Associações marianas: os movimentos de devoção a Maria

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Huiusmodi Sodalitates dicendae sunt Marianae, non tantum quod a B. V. Maria titulum assumant, sed quod potissimum sodales singuli erga Deiparam pietatem singularem profiteantur […]
«Estas sodalidades chamam-se marianas não só por tomarem o nome da Bem-aventurada Virgem Maria, mas sobretudo porque cada sócio professa uma piedade singular para com a Mãe de Deus […]» (PIO XII, 1948, p. 401, norma VIII)

Chamam-se associações marianas os grupos de fiéis em que a referência a Maria não é ocasional, mas estrutural: ela é o modelo da sua vida espiritual e o centro do seu apostolado. O estudo clássico de Santino Epis no Nuovo Dizionario di Mariologia deixa de fora, de propósito, as antigas confrarias e as ordens terceiras marianas, e começa no século XVI, quando nasce o associativismo mariano neste sentido preciso (EPIS, 1986, p. 155). Desde então a Igreja viu surgir formas muito diferentes de um mesmo impulso: viver a fé com Maria e à maneira de Maria.

As Congregações marianas

O primeiro exemplo foram as Congregações marianas. Em 1563, no Colégio Romano da Companhia de Jesus, o jesuíta flamengo João Leunis (1536-1584) começou a reunir alguns dos seus alunos em um grupo de oração e de vida cristã, que em 1564 se consagrou a Maria sob o título da Anunciação, o mesmo da igreja do Colégio (LAMBERT, 1991, p. 605-606, MULLAN, 1912, p. 6*-7*). Em 5 de dezembro de 1584, pela bula Omnipotentis Dei, Gregório XIII erigiu canonicamente a congregação do Colégio Romano como «Primária», à qual as outras se podiam agregar (MULLAN, 1912, p. 5*-11*).

Em 1948, no segundo centenário da bula Gloriosae Dominae de Bento XIV, Pio XII dedicou-lhes a constituição apostólica Bis saeculari. Chamou-as tamquam validissimae copiae viresque spiritales, «como que tropas e forças espirituais muito poderosas» na defesa e na difusão da fé, e explicou o que as faz marianas: que cada sócio professe uma piedade singular para com a Mãe de Deus eique plena consecratione devinciantur, «e se ligue a ela por uma consagração plena» (PIO XII, 1948, p. 394, 401). Em 1967 as Congregações renovaram-se e adotaram o nome de Comunidades de Vida Cristã (LAMBERT, 1991, p. 605).

Associações nascidas de aparições e de santos

Depois das aparições de 1830 a Santa Catarina Labouré, na Rue du Bac, formaram-se em Paris, entre 1837 e 1847, os primeiros grupos das Filhas de Maria, ligados às Filhas da Caridade e aos padres da Missão (EPIS, 1986, p. 155). Pio IX deu à associação a aprovação canônica em 20 de junho de 1847 (CRAPEZ, 1954, p. 113).

Em outubro de 1917, em Roma, no colégio internacional dos Frades Menores Conventuais, São Maximiliano Kolbe (1894-1941) fundou a Milícia da Imaculada, cuja condição de pertença é a consagração à Imaculada (EPIS, 1986, p. 156).

Em 7 de setembro de 1921, em Dublin, o leigo Frank Duff reuniu o primeiro grupo da Legião de Maria. A sua espiritualidade vem da doutrina de São Luís Maria Grignion de Montfort, e a sua organização imita a legião romana, com os seus praesidia, curiae e senatus e o Concilium central em Dublin (FIRTEL, 1992, p. 73, EPIS, 1986, p. 157). Sobre a Itália, onde chegou no fim de 1946, Epis destaca a sua presença discreta, non clamorosa, ma nascosta, pastoralmente molto efficace, «não ruidosa, mas escondida, pastoralmente muito eficaz» (EPIS, 1986, p. 157).

Em 1947, nos Estados Unidos, o padre Harold Colgan lançou o Exército Azul, hoje Apostolado Mundial de Fátima, para viver a mensagem de Fátima pela oração do rosário, pela penitência e pela consagração ao Coração Imaculado de Maria (EPIS, 1986, p. 157, ÜBELHÖR, 1989, p. 450).

Há também associações marianas de sacerdotes, como a Liga Sacerdotal Mariana, de 1943, e o Movimento Sacerdotal Mariano, de 1972 (EPIS, 1986, p. 157). Ficam fora deste quadro, por serem outra realidade, os movimentos eclesiais de forte identidade mariana, como Schoenstatt ou os Focolares, que o mesmo dicionário trata em outro verbete, «Movimenti ecclesiali».

O que têm em comum

Para Epis, estas associações abriram aos leigos um caminho de vida cristã moldado em Maria sem exigir o ingresso em uma forma de vida religiosa. Ao mesmo tempo, as formas históricas mais importantes de espiritualidade mariana nasceram à sombra das grandes instituições religiosas, e na origem de cada experiência associativa está o carisma de um fundador (EPIS, 1986, p. 159, 161). Todas vivem a relação com Maria também em grupo, cada uma com o seu carisma próprio, e todas procuram traduzir a devoção em apostolado (EPIS, 1986, p. 159).

Epis aponta também o risco: que os grupos deformem a sua referência a Maria, como já aconteceu na história do culto mariano, ou que se fechem no seu próprio carisma em atitude de concorrência. A referência a Maria deve facilitar, e não impedir, a comunhão com os outros grupos que trabalham na Igreja local (EPIS, 1986, p. 161).

O Código de Direito Canônico de 1983 enquadra-as entre as associações de fiéis: In Ecclesia habentur consociationes distinctae ab institutis vitae consecratae et societatibus vitae apostolicae, in quibus christifideles […] communi opera contendunt ad perfectiorem vitam fovendam, aut ad cultum publicum vel doctrinam christianam promovendam, aut ad alia apostolatus opera […], «na Igreja existem associações, distintas dos institutos de vida consagrada e das sociedades de vida apostólica, nas quais os fiéis se esforçam, com ação comum, por fomentar uma vida mais perfeita, promover o culto público ou a doutrina cristã, ou outras obras de apostolado […]» (CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO, 1983, p. 51, cân. 298 § 1).

Referências

CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO. Codex Iuris Canonici. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 75, pars II, p. 51, 1983.

CRAPEZ, Edmond. La dévotion mariale chez saint Vincent de Paul et les Lazaristes ou Prêtres de la Mission. In: DU MANOIR, Hubert (dir.). Maria: études sur la Sainte Vierge. t. 3. Paris: Beauchesne et ses fils, 1954. p. 95-118.

EPIS, Santino. Associazioni mariane. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo Dizionario di Mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 154-162.

FIRTEL, H. Legio Mariae, I. Ordensgeschichte. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. v. 4. St. Ottilien: EOS, 1992. p. 73.

LAMBERT, W. Kongregationen. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. v. 3. St. Ottilien: EOS, 1991. p. 605-606.

MULLAN, Elder. The Sodality of Our Lady studied in the documents. 3. ed. New York: P. J. Kenedy and Sons, 1912.

PIO XII. Constitutio apostolica Bis saeculari, de Congregationibus Marianis, 27 set. 1948. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 40, p. 393-402, 1948.

ÜBELHÖR, M. Fatima, II. Religiöse Gemeinschaften, 5. Fatima-Weltapostolat. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. v. 2. St. Ottilien: EOS, 1989. p. 450.

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