A Apresentação do Senhor (Lc 2,21-40)

Lucas 2,21-40 condensa três atos litúrgicos distintos: a circuncisão, o resgate do primogénito e a purificação da mãe. A tradição tende a reunir estes sob o nome único de «Apresentação». A exegese moderna os distingue com precisão: a circuncisão ao oitavo dia (Lc 2,21), a purificação feminina nos quarenta dias de Lv 12 e o resgate do primogénito previsto em Ex 13. A oferta dos dois pombinhos revela, além disso, a condição juridicamente pobre da família de Nazaré. É neste quadro legal-litúrgico que Simeão profere o Nunc Dimittis e anuncia a espada que trespassará a alma de Maria (Lc 2,35), primeira anunciação bíblica da Paixão e fundamento patrístico da devoção às Sete Dores.
O relato de Lucas (Lc 2,21-40): Maria, José e os três ritos jurídicos da Apresentação do Senhor no templo
A circuncisão de Jesus (Lc 2,21): o oitavo dia e a imposição do nome indicado pelo anjo
Conforme à lei judaica, este preceito foi cumprido aos oito dias após o nascimento, e nesta ocasião foi dado ao menino o nome de Jesus, já indicado pelo anjo Gabriel.

O resgate do primogénito (Ex 13, Lc 2,23): os cinco siclos de prata e a lei mosaica
Era uma normativa que se aplicava aos primogénitos do sexo masculino entre os judeus. Todo primeiro filho devia ser consagrado ao Senhor, em memória do facto de que Deus tinha exterminado os primogénitos dos Egípcios. Na realidade, somente os levitas permaneciam ao serviço do Senhor, enquanto os primogénitos das outras tribos eram resgatados a partir de um mês de idade mediante o pagamento de cinco siclos.
A Purificação ritual (Lv 12): os quarenta dias e a oferta dos dois pombinhos
Interessava exclusivamente à mulher. Ao dar à luz um menino, ela contraía a impureza legal que durava quarenta dias, após os quais deveria apresentar-se ao sacerdote no santuário para ser declarada pura através de um rito purificatório. Nesta ocasião, a puérpera oferecia um cordeiro de um ano para o holocausto, ou um pombo ou uma rola em sacrifício de expiação. As mulheres pobres podiam substituir o cordeiro por um par de rolas ou pombos.
Imprecisões e tensão narrativa em Lc 2,22-24: a confusão entre a Purificação de Maria e a Apresentação do Senhor na exegese moderna
No versículo 22 de Lucas, observam-se algumas imprecisões:
- diz-se: «quando chegou o tempo da PURIFICAÇÃO DELES», o que leva a crer que ambos os pais deveriam submeter-se ao rito, enquanto na realidade apenas a mãe deveria fazê-lo.
- a oferta do par de pombos parece mais relacionada com a cerimónia do resgate do que com a da purificação.
- não se menciona o pagamento dos cinco siclos.
Estas imprecisões sugerem um conhecimento superficial do judaísmo e uma ignorância dos detalhes, dificilmente atribuíveis a um autor criado em ambiente judaico na Palestina.
As explicações podem ser diversas. Nos tempos do AT, a aplicação prática das normas poderia ocorrer segundo modalidades da tradição viva desconhecidas por nós, onde, por conveniência prática, as duas cerimónias do resgate e da purificação poderiam ter sido combinadas na prática popular.
Segundo alguns autores, Lucas inspirou-se em seu relato na história de Samuel, obtendo os seguintes paralelos:
- Elcana e Ana vão ao santuário de Siló para destinar o menino ao serviço do Senhor, após terem obtido milagrosamente o seu nascimento. José e Maria sobem ao templo para apresentar o menino, concebido milagrosamente pela obra do Espírito Santo.
- Eli abençoava todos os anos os pais de Samuel quando subiam ao templo. Simeão abençoa o pai e a mãe de Jesus.
- Em Siló, algumas mulheres prestavam serviço na entrada da tenda do encontro. Em Jerusalém, Ana nunca se afastava do templo.
- Samuel crescia em estatura e bondade diante do Senhor e diante dos homens. Jesus crescia e se fortalecia cheio de sabedoria e a graça de Deus estava sobre ele.
- Uma diferença: enquanto Samuel permanece no templo, Jesus retorna com seus pais para casa.
O deles refere-se a todo o povo de Israel, cuja purificação, libertação é também celebrada por Ana e pelo sacerdote Zacarias. As válidas razões que nos levam a tal interpretação são:
- a semelhança e a correlação que existem entre o início da perícope (v. 22) e o fim (v. 38), onde a “purificação deles” parece referir-se a Jerusalém, que é o símbolo de todo o povo de Israel.
- outras vezes os evangelhos usam “deles” para indicar os judeus, como por exemplo: «nas Sinagogas deles». (Mt 1,39. 4,23. 9,35. 10,27. 13,54)
- Malaquias, em um de seus textos proféticos, fala da purificação de forma similar referindo-se aos filhos de Levi (Ml 3,3).
Se, portanto, o interesse dominante do evangelista não é a purificação de Maria, mas a do Povo, as imprecisões perdem a importância que lhes poderia ser atribuída. O evangelista quer, com seu relato, mostrar que com sua viagem a Jerusalém e a entrada no templo, símbolo e compêndio ideal de todo Israel, e com sua consagração ao Pai, Jesus realiza a purificação espiritual dos judeus pré-anunciada pelos profetas.
A festa da Apresentação (2 de fevereiro): da hypapante oriental à candelária ocidental e o calendário romano
A mudança do nome original da festa de “Purificação de Maria” para “Apresentação do Senhor” é determinada pelo trecho do evangelho de Lc 2,22-40, onde é lembrada primeiramente a Apresentação de Jesus no templo e apenas marginalmente a Purificação de Maria.
A Purificação ritual da mulher após o parto segundo Lev 12: os quarenta dias e a oferta dos dois pombinhos
Toda mulher que tinha dado à luz precisava purificar-se porque, segundo a mentalidade da época, o sangue era a sede da vida e pertencia somente a Deus, fonte de toda vida. Qualquer perda de sangue, inclusive a do parto, tornava a mulher impura por não estar em perfeita comunhão com Deus. Para restabelecer essa comunhão com Deus, fonte da energia vital, praticava-se o rito da purificação. A mulher permanecia impura por quarenta dias após o nascimento de um filho masculino e oitenta após o de uma filha. Durante esse período, ela não podia tocar em nada sagrado ou entrar em locais de culto.
O resgate do primogénito segundo Ex 13,2.12-13 e Nm 18,15-16: os cinco siclos de prata e a lei mosaica do primogénito
O conceito do resgate dos primogénitos masculinos tem suas raízes em tradições e leis encontradas no antigo Testamento da Bíblia. Esse costume está principalmente associado à nação de Israel e reflecte a importância dos primogénitos na cultura e religião judaicas. Um acto que simboliza a consagração e o reconhecimento do papel especial dos primogénitos na tradição judaica. Como exemplos bíblicos sugerimos a leitura de Ex 13,1-2, 11-15, Nm 3,40-51, 18,15-16.
A obediência de Maria e José à lei de Moisés: Lc 2,39 e a fidelidade à halakha judaica
Em seu relato, Lucas enfatiza a obediência de Maria e José à lei e sublinha a apresentação do Menino. Por duas vezes afirma que foi levado a Jerusalém para oferecê-lo ao Senhor. As palavras proféticas de Simeão e de Ana são dirigidas principalmente ao menino, Messias do Senhor. O foco não é tanto na apresentação, mas na consagração de Jesus.
Mais do que um primogénito a ser resgatado, Jesus parece uma oferta a ser apresentada ao Pai. Esta leitura sacrificial é reforçada por vários detalhes:
- Não consta de nenhum documento que o resgate do primogénito devesse ocorrer no templo, mas os pais podiam apresentar-se a qualquer sacerdote.
- O motivo pelo qual Maria e José levam o menino a Jerusalém era o de «oferecê-lo ao Senhor», expressão que ressoa muitos passos do antigo Testamento usados para descrever a oferta das vítimas nos sacrifícios (Lv 16,7.10) ou as pessoas votadas ao serviço do Senhor como os Levitas (Nm 8,13, Dt 10,8). Paulo usará termos similares para exortar os cristãos a oferecer os próprios corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus em culto espiritual (Rm 12,1).
- Por que Lucas não menciona de forma alguma o preço pago pelo resgate? Porque Jesus, embora não fosse da tribo de Levi, não pagava o resgate de sua libertação, mas permaneceria para sempre consagrado a Deus, a quem ofereceria sua vida em sacrifício perene.
Já nesta visita ao templo, Maria, que guarda e medita em seu coração todas as coisas, começa a compreender que seu filho não pertence a ela, mas é para sempre doado a Deus. A acção de Maria tem o valor de uma consagração do Filho à qual Ela se associa, quase formando uma única realidade com ele. Nesse sentido, pode-se falar de uma purificação-consagração que envolvia mãe e filho e, por isso, talvez, Lucas tenha outro motivo ainda para falar da purificação “deles“.
Simeão (Lc 2,25-32): o justo que esperava a consolação de Israel e o nunc dimittis como profecia cristológica
Simeão é descrito por Lucas com três qualificativos que o situam na melhor tradição dos justos do antigo Testamento: é justo, piedoso e aguardava a consolação de Israel (Lc 2,25). O Espírito Santo repousava sobre ele e tinha-lhe revelado que não morreria antes de ver o Messias do Senhor. Movido pelo Espírito, sobe ao Templo no dia em que Maria e José entram com o Menino. Toma Jesus nos braços e pronuncia um dos hinos mais belos do novo Testamento, o Nunc Dimittis: «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz, segundo a tua palavra, porque os meus olhos viram a tua salvação» (Lc 2,29-30). Neste breve hino, Simeão sintetiza toda a esperança messiânica de Israel: a salvação é um acontecimento já cumprido, visível, concreto, encarnado no Menino que tem nos braços.
A espada de Simeão (Lc 2,35): as quatro interpretações patrísticas do simbolismo mariológico
Depois de abençoar os pais, Simeão dirige-se especificamente a Maria e pronuncia a profecia central de toda a perícope: «Vê que este menino está destinado a ser ruína ou ressurreição de muitos em Israel, e a ser sinal de contradição. Quanto a ti, uma espada transpassará a tua própria alma» (Lc 2,34-35). A imagem da espada é deliberadamente ambígua e a sua interpretação ocupa a exegese patrística e medieval por séculos.
A interpretação mais difundida na tradição é a da dor de Maria ao pé da Cruz: a espada é o sofrimento materno diante da Paixão e morte do Filho. Orígenes, porém, propôs uma leitura diferente: a espada seria a dúvida ou a perturbação da fé de Maria no momento da Paixão, quando o escândalo da Cruz poderia abalar também a Mãe. Ambas as leituras, embora distintas, convergem num ponto: a vida de Maria não será uma trajectória de glória tranquila, mas de participação no destino redentor do Filho. A profecia de Simeão é, neste sentido, o anúncio de toda a devoção às sete Dores de Maria.
A expressão «sinal de contradição» diz respeito a Jesus mas ilumina também Maria: ela que o gerou e o acompanhou será inevitavelmente sinal da mesma contradição. Ser Mãe do Messias não é um privilégio que se vive na margem da história, mas uma vocação que atravessa a carne da história.
Ana, a profetisa (Lc 2,36-38): a tribo de aser, o jejum de oitenta e quatro anos e o reconhecimento do messias
Lucas acrescenta uma segunda figura profética: Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Enviouvara após sete anos de casamento e, desde então, não saíra do Templo: servia a Deus noite e dia com jejuns e orações. Tinha oitenta e quatro anos. Chegando no mesmo momento, dá graças a Deus e fala do Menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém (Lc 2,38). Ana é a primeira evangelizadora do Templo: anuncia a salvação não a um homem sozinho, como Simeão, mas a uma comunidade, àqueles que na cidade santa aguardavam o cumprimento das promessas. A sua presença no relato de Lucas sublinha que o reconhecimento do Messias acontece na oração, no silêncio e na perseverança.
Ver também: Apresentação de Jesus no Templo (Lc 2,22), análise litúrgica e mariológica da festa da Candelária.
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