Antoine Gay (1790-1871): palavras sobre Maria atribuídas ao demônio

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Ille homicida erat ab initio et in veritate non stetit, quia non est veritas in eo, cum loquitur mendacium ex propriis loquitur, quia mendax est et pater eius.
«Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade. Quando diz a mentira, fala do que é seu, porque é mentiroso e pai da mentira» (Jo 8,44)
Entre os relatos de palavras sobre Maria atribuídas ao demônio, há o de um homem de Lyon, na França, do século XIX. Já foi apresentado como «o exorcismo de Antônio de Lyon». O nome está errado e o exorcismo nunca aconteceu. O homem chamava-se Antoine Gay, e a sua história, contada com cuidado, ensina mais sobre a prudência da Igreja do que sobre Maria.
Quem foi Antoine Gay
Antoine Gay nasceu em 31 de maio de 1790 em Lantenay, no departamento do Ain, aprendeu o ofício de marceneiro e, depois do serviço militar, fixou-se em Lyon (CRISTIANI, [196-?], p. 83). Muito piedoso, quis entrar na vida religiosa por volta de 1820, mas só em 1836 recebeu o hábito dos trapistas de Aiguebelle, de onde saiu pouco depois por motivos de saúde (BAMONTE, 2011, p. 39, CRISTIANI, [196-?], p. 83). A partir de 1837 começou a manifestar fenômenos que os seus devotos atribuíram a uma possessão diabólica: o demônio, que dizia chamar-se Isacaron, falaria pela sua boca. Viveu em Lyon até a morte, em 1871 (CRISTIANI, [196-?], p. 84 e 101-103).
Os exames e a recusa do exorcismo
O caso foi estudado em vida. Um sacerdote, o padre Burnoud, examinou-o e julgou «muito provável» a possessão. Mais tarde, segundo uma carta do gravador Houzelot, teria se declarado certo dela. Em 1843, alguns médicos, a pedido de dois padres e segundo o desejo do cardeal arcebispo de Lyon, observaram-no durante quatro meses e escreveram que ele gozava de perfeita saúde do corpo e do espírito, e que as suas crises vinham de uma causa desconhecida, não avaliável pelos meios da medicina. O certificado conclui pela possessão (CRISTIANI, [196-?], p. 84-86, BAMONTE, 2011, p. 39-40).
Mas o exorcismo nunca foi feito. O próprio monsenhor Cristiani, que defende a autenticidade do caso, reconhece que surgiram dúvidas e oposições, e que jamás fue puesto en práctica el exorcismo, «o exorcismo nunca foi posto em prática» (CRISTIANI, [196-?], p. 83, 86-87). As fontes não concordam sobre o porquê. O historiador Francis Young escreve que o cura d’Ars pediu e obteve a licença para o exorcizar, mas que o rito não chegou a realizar-se, sem que se saiba a razão (YOUNG, 2016, p. 184). O neurologista Jean Lhermitte, que escreveu sobre o caso um século depois a partir do livro de Gruninger, diz que as autoridades da Igreja sempre recusaram o exorcismo que o próprio Gay pedia, e conclui que Gay não estava verdadeiramente possesso: o caso seria de lucid delirious-possession, «possessão delirante lúcida», com paranoiac persecution-mania, «mania de perseguição paranoica» (LHERMITTE, 1963, p. 102-106). Nenhuma destas fontes registra um reconhecimento oficial do caso por parte da autoridade eclesiástica.
As palavras sobre Maria
O padre Francesco Bamonte, exorcista, reproduz no seu livro sobre a Virgem Maria e o demônio algumas das frases que os devotos de Gay atribuíram a Isacaron. Uma delas: Non vi è nessuna lingua per lodare la Madre di Dio come Ella lo merita […] Maria ha più forza da sola di tutti gli angeli, di tutte le creature, di tutti i santi insieme, «não há língua capaz de louvar a Mãe de Deus como ela merece […] Maria sozinha tem mais força do que todos os anjos, todas as criaturas, todos os santos juntos». E outra: Maria è il terrore dell’Inferno, «Maria é o terror do inferno» (BAMONTE, 2011, p. 40-41). Atribui-se ao demônio até uma longa oração a Maria, que em certo ponto a chama veramente divina, «verdadeiramente divina» (BAMONTE, 2011, p. 41-42, CRISTIANI, [196-?], p. 99-100). Tomada à letra, a expressão é inaceitável para a fé católica, porque Maria é criatura, como a mesma oração diz pouco antes: Voi siete la creatura incomparabile, «vós sois a criatura incomparável» (BAMONTE, 2011, p. 42).
Estas frases chegaram até nós por uma cadeia de testemunhos de devotos, recolhidos num folheto publicado em Lyon em 1896 e no livro do lionês J. H. Gruninger, de 1952 segundo Cristiani e de 1954 segundo Lhermitte (CRISTIANI, [196-?], p. 82, LHERMITTE, 1963, p. 102 e 107). Lhermitte lamenta precisamente a falta de documentação sólida e de observação feita por pessoas qualificadas, e não só por homens bons sem competência médica ou psicológica (LHERMITTE, 1963, p. 105-106).
O que a Igreja ensina sobre a palavra do demônio
Mesmo admitindo que o demônio possa ser forçado a dizer verdades, como o espírito impuro que gritou diante de Jesus scio qui sis Sanctus Dei, «sei quem tu és, o Santo de Deus» (Mc 1,24), a sua palavra não é fonte de fé. O Ritual dos exorcismos chama-o mendax et pater mendacii, «mentiroso e pai da mentira», que age com astúcia e falsidade (DE EXORCISMIS, 2005, p. 5), e manda ao exorcista que não acredite facilmente numa possessão, ne facile credat quendam a daemonio esse obsessum, qui aliquo morbo, praesertim ex psychicis, laboret, «que não creia facilmente que alguém está possesso pelo demônio quando sofre de alguma doença, sobretudo psíquica», e que não se deixe enganar pelas artibus ac fraudibus, quibus utitur diabolus ad decipiendum hominem, ad persuadendum obsesso ne se subiciat exorcismo, ipsius infirmitatem esse naturalem vel arte medica pendentem, «artes e fraudes de que o diabo se serve para enganar o homem, para persuadir o possesso a não se submeter ao exorcismo, convencendo-o de que a sua enfermidade é natural ou depende da arte médica» (DE EXORCISMIS, 2005, n. 14, p. 11). O próprio Bamonte, que recolhe estes relatos, adverte: Non è certo il demonio che ci deve istruire, ma l’insegnamento della Sacra Scrittura, «não é certamente o demônio que nos deve instruir, mas o ensinamento da Sagrada Escritura» (BAMONTE, 2011, p. 50).
O que a Igreja crê sobre Maria não depende de nenhum destes relatos. A sua santidade, a sua maternidade divina, a sua vitória sobre o mal vêm da Escritura e da Tradição, sem precisar do testemunho de nenhum espírito. Um relato como o de Antoine Gay pode, no máximo, recordar o que já sabemos pela fé. Não acrescenta nada, e, quando contém expressões erradas, mostra precisamente por que não pode ser tomado como ensinamento. Sobre outro relato do mesmo gênero, veja as revelações do demônio sobre Maria segundo o padre Bamonte.
Referências
BAMONTE, Francesco. La Vergine Maria e il diavolo negli esorcismi. 2. ed. riveduta e ampliata. Milano: Paoline, 2011.
BÍBLIA. Latim. The Holy Bible: Vulgate translation. [S. l.: s. n.], 2003. Edição eletrônica.
CRISTIANI, [Léon]. Presencia de Satán en el mundo moderno. Tradução de Marta Acosta van Praet. [S. l.: s. n., 196-?].
DE EXORCISMIS et supplicationibus quibusdam. Editio typica emendata 2004, reimpr. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2005.
LHERMITTE, Jean. Diabolical possession, true and false. Tradução de P. J. Hepburne-Scott. London: Burns & Oates, 1963. (Faith and Fact Books, 57).
YOUNG, Francis. A history of exorcism in Catholic Christianity. [Cham]: Palgrave Macmillan, 2016. (Palgrave Historical Studies in Witchcraft and Magic).
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