Nossa Senhora do Cabo: Notre-Dame-du-Cap (Canadá) e Cabo Espichel (Portugal)

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
J’aperçus très distinctement les yeux de la statue grandement ouverts, mais d’une manière naturelle.
«Vi muito distintamente os olhos da estátua bem abertos, mas de modo natural» (uma das testemunhas de 22 de junho de 1888, em Cap-de-la-Madeleine, segundo LAURENTIN, SBALCHIERO, 2007, p. 904)
Há duas Senhoras do Cabo. Uma é Notre-Dame-du-Cap, em Cap-de-la-Madeleine, no Quebec, o principal santuário mariano do Canadá (AMBROGI, LE TOURNEAU, 2015, verbete «Canada»). A outra é Nossa Senhora do Cabo, no Cabo Espichel, em Portugal. Têm histórias muito diferentes, e convém não confundi-las.
Notre-Dame-du-Cap, no Canadá
Cap-de-la-Madeleine fica a cerca de cinco quilômetros de Trois-Rivières, na margem do rio São Lourenço (MORIN, 1988). A paróquia tinha uma confraria do Rosário desde 1694, e a velha capela datava de 1714 (DUMONT, 1979, p. 158). A devoção que deu origem ao santuário nasceu de dois acontecimentos do século XIX, de natureza diferente.
A ponte de gelo de 1879
O pároco, Luc Désilets, tinha decidido construir uma igreja maior. As pedras estavam do outro lado do rio, que ali tem dois quilômetros de largura, e o meio mais econômico de trazê-las era atravessá-lo no inverno, sobre o gelo. Mas nesse inverno o rio não gelou. O pároco prometeu então não demolir a velha igreja e consagrá-la a Nossa Senhora do Rosário, se obtivesse uma ponte de gelo (DUMONT, 1979, p. 158). Segundo a placa do centenário citada no Petit vocabulaire marial, de 18 a 26 de março de 1879 os paroquianos atravessaram o rio sobre uma ponte de gelo e transportaram as pedras (DUMONT, 1979, p. 158-159). Deram espontaneamente à ponte o nome de Pont des Chapelets, «ponte dos terços» (DUMONT, 1979, p. 159). O nome lembra a devoção do terço, que o pároco e o vigário Duguay vinham difundindo na paróquia (DUMONT, 1979, p. 158). Salvatore Bonano, na Mariology dirigida por Juniper Carol, fala de uma novena a Maria e situa a ponte na primavera de 1879 (BONANO, 2018). O Dictionnaire encyclopédique de Marie fala do inverno de 1878 (AMBROGI, LE TOURNEAU, 2015, verbete «Canada»). A diferença pode ser só de formulação, já que março de 1879 ainda pertence ao inverno de 1878 para 1879. O acontecimento é o mesmo.
Os olhos da estátua, 1888
Em 22 de junho de 1888, na noite em que a velha igreja foi consagrada a Nossa Senhora do Rosário, três pessoas disseram ter visto os olhos da estátua da Virgem se moverem: o próprio Luc Désilets, o franciscano Frédéric Janssoone e um inválido, Pierre Lacroix (DUMONT, 1979, p. 159). Um deles declarou: J’aperçus très distinctement les yeux de la statue grandement ouverts, mais d’une manière naturelle, et, comme si elle eût regardé au-dessus de nous, «vi muito distintamente os olhos da estátua bem abertos, mas de modo natural, como se olhasse por cima de nós». Os três depuseram sob juramento (LAURENTIN, SBALCHIERO, 2007, p. 904). A estátua tem habitualmente os olhos baixos (DUMONT, 1979, p. 159).
O dicionário de Laurentin e Sbalchiero classifica o caso entre as estátuas e imagens, não entre as aparições (LAURENTIN, SBALCHIERO, 2007, p. 904-905, e 2010, p. 732-733), e o Petit vocabulaire marial responde à pergunta «aparições?» com um simples Point, «nenhuma» (DUMONT, 1979, p. 158). Nenhuma das obras citadas registra um juízo da autoridade eclesiástica sobre o prodígio. O que fica é o testemunho jurado de três pessoas e a devoção que dele nasceu: foi sobretudo a partir daí que se organizaram as peregrinações (DUMONT, 1979, p. 159). Frédéric Janssoone foi beatificado por João Paulo II em 1988 (LAURENTIN, SBALCHIERO, 2007, p. 905).
O santuário nacional
Em 1902, o bispo confiou o santuário aos Oblatos de Maria Imaculada (LAURENTIN, SBALCHIERO, 2007, p. 904). Em 1904, com a licença de Pio X, a estátua foi coroada, e em 1909 o primeiro Concílio Plenário do Quebec fez do lugar um santuário de peregrinação nacional (BONANO, 2018). Em 15 de agosto de 1954, um legado do papa coroou de novo a imagem (MORIN, 1988). No mesmo dia, na presença do legado, foi lançada a pedra fundamental da nova basílica (MORIN, 1988). A basílica foi inaugurada em 1964 (DUMONT, 1979, p. 159). O Dictionnaire encyclopédique de Marie dá 1955 (AMBROGI, LE TOURNEAU, 2015, verbete «Canada»), data difícil de conciliar com uma pedra fundamental lançada em agosto de 1954. João Paulo II visitou o santuário em 10 de setembro de 1984 (LAURENTIN, SBALCHIERO, 2007, p. 905).
Nossa Senhora do Cabo, em Portugal
No Cabo Espichel, perto de Sesimbra, os fiéis veneram Nossa Senhora do Cabo, também chamada Nossa Senhora da Pedra Mua. A tradição fala de uma grande luz e de Nossa Senhora vista percorrendo os rochedos montada numa mula, e de uma imagem encontrada nas rochas, para a qual se ergueu uma capela (AMBROGI, LE TOURNEAU, 2015, verbete «Nossa Senhora de Cabo»). A ermida da Memória guarda o lugar onde, segundo a tradição, Nossa Senhora apareceu. Em 1428, Diogo Mendes de Vasconcelos doou a ermida do lugar aos dominicanos de Benfica (PIMENTEL, 1899, p. 30, nota 1).
O santuário cresceu com os círios, peregrinações em que cada freguesia formava o seu grupo e levava um círio ao altar da Virgem. No Cabo, as freguesias se sucediam umas às outras, ano após ano, desde 1430, e o círio durava até cinco dias. Entre 1910 e 1926, o círio ficou suspenso por força da lei de separação, que proibia as procissões públicas (DIAS, 1956, p. 617). Um deles é o círio do termo de Lisboa, chamado dos saloios (PIMENTEL, 1899, p. 30, nota 1). Os círios estão na origem do santuário atual. Uma inscrição de 1757 diz que as casas de Nossa Senhora do Cabo foram feitas «por conta do Sírio dos Saloios», para acomodar os mordomos que vinham dar o bodo (AMBROGI, LE TOURNEAU, 2015, verbete «Nossa Senhora de Cabo»).
Sobre como a Igreja distingue aparições, imagens e devoções, ver Aparições marianas.
Referências
AMBROGI, Pascal-Raphaël, LE TOURNEAU, Dominique. Dictionnaire encyclopédique de Marie. Paris: Desclée de Brouwer, 2015.
BONANO, Salvatore J. Marian shrines and apparitions. In: CAROL, Juniper B. (ed.). Mariology. v. 3. Post Falls: Mediatrix Press, 2018. Reimpressão da edição de 1961.
DIAS, José de Oliveira. Notre Dame dans la piété populaire portugaise. In: DU MANOIR, Hubert (dir.). Maria: études sur la sainte Vierge. t. 4. Paris: Beauchesne, 1956. p. 611-642.
DUMONT, A. Notre-Dame du Cap (Canada, Québec). In: Petit vocabulaire marial. Paris: Desclée De Brouwer, 1979. p. 158-160. (Voici ta Mère).
LAURENTIN, René, SBALCHIERO, Patrick (dir.). Dictionnaire des «apparitions» de la Vierge Marie: inventaire des origines à nos jours, méthodologie, bilan interdisciplinaire, prospective. Nouv. éd. corr. Paris: Fayard, 2007.
LAURENTIN, René, SBALCHIERO, Patrick (dir.). Dizionario delle «apparizioni» della Vergine Maria. Tradução de Silvia Franceschetti. Roma: Edizioni ART, 2010.
MORIN, C. M. Cap-de-la-Madeleine. In: BÄUMER, Remigius, SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. St. Ottilien: EOS, 1988. v. 1.
PIMENTEL, Alberto. História do culto de Nossa Senhora em Portugal. Lisboa: Guimarães, Libanio & C.ª, 1899.
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