conhecimento da consubstancialidade.
«E aquele a quem o Filho o quiser revelar», a revelação do Pai não é automática nem merecida. É dom do Filho que escolhe revelar. Maria foi a primeira destinatária desta revelação no sentido pleno: não apenas recebeu a mensagem do anjo mas foi constituída «Mãe do Filho», a relação mais íntima possível com o Revelador. A «revelação» que Mt 11,27 anuncia como dom do Filho aos «pequeninos» tem em Maria a sua realização mais perfeita: ela que recebeu o Revelador em si mesma conheceu o Pai através do Filho que carregou.
III. Maria sede sapientiae: a sabedoria que não se basta a si mesma
«Sede da Sabedoria», «Sedes Sapientiae», é uma das invocações mais antigas das Ladainhas Lauretanas, documentada já no século XII. Maria é chamada «Sede da Sabedoria» porque foi o trono humano onde a Sabedoria de Deus (o Logos, a Sabedoria personificada de Pr 8) assumiu a carne. A «sede», o trono, é o lugar onde o rei se senta para exercer autoridade. Maria como «Sede» é o lugar onde a Sabedoria divina se fez presente no mundo de forma definitiva.
O paradoxo teológico de Maria como «Sede Sapientiae» é que ela acolheu a Sabedoria precisamente porque era «pequenina» no sentido de Mt 11,25, porque não tinha a sabedoria que basta a si mesma, porque estava disponível para ser surpreendida, porque o seu «fiat» não foi precedido por uma análise exaustiva das implicações. Os sábios de Israel, com todo o seu conhecimento da Escritura e da tradição, não reconheceram o Messias quando chegou. Maria, sem esse aparato de saber, reconheceu-O e acolheu-O. A «Sede da Sabedoria» é paradoxalmente a «pequenina» que recebeu o que os sábios recusaram.
A devoção a Maria «Sede da Sabedoria» tem uma história rica nas universidades medievais, Nôtre-Dame de Paris, Oxford, Bolonha, as universidades que escolheram Maria como patrona do estudo, precisamente porque os escolásticos medievais compreenderam o paradoxo: a sabedoria académica é legítima e necessária, mas deve ser ordenada pela sabedoria da fé que Maria representa. Estudar «sub patrocinio Mariae» é reconhecer que a sabedoria humana está ao serviço da verdade divina, que a «Sede da Sabedoria» guarda o estudante do erro de confundir o aparato intelectual com o conhecimento da verdade.
IV. «Vinde a mim»: o convite que encerra o paradoxo
Mt 11,25-27 é imediatamente seguido pelo convite de Jesus: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei» (Mt 11,28). A sequência revela a lógica do texto: o louvor ao Pai pela revelação aos «pequeninos» termina com o convite universal, a revelação que foi dada aos pequeninos está disponível para todos os que se aproximam como pequeninos, com o cansaço de quem não tem respostas próprias, com a humildade de quem precisa de ser aliviado.
«Aprendei de Mim, porque Eu sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29), Jesus descreve-se com os mesmos atributos que caracterizam os «pequeninos» que receberam a revelação: mansidão e humildade de coração. A lição que Jesus oferece não é uma lição académica, é uma lição de disposição interior: a mansidão e a humildade que tornam o coração receptivo à revelação divina. Aprender de Jesus é aprender a ser «pequenino» no sentido evangélico.
Maria é o modelo desta aprendizagem: «Ei-la a serva do Senhor» (Lc 1,38), a disposição de serva é a disposição do «pequenino» que recebe o que os sábios recusam. A mariologia medieval insistia na «humilitas Mariae», a humildade de Maria como a virtude que a tornou apta a receber o Verbo, precisamente como desenvolvimento do paradoxo de Mt 11,25: foi porque Maria era humilde (pequenina) que a Sabedoria a escolheu como Sede. A «Sedes Sapientiae» é a «ancilla Domini», a serva que recebeu o que os senhores recusaram.
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