«Quis separare nos a caritate christi»: todos os defuntos, daniel e Maria portu dos mortos

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Quis nos separabit a caridade Christi? Tribulatio? an angustia? an persecutio? an fome? an nuditas? an periculum? an gladius?
Rm 8,35
A Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos propõe três textos sobre a morte e a ressurreição. Daniel anuncia que chegará um tempo de angústia, mas o povo será salvo, e «os que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha e a confusão» (Dn 12). Paulo proclama que «nada nos pode separar do amor de Cristo», nem a morte, nem a vida, nem os poderes (Rm 8). Jesus promete que todos os que o Pai lhe dá virão a Ele e que Ele os ressuscitará no último dia (Jo 6). Maria que sofreu a morte do seu Filho e crê na ressurreição é o modelo supremo de esperança para todos os mortos.
I. A primeira leitura: Dn 12,1-3
Daniel anuncia uma tribulação sem precedentes, mas promete a libertação para «todos os que estiverem inscritos no livro» (v.1). A promessa é tão universal quanto o julgamento: «muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha e a confusão sem fim» (v.2). O «acordar» dos que dormem no pó é a primeira formulação explícita da ressurreição individual no Antigo Testamento.
«Os entendidos brilharão como o brilho do firmamento, e os que ensinaram muitos na justiça brilharão como estrelas, para sempre e eternamente» (v.3): a ressurreição não é apenas a sobrevivência mas a transfiguração. Os que viveram para Deus ressurgem como luz. A morte não é o fim da luminosidade, é a sua condição: como a estrela que só brilha no escuro da noite, o justo que morreu brilha na noite da morte.
II. A segunda leitura: Rm 8,31-35.37-39
Paulo termina o capítulo 8 da Carta aos Romanos com um hino de confiança absoluta. «Se Deus está connosco, quem será contra nós»? (v.31): a lógica da ressurreição de Cristo inverte toda a lógica da derrota. A morte de Cristo foi a sua vitória. «Quem nos separará do amor de Cristo»? (v.35): a lista que se segue, tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada, é a lista de todas as formas possíveis de morrer.
«Em tudo isso somos mais que vencedores, por aquele que nos amou» (v.37): a vitória não é apesar da morte mas através da morte. «Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas presentes, nem as coisas futuras, nem os poderes, nem as alturas, nem as profundezas, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus em Cristo Jesus» (v.38-39). A morte está na lista mas é vencida pelo amor de Deus que nenhuma criatura pode interromper.
III. A Ressurreição prometida: daniel, Paulo e Jesus
Os três textos descrevem a mesma esperança de três ângulos. Daniel anuncia a ressurreição como fato futuro: os que dormem acordarão. Paulo anuncia que o amor de Cristo já triunfou sobre a morte: nada pode separar os mortos do amor que os criou. Jesus promete que todos os que o Pai lhe confia ressurgirão no último dia (Jo 6,39-40). A ressurreição é simultaneamente futura (Daniel), já garantida pelo amor (Paulo) e pessoalmente prometida por Jesus (João).
A Comemoração dos Fiéis Defuntos não é um dia de luto mas de esperança: não choramos como os que não têm esperança (1Ts 4,13) mas como os que aguardam o acordar dos que dormem no pó. A lista de Paulo, tribulação, fome, espada, é a lista dos modos de morrer dos mártires, e todos eles são «mais que vencedores» (Rm 8,37).
IV. Maria: porto dos mortos e modelo de esperança
Maria é o modelo mais perfeito da esperança na ressurreição que os três textos anunciam. Ao pé da Cruz, viu o «brilho do firmamento» de Dn 12,3 apagar-se na morte do seu Filho. Nesse momento, foi chamada a acreditar que «nada pode separar» aquele homem morto «do amor de Deus» de Rm 8,39. E crendo, esperou o que João 6,40 promete: «a vontade do meu Pai é que todos os que vêem o Filho e crêem n’Ele tenham a vida eterna, e Eu os ressuscitarei no último dia».
A Assunção de Maria é a primeira realização desta promessa de Jo 6,40: “Maria foi ressuscitada por Jesus no último dos seus dias terrenos.” A tradição a chama «Porto dos Mortos» (Stella Maris, Porta Coeli) porque conduziu ao porto da ressurreição o Filho que garante a passagem. A Comemoração dos Fiéis Defuntos convida a pedir a Maria que interceda pelos que dormem no pó, confiando na promessa de Jesus de que nenhum deles será perdido.
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