Um só corpo e a hora que não espera

Unus Dominus, una fides, unum baptisma.
Ef 4,5
A liturgia da feria da vigésima nona semana do Tempo Comum coloca diante de nós dois textos que, à primeira vista, pouco têm em comum. O apóstolo, prisioneiro, escreve aos Efésios a súplica da unidade. O Mestre, no meio das multidões, denuncia a cegueira dos que sabem ler o céu e não sabem ler a hora. A carta convida ao vínculo da paz. O evangelho acusa a hipocrisia do adiamento. Entre a exortação de Ef 4,1-6 e a advertência de Lc 12,54-59 corre, porém, um fio único. Trata-se do mesmo mistério, a saber, o tempo da Igreja como tempo do discernimento, onde a unidade não é repouso mas vigília, e a paz não é ausência de urgência mas a forma madura da conversão.
I. Um só corpo, um só Espírito
A exortação paulina não começa na doutrina, começa na súplica. Obsecro itaque vos ego vinctus in Domino, “eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto” (Ef 4,1). O apóstolo não invoca a autoridade do apóstolo mas a autoridade das cadeias. Aquele que está preso pela causa do evangelho pede que os livres caminhem dignos da vocação recebida, e essa dignidade traduz-se de imediato em três disposições, a humildade, a mansidão, a paciência que suporta no amor. A unidade cristã não desce como decreto, ela sobe como fruto de uma têmpera moral. A unidade do Espírito guarda-se, não se fabrica. O verbo é exato, solliciti servare unitatem Spiritus in vinculo pacis, “aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4,3). Guardar supõe que a coisa já existe, dada e anterior, e que a tarefa do fiel é custódia, não construção.
Segue-se então a mais densa profissão de unidade do epistolário paulino, escandida em sete unidades que sobem do corpo eclesial ao próprio Deus. Um só corpo e um só Espírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai. Unus Deus et Pater omnium, qui est super omnes, et per omnia, et in omnibus nobis, “um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos” (Ef 4,6). A tríade das preposições, super, per, in, não é retórica. Ela descreve a transcendência que domina, a mediação que atravessa, a imanência que habita. Ireneu de Lyon lera este versículo como a refutação antecipada de toda dispersão gnóstica, pois o Pai que está sobre todos é o mesmo que age em todos, e não há dois deuses, um distante e um próximo. A unidade da Igreja repousa sobre a unidade de Deus. Onde se rompe a comunhão, não se fere primeiro a instituição, fere-se a confissão de que Deus é um.
II. Interpretar o tempo presente
O evangelho desloca-nos da assembleia orante para a praça das multidões, e o tom muda da súplica para a increpação. Jesus recorre à meteorologia popular da Galileia. A nuvem que sobe do ocidente, do lado do Mediterrâneo, anuncia chuva. O vento sul, vindo do deserto, anuncia calor. Faciem caeli et terrae nostis probare, “vós sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu” (Lc 12,56). O povo é perito nos sinais da natureza e analfabeto no único sinal que importa. Hoc autem tempus quomodo non probatis?, “como é que não sabeis interpretar o tempo presente?” (Lc 12,56). A palavra que o latim verte por tempus traduz o grego kairós, não o tempo que corre e se mede, mas a hora decisiva, a visitação que passa uma só vez. O pecado dos hipócritas não é a ignorância, é a distração diante do essencial.
A parábola do adversário sela a advertência com a lógica implacável do tribunal. Enquanto vais a caminho do magistrado com o teu acusador, resolve o caso antes de chegar, in via da operam liberari ab illo, “no caminho, procura livrar-te dele” (Lc 12,58). Depois será tarde. O juiz entregará ao guarda, o guarda lançará ao cárcere, e de lá não sairás donec etiam novissimum minutum reddas, “enquanto não pagares o último centavo” (Lc 12,59). O caminho é a vida presente, o tribunal é o juízo que se aproxima, o tempo do acordo é agora. A misericórdia oferece-se enquanto se está a caminho. A justiça cobra quando o caminho termina. Não há aqui ameaça arbitrária, há a estrutura mesma do kairós, que se abre e se fecha e não espera pelo distraído.
III. A unidade como leitura da hora
As duas leituras convergem quando percebemos que interpretar o tempo presente é, para a Igreja, guardar a unidade do Espírito. O tempo que Lucas nos manda ler é o tempo em que o Corpo de Cristo se edifica ou se dispersa. A hipocrisia denunciada no evangelho e a fragmentação temida na carta são o mesmo mal sob dois rostos. Quem não lê o kairós adia a conversão, e quem adia a conversão rompe o vínculo da paz, porque a divisão nasce sempre de uma humildade recusada e de uma paciência abandonada. A tríade paulina da humildade, mansidão e paciência é precisamente o instrumento de leitura do tempo. Só o coração manso decifra a hora de Deus. O soberbo lê a nuvem e o vento, mede a bonança e a tempestade, e permanece cego para a visitação que o interpela.
Agostinho, comentando a paz eclesial, chamava-lhe tranquillitas ordinis, “a tranquilidade da ordem”, e advertia que essa ordem não é imobilidade mas orientação de todas as coisas para o seu fim. É esta a síntese das leituras. A unidade não é sossego, é tensão orientada. O vínculo da paz de Ef 4,3 não dispensa a urgência de Lc 12,58, antes a fundamenta, pois é a paz de quem já resolveu com o adversário no caminho, é a concórdia dos que leram a hora e se converteram a tempo. A Igreja una é a Igreja que interpretou o presente e não deixou para o cárcere o que devia ser saldado na estrada.
IV. Maria, mulher da hora e do vínculo
As leituras não nomeiam a Virgem, e contudo ela é a chave que abre uma e outra. Maria é a criatura que soube ler o tempo presente como nenhuma outra. Quando o anjo lhe anunciou o kairós da encarnação, ela não permaneceu perita nos sinais e cega no essencial, respondeu fiat na própria hora, sem adiar para o dia seguinte a decisão que salva. Em Caná, foi ela quem discerniu a hora antes mesmo do Filho a declarar chegada, dizendo aos serventes quodcumque dixerit vobis, facite, “fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Onde os hipócritas do evangelho não sabem provar o tempo, a mãe do Senhor prova-o com a fé que não hesita.
E se a carta aos Efésios canta o vínculo da paz, é a mesma Virgem que o Concílio saudou como sinal e causa da unidade. A constituição Lumen gentium chamou-a tipo da Igreja, typus Ecclesiae, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo. Aquela em quem habitou de modo único o único Espírito é a figura acabada do único corpo. Onde Maria intercede, o Corpo de Cristo respira a sua unidade. Guardar a unidade do Espírito, para o fiel, é entrar na escola daquela que primeiro a guardou no seio e no coração. Assim a Virgem une as duas leituras num só gesto, ela que leu a hora com fé perfeita e a viveu no vínculo de uma paz que já era, em germe, a paz da Igreja inteira.
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