«Scio te quis sis»: Cafarnaum, o saber do demônio e o pensamento de Cristo

«Abluti estis, sanctificati estis»: a identidade baptismal e a noite de oração

Scio te quis sis: Sanctus Dei. […] Nos autem sensum Christi habemus.
Lc 4,34 e 1Cor 2,16

A terça-feira da Semana XXII do Tempo Comum coloca frente a frente dois modos de conhecer Jesus. Em Cafarnaum, um espírito impuro grita na sinagoga a identidade exata do que tem diante de si, «eu sei quem Tu és: o Santo de Deus» (v.34), e é mandado calar. Em Corinto, Paulo escreve que só o Espírito de Deus conhece o que há em Deus, e conclui com uma afirmação de uma ousadia enorme, «nós temos o pensamento de Cristo» (v.16). Um conhecimento é exato e estéril. O outro é dado e salva. A diferença entre os dois é o tema do dia.

I. A primeira leitura: 1Cor 2,10b-16

Paulo estabelece aqui um princípio epistemológico que a teologia nunca mais abandonou. Usa uma analogia doméstica: assim como ninguém conhece a interioridade de um homem senão o espírito que nele habita, «ninguém conhece o que há em Deus, senão o Espírito de Deus» (v.11). O conhecimento de Deus não é uma conquista do esforço intelectual, é uma comunicação interna. Deus só se dá a conhecer a partir de dentro de si mesmo.

Daí a distinção entre o homem natural e o homem espiritual (v.14-15), que não separa cultos de incultos nem inteligentes de simples. O «homem natural» é aquele que aborda as realidades de Deus com os instrumentos que serviriam para qualquer outro objeto, e por isso conclui que são loucura. Não é culpa da inteligência dele. É desproporção entre o instrumento e a matéria. Só que Paulo não termina numa constatação de impossibilidade. Termina num dom recebido: aqueles a quem o Espírito foi dado partilham o modo de ver do próprio Cristo.

II. O evangelho: Lc 4,31-37

A primeira aparição pública do demônio em Lucas é uma cena teologicamente vertiginosa. O espírito impuro faz a confissão cristológica mais precisa que qualquer personagem tinha feito até ali. Reconhece a origem, «Jesus de Nazaré», reconhece a missão, «vieste para nos destruir?», e reconhece a identidade, «o Santo de Deus» (v.34). Nenhum discípulo chegara tão longe.

E Jesus manda-o calar. A ordem, «cala-te e sai desse homem» (v.35), não protege um segredo. Revela que a informação correta sobre Cristo, dita a partir da recusa, não é confissão de fé mas ato de hostilidade. O demônio não adere ao que sabe. Usa o saber como arma, tentando estabelecer uma relação de igualdade com quem o enfrenta. É a demonstração perfeita do que a tradição sempre afirmou, que a fé não consiste em ter a proposição certa na cabeça, mas em entregar-se àquele que a proposição designa. Tiago dirá o mesmo de modo lapidar: também os demônios creem, e tremem (Tg 2,19).

III. Saber sem aderir

Postas lado a lado, as duas leituras traçam a fronteira exata. O homem natural de Paulo não entende e por isso julga loucura. O espírito impuro de Lucas entende perfeitamente e por isso grita. Entre os dois há um abismo de informação e nenhuma diferença quanto ao essencial, porque nenhum dos dois se entrega.

Isto tem consequências práticas duras para quem estuda teologia. O domínio da matéria não produz fé, e a fé não dispensa o domínio da matéria. São ordens distintas que não se substituem. A vantagem do teólogo sobre o fiel simples é real no plano do conhecimento e nula no plano da adesão, e esquecer isso é o modo mais discreto de perder a fé sem dar por ela. Paulo não opõe o Espírito à inteligência. Opõe a inteligência que se fecha à inteligência que se deixa habitar.

IV. Maria: a criatura que teve o pensamento de Cristo

Se «ter o pensamento de Cristo» é o cume que Paulo descreve, então a mariologia tem aqui o seu lugar próprio. Maria é a criatura em quem essa expressão se realizou do modo mais literal que a história conheceu. Nela, o Espírito Santo não se limitou a comunicar um modo de ver. O anjo anuncia-lhe que o Espírito Santo virá sobre ela e a força do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra (Lc 1,35), e o resultado desse vir não é uma iluminação, é uma presença corporal.

A resposta dela, «faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38), é o oposto exato do grito de Cafarnaum. O demônio sabe tudo e não cede nada. Maria sabe pouco, pergunta «como será isso?» (Lc 1,34), e entrega tudo. A fé não é medida pela quantidade de informação disponível, é medida pela disponibilidade a partir da informação recebida. Por isso Isabel a proclama feliz por ter acreditado (Lc 1,45), e não por ter compreendido.

Há ainda o modo como Lucas descreve a maturação desse conhecimento. Duas vezes anota que ela guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração (Lc 2,19.51), o que descreve um conhecimento que cresce por dentro, ao ritmo de uma vida, e não por acumulação de dados. O Concílio chama-lhe peregrinação da fé (LG 58), e é a expressão certa. Maria não teve informação antecipada. Teve o Espírito, e com ele a capacidade de ler os acontecimentos à medida que iam acontecendo.

A terça-feira da Semana XXII propõe assim uma pergunta que atinge sobretudo quem já sabe muito. Não é «o que sabes sobre Cristo?». É «o que fizeste com aquilo que sabes?». O demônio respondeu à primeira com exatidão e à segunda com um grito. Maria respondeu à primeira com uma dúvida honesta e à segunda com a vida inteira.

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