Lucas 2,22-40, a Apresentação de Jesus e a Purificação de Maria

A cena de Lucas 2,22-40

Lucas 2,22-40 narra dois ritos cumpridos por Maria e José quarenta dias após o nascimento de Jesus: (1) a Purificação de Maria segundo Lv 12,1-8, que prescrevia uma oferta ao templo após o parto, (2) a Consagração (ou Resgate) do primogénito segundo Ex 13,2.12, que considerava todo o primogénito pertencente a Deus. Que Maria e José cumpram ambos os ritos é sinal de piedade judaica observante e marca Jesus como integrado na aliança do Sinai desde o início. A cena conclui com a profecia de Simeão e a intervenção de Ana, a profetisa viúva de 84 anos.

A Purificação de Maria: Lv 12 e a sua interpretação

Levítico 12,1-8 prescrevia que a mulher após o parto ficasse impura durante quarenta dias (se o filho fosse varão) e depois levasse ao templo um cordeiro para holocausto e uma rola ou pombinha para sacrifício pelo pecado. As famílias pobres podiam oferecer apenas “duas rolas ou dois pombinhos”, e é precisamente esta oferta pobre que Lucas regista (Lc 2,24), marcando a pobreza de Jesus desde o nascimento. Teologicamente, a discussão clássica é: Maria precisava de purificação, sendo virgem e sem pecado? A tradição responde que ela o fez por humildade e obediência à Lei, não por necessidade, tal como Jesus aceitou ser baptizado por João sem precisar de conversão.

Simeão: a profecia das duas espadas

Simeão (Lc 2,25-35) é descrito como “justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel”. Ao receber Jesus nos braços, canta o Nunc Dimittis (Lc 2,29-32), a terceira das três cantigas do Evangelho da Infância (a par do Magnificat e do Benedictus). Depois, dirige a Maria uma profecia de dois elementos: (1) “Este está destinado à queda e ao levantamento de muitos em Israel” (Lc 2,34), (2) “E uma espada traspassará a tua própria alma” (Lc 2,35). Esta “espada” é interpretada pela tradição como o sofrimento de Maria ao pé da Cruz (Jo 19,25-27) e é o fundamento bíblico do título “Nossa Senhora das Dores” e da devoção à Via Matris.

Ana, a profetisa

Ana (Lc 2,36-38) é filha de Fanuel, da tribo de Aser, viúva há 84 anos, que “nunca saía do templo, servindo a Deus com jejuns e orações noite e dia”. Quando vê o Menino, “dava louvores a Deus e falava do Menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém”. Ana é uma das mulheres proféticas do NT, a par de Isabel (Lc 1,41-45) e das filhas de Filipe (At 21,9). A sua presença, combinada com a de Simeão, cumpre o princípio jurídico bíblico do “testemunho de dois ou três” (Dt 17,6, Mt 18,16).

Mariologia da cena: Maria, mulher da aliança

Lucas 2,22-40 apresenta Maria como mulher plenamente integrada na aliança mosaica, observante, pobre e disponível. A profecia de Simeão revela que a sua identidade está irremediavelmente ligada à do Filho: o destino de Jesus (queda e levantamento) passa pelo coração de Maria (espada). Não há mariologia sem cristologia, e não há compreensão do Calvário sem a espada de Simeão. João Paulo II (Redemptoris Mater, n.16) comenta que com as palavras de Simeão “Maria está diante de uma nova revelação que supera a da Anunciação: é-lhe anunciado que deverá sofrer”.

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Ver também: A Apresentação do Senhor (Lc 2,21-40), exegese completa do contexto histórico-ritual e significado mariológico da purificação.

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