Dominus est enim sabbati: o Senhor do sábado, e Maria que guardou o sábado Santo.

Dominus est enim sabbati: o Senhor do sábado, e Maria que guardou o sábado Santo.
Misericordiam volo et non sacrificium. Si autem scissetis quid est: Misericordiam volo et non sacrificium, numquam condemnassetis innocentes. Dominus est enim Sabbati Filius hominis.
Mt 12,7-8

Mt 12,1-8 narra a primeira das controvérsias sabáticas do Evangelho de Mateus: os discípulos de Jesus colhem espigas ao passar pelos campos em Sábado, e os fariseus acusam-nos de violar o preceito do descanso sabático. A resposta de Jesus é tripla: um argumento bíblico (Davi e os pães da proposição), um argumento cultual (os sacerdotes que trabalham no Templo em Sábado), e uma afirmação cristológica central, «O Filho do Homem é Senhor do Sábado» (Mt 12,8). Esta afirmação é uma das mais significativas do ministério público de Jesus: não apenas reinterpreta o Sábado mas reivindica autoridade sobre a lei sabática, a autoridade de quem instituiu o Sábado.

A citação de Os 6,6, «Misericórdia quero, e não sacrifício» (Mt 12,7, citada também em Mt 9,13), é a chave hermenêutica que Jesus oferece para a compreensão correcta do Sábado: a lei sabática está ao serviço da misericórdia, não ao contrário. Os fariseus, ao «condenar os inocentes» (os discípulos com fome que colheram espigas), inverteram a hierarquia: puseram a observância ritual acima da necessidade humana. Jesus restaura a hierarquia correcta: a misericórdia tem precedência sobre o sacrifício, e quem não compreende isto «não compreendeu» (Mt 12,7) o sentido da própria Torah que cita.

I. «Não lestes o que fez davi»: os argumentos de Jesus

«Não lestes o que fez Davi quando teve fome, ele e os seus companheiros»? (Mt 12,3). O primeiro argumento de Jesus é o precedente de Davi (1Sm 21,1-6): o rei ungido por Deus comeu os «pães da proposição» (reservados exclusivamente aos sacerdotes, Lv 24,5-9) porque tinha fome. A necessidade de Davi justificou a violação da lei ritual. Da mesma forma, a necessidade dos discípulos justifica a colheita de espigas em Sábado. A lógica não é que as leis rituais não têm valor, mas que não são absolutas quando entram em conflito com a necessidade humana genuína.

«Não lestes na Lei que em Sábado os sacerdotes no Templo violam o Sábado e são inocentes»? (Mt 12,5). O segundo argumento é ainda mais directo: a própria Lei mosaica exige trabalho sacerdotal no Sábado (os sacrifícios diários do Templo não cessam no Sábado, cf. Nm 28,9-10). Os sacerdotes «violam» o Sábado porque há algo maior que o Sábado, o serviço do Templo. Jesus conclui: «Digo-vos que aqui há algo maior que o Templo» (Mt 12,6). Se o serviço do Templo justifica o trabalho sabático dos sacerdotes, quanto mais o serviço d’Aquele que é maior que o Templo justifica o que os discípulos fazem.

«Não condenarias os inocentes se compreendesses: Misericórdia quero, e não sacrifício» (Mt 12,7). A citação de Oseias é o ponto central: Os 6,6 coloca a «misericórdia» (hesed, amor fiel, lealdade) acima do «sacrifício» (culto ritual). Esta hierarquia não rejeita o culto mas ordena-o: o culto está ao serviço do amor fiel, não o amor fiel ao serviço do culto. Os fariseus inverteram a hierarquia, tornaram o culto (a observância do Sábado) um obstáculo ao amor fiel (cuidar dos que têm fome).

II. «O Filho do homem é Senhor do sábado»: a afirmação cristológica

«O Filho do Homem é Senhor do Sábado» (Mt 12,8). Esta afirmação é a mais directa reivindicação de autoridade de Jesus sobre a Torah nos Evangelhos sinópticos. «Senhor do Sábado» implica não apenas autoridade interpretativa (como um rabino que dá a sua exegese da lei sabática) mas autoridade constituinte, a autoridade de quem estabeleceu o Sábado. No contexto da teologia de Mateus, a afirmação é equivalente à do Sermão da Montanha: «Eu vos digo» (Mt 5,22.28.32.34.39.44). Jesus não cita autoridades mas fala com autoridade própria.

O Sábado foi estabelecido por Deus no sétimo dia da criação (Gn 2,2-3) como sinal da aliança (Ex 31,13-17). O «Senhor do Sábado» é, neste sentido, o Senhor da criação e o Senhor da aliança. A reivindicação de Jesus é cristológica no sentido mais profundo: Ele é o Criador que estabeleceu o Sábado e que, portanto, tem autoridade para interpretá-lo autenticamente, para revelar o que o Sábado sempre quis dizer mas que a tradição interpretativa tinha obscurecido.

A teologia cristã associou o Sábado ao «repouso escatológico», o «sábado eterno» que os autores do Novo Testamento (especialmente a Carta aos Hebreus) anunciam como meta da peregrinação cristã. Jesus, como «Senhor do Sábado», é Senhor do repouso escatológico, Aquele que pode dar o «descanso» prometido em Mt 11,28-29 porque é o Criador que estabeleceu o repouso sabático como antecipação do repouso eterno.

III. Maria e o sábado Santo: a fé que espera

Existe um Sábado especial na história da salvação, o Sábado entre a morte e a ressurreição de Jesus: o grande Sábado Santo, o dia em que o corpo de Jesus repousava no sepulcro e os discípulos estavam dispersos no medo e no luto. A tradição teológica (desenvolvida sobretudo por Hans Urs von Balthasar e Louis Bouyer) reflectiu sobre este Sábado como o «sábado da fé», o momento em que Deus parece ausente, o momento em que a fé não tem confirmação visível, o momento em que o discípulo é chamado a esperar sem ver.

A tradição unânime dos Evangelhos apresenta Maria no Calvário (Jo 19,25) mas não nas aparições do Ressuscitado, não porque Maria não tenha visto o Ressuscitado, mas porque os Evangelhos apresentam a revelação pascal como surpresa para todos os discípulos, incluindo os que estavam mais próximos. No Sábado Santo, entre a morte e a ressurreição, Maria guardou a fé que os outros tinham perdido. É a convicção da devoção mariana que vê no «Sábado de Nossa Senhora» (o Sábado litúrgico como dia mariano) a memória deste Sábado Santo em que Maria permaneceu fiel.

A «fidelidade de Maria no Sábado Santo» tem uma dimensão mariológica específica: Maria, que recebeu o «fiat» no início da vida do Filho, permaneceu fiel até ao fim, incluindo no momento em que o Filho estava morto e sepultado. O «Senhor do Sábado» repousava no sepulcro. Maria guardava o Sábado da fé, esperando, sem ver, o que o Senhor do Sábado havia prometido. A espiritualidade do Sábado como «espera fiel» tem em Maria o seu modelo perfeito.

IV. A misericórdia que não sacrifica: o ensinamento para a vida eclesial

«Misericórdia quero, e não sacrifício». A citação de Os 6,6 que Jesus usa para reinterpretar o Sábado é também o princípio hermenêutico para toda a vida litúrgica e eclesial. O culto, o «sacrifício», está ao serviço da «misericórdia», não ao contrário. A comunidade cristã que privilegia a observância ritual sobre a atenção às necessidades concretas dos seus membros repete o erro dos fariseus de Mt 12: «condena os inocentes» ao colocar a lei acima do amor.

A reflexão sobre este princípio tem implicações práticas para a vida paroquial e comunitária: as estruturas litúrgicas, os horários, as tradições, as práticas piedosas, tudo deve ser avaliado à luz de «misericórdia quero, e não sacrifício». Não para abolir as estruturas (Jesus não aboliu o Sábado) mas para as manter ordenadas ao seu fim: o serviço da misericórdia, a construção da comunidade do amor, a disponibilidade para os que têm necessidade.

Maria incorporou este princípio na Visitação: levantou-se «com pressa» (Lc 1,39) para ir ao encontro de Isabel, sem hesitar por causa das conveniências sociais ou das suas próprias necessidades. A misericórdia teve precedência sobre o «sacrifício» da comodidade. E no Calvário, permaneceu de pé sob a Cruz. A «misericórdia» que fica perto do sofrimento do Filho prevaleceu sobre o «sacrifício» de fugir para se proteger da dor. Maria que «quer misericórdia» viveu o princípio de Os 6,6 antes de Jesus o enunciar, e por isso é modelo da interpretação autêntica do mandamento do amor que está no coração da Torah.

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