A Mariologia de São Francisco de Assis (m. 1226)

Três são os elementos que remontam às origens e que mais revelam o “espírito mariano” do Pobrezinho: a Igreja de Santa Maria dos Anjos (a Porciúncula) em Assis e dois textos, ambos compostos pelo próprio São Francisco. Estes são: a antífona Sancta Maria Virgo e a saudação Ave Domina.

Santa Maria dos Anjos (a Porciúncula)

Para compreender o extraordinário vínculo espiritual que unia o Santo à igreja da Porciúncula, situada na planície de Assis, é preciso remontar ao mandato que ele recebeu do Crucifixo de «reconstruir a sua casa, que estava toda em ruínas» (São Boaventura, Legenda Maior, II, 1, em: FF, 1038). Nota-se que o texto latino original traz o termo domum = casa, com o sentido de Ecclesia, como explica São Boaventura. Isto é indicativo para uma correta avaliação do conteúdo eclesiológico do Saluto alla Vergine, onde também Maria Santíssima é chamada Domus Eius.

Sua obediência foi prontíssima «Ad obediendum se parat, totum se recolligit ad mandatum» [“Prepara-se para obedecer, recolhe-se todo para cumprir o mandato”], (Beato Tomás de Celano, Vita secunda S. Francisci, VI, 10, em: AF X, p. 137). Luciano Canonici observa com acuidade: “Parece ler-se (Lc 1,39), a pressa de Maria após a Anunciação”, (DF, col. 1339), ainda que ele não tenha compreendido de imediato que Jesus se referia principalmente não à igreja de pedras, mas àquela Igreja «quam Christus suo sanguine acquisivit, sicut eum Spiritus sanctus edoquit, et ipse postmodum fratribus revelavit» (São Boaventura, Legenda Maior, II, 1, em: AF X, p. 563). Isto é que Cristo adquiriu com o seu sangue como o Espírito Santo lhe ensinou e ele depois revelou aos irmãos.

Depois de restaurar as pequenas igrejas de São Damião e de São Pedro, impelido «ob devotionem ferventem, quam habebat ad Dominam mundi» (São Boaventura, Legenda Maior, II, 8, em: AF X, p. 566). Isto é: por fervorosa devoção que tinha à Senhora do mundo, fixou sua morada junto à igreja de Santa Maria dos Anjos, com a intenção de repará-la. Esta será considerada o berço, «caput et mater». Este título é usado pela primeira vez com feliz expressão no Specchio di perfezione, n. 82, em: FF, 1779. O Specchio di perfezione foi publicado pela primeira vez em 1898 e é conhecido também como Memorie di frate Leone. Pode-se defini-lo como uma importantíssima e valiosíssima recolha de gestos, fatos e discursos de Francisco (FF, p. 1304). Os estudiosos contemporâneos já não atribuem a obra a Frei Leão, mas a um compilador situado entre os Espirituais. A datação desloca-se, portanto, de 1227 para 1318) da Ordem Franciscana (cf. FF, 1779).

O que o Doutor Seráfico escreve é muito significativo a este respeito: «Sentiens autem iuxta nomen ipsius ecclesiae, quo ab antiquo S. Maria de Angelis vocabatur, “angelicarum ibi visitationum frequentiam”, pedem fixit ibidem propter reverentiam Angelorum amoremque praecipuum Matris Christi. Hunc locum vir sanctus amavit prae caeteris mundi locis; hic etenim humiliter coepit, hic virtuose profecit, hic feliciter consummavit, hunc in morte fratribus tamquam Virgini carissimum commendavit» (São Boaventura, Legenda Maior, II, 8, em: AF X, p. 566). Isto é: sentindo… a frequência das “visitas angélicas”, fixou ali o pé por reverência aos anjos e amor singular à Mãe de Cristo. Este lugar o homem santo amou acima dos outros lugares do mundo. Aqui começou humildemente, aqui progrediu virtuosamente, aqui consumou felizmente, e em sua morte o recomendou aos irmãos como caríssimo à Virgem.

A escolha de Santa Maria dos Anjos como berço da Ordem não é, portanto, desprovida de significado, mas responde perfeitamente à consciência que São Francisco tinha da mediação extraordinária daquela que ele quis como Advogada para si e para seus frades. Nos escritos autênticos de São Francisco encontram-se apenas expressões equivalentes ao título de Mediadora. Indícios preciosos do uso desse título mariano nas primeiras comunidades franciscanas são fornecidos pelos sermões de Santo Antônio e pela Legenda Versificata, escrita certamente antes de 1230: «Ergo supernorum debens oratio niti vestra patrociniis, proprio non evolvet ausu ad superos, immo Mediatrix Virgo beata ad Christum, Christus ad Patrem sit mediator» [“Portanto, a vossa oração, devendo apoiar-se nos patrocínios celestes, não subirá com audácia própria aos céus. Antes, a Virgem bendita Mediadora seja mediadora junto de Cristo, e Cristo junto do Pai”], (Henricus Abricensis, Legenda S. Francisci versificata, em: AF X, p. 501). Nota-se que o mesmo conceito de mediação “de Maria a Cristo” e “de Cristo ao Pai” está presente em toda a mariologia de São Maximiliano. Por exemplo SK 1310: “A alma oferece à Imaculada os próprios atos de amor. A Imaculada oferecerá a Jesus tais atos de amor como se fossem seus. Jesus os oferecerá ao Pai”.

São Boaventura capta admiravelmente o sentido da profunda devoção mariana do Patriarca Seráfico: «In ecclesia Virginis Matris moram faciente servo ipsius Francisco et apud eam quae concepit Verbum plenum gratiae et veritatis, continuis insistente gemitibus, ut fieri dignaretur advocata ipsius, meritis Matris misericordiae concepit ipse ac peperit spiritum evangelicae veritatis», (São Boaventura, Legenda Maior, III, 1, em: AF X, p. 567). Isto é: Francisco, permanecendo na igreja da Virgem Mãe, e junto daquela que concebeu o Verbo “cheio de graça e de verdade”, insistindo com gemidos contínuos para que ela se dignasse tornar-se sua advogada, pelos méritos da Mãe da misericórdia, concebeu e deu à luz o espírito da verdade evangélica.

A prova definitiva do afeto particularíssimo por Santa Maria dos Anjos dá-nos, por fim, São Francisco. Com efeito, quando o Santo «foi expulso violentamente de Rivotorto, saiu com todos os seus frades com muita desenvoltura» (Canonici L., Porziuncola, em: DF, col. 1342), porque «nihil volebat proprietatis habere, ut omnia posset in Domino plenius possidere» (Beato Tomás de Celano, Vita prima, 44, em: AF X, p. 35). Isto é: não queria possuir nada como propriedade para poder possuir mais plenamente todas as coisas no Senhor.

Ao contrário, quando se tratava da Porciúncula, ele não queria que seus frades a abandonassem por motivo algum: «aiebat proinde fratribus saepe: “Videte, o filii, ne quando hunc locum relinquatis. Si ab una parte foras pelleremini, ex alia reintrate; nam locus iste vere sanctus est et habitatio Dei. Hic cum paucis essemus, nos augmentavit Altissimus; hic luce sapientiae suae illuminavit suorum pauperum corda; hic igne amoris sui nostras voluntatis accendit. Hic qui oraverit corde devoto, quod petierit obtinebit…”», (Beato Tomás de Celano, Vita prima, 106, em: AF X, p. 82). Isto é: “Vede, ó filhos, não abandoneis jamais este lugar. Se de um lado fordes expulsos, entrai de outro, pois este lugar é verdadeiramente santo e habitação de Deus. Aqui, sendo poucos, o Altíssimo nos aumentou. Aqui com a luz de sua sabedoria iluminou os corações de seus pobres. Aqui com o fogo de seu amor acendeu as vontades. Aqui quem rezar com coração devoto obterá o que pedir…”

Além disso, para melhor avaliar a predileção de que gozava Santa Maria dos Anjos em relação a todas as outras igrejas e conventos da Ordem, é preciso recordar que:

  • ali se multiplicaram os primeiros frades (cf. FF, 1631, 1777),
  • Santa Clara ali recebeu o hábito religioso (cf. FF, 1781, 1844),
  • São Francisco ali convocava os frades para os capítulos gerais (cf. FF, 592, 1466, 1529),
  • durante os quais enviou os primeiros missionários (cf. FF, 2325).
  • De Santa Maria dos Anjos, São Francisco partiu para a França (cf. FF, 1755),
  • para a Espanha e para a Palestina, e ali voltava pontualmente após suas viagens (cf. FF, 421).

Quando o Santo sentiu próximo o momento de sua partida deste mundo, quis ser levado novamente a Santa Maria dos Anjos, para concluir sua admirável existência terrena sob o patrocínio daquela Virgem em cujo seio nascera e se desenvolvera a nova Ordem (cf. São Boaventura, Legenda Maior, cap. XIV, n. 3, em: FF, 1237–1239).

A Porciúncula foi, portanto, um lugar particularmente caro a São Francisco, a ponto de defini-la “formam et exemplum”. Por seis vezes as Fontes Franciscanas atribuem este título a Santa Maria dos Anjos: duas vezes na Compilatio Assisiensis ou Legenda perusina (FF, 1556, 1557) e quatro vezes no Speculum Perfectionis (FF, 1687, 1688, 1745, 1779). Nota-se que São Francisco aplica também a si mesmo a expressão “formam et exemplum” quatro vezes nas mesmas fontes.

Ela, junto com Niepokalanów, a Cidade polonesa da Imaculada fundada por São Maximiliano em 1927, é o modelo, “formam et exemplum”, no qual se inspiraram desde o início os dois fundadores, p. Estêvão e p. Gabriel, e no qual se inspiram todas as Casas Marianas dos Franciscanos da Imaculada (cf. Constituições, art. 48). Com efeito, as comunidades franciscanas de Niepokalanów, na Polônia, e Mugenzai no Sono, no Japão, «encarnaram de modo vivo, pode-se dizer, a vida evangélica das primitivas comunidades franciscanas (S. Maria dos Anjos, S. Damião, Greccio…), renovando em nossos dias a primitiva vida franciscana vivida “na luz da Imaculada” e operando como centros propulsores de apostolado mariano de alcance sempre mais vasto, sem exclusão de meios tecnológicos a serem usados em apoio da “Missão da Imaculada”» (cf. Diretório, p. 121). Não foram poucas as polêmicas contra p. Kolbe, acusado por confrades de contradizer a pobreza franciscana ao introduzir meios técnicos sofisticados. Em Niepokalanów “havia uma pobreza rigorosa, o contar unicamente com a Providência divina através da Imaculada e a maior limitação possível das exigências pessoais” (SK, 260). “Nós religiosos”, repetia o Santo, “podemos habitar barracas, andar com vestes remendadas, alimentar-nos modestamente” (dos Processos), mas queria os melhores meios para a difusão da Verdade e a propagação do culto à Imaculada. “Todo o dinheiro necessário para construir casas cômodas deve ser empregado para a santificação das almas” (Conferências, 4 out. 1936). “Se nos permitíssemos qualquer comodidade, seríamos impedidos na atividade” (SK, 299).

A antífona do Ofício da Paixão

Trata-se de uma prece mariana particular inserida na paraliturgia intitulada Ofício da Paixão, composta pelo São Francisco para ser recitada junto às Horas litúrgicas ordinárias. Eis o texto da antífona na edição crítica de p. Kajetan Esser: «Sancta Maria virgo, non est tibi similis nata in mundo in mulieribus, filia et ancilla altissimi summi Regis Patris caelestis, mater sanctissimi Domini nostri Jesu Christi, sponsa Spiritus Sancti; ora pro nobis cum S. Michaele archangelo et omnibus virtutibus et omnibus Sanctis apud tuum sanctissimum dilectum Filium, Dominum et magistrum. Gloria Patri. Sicut erat» (São Francisco de Assis, Antífona do Ofício da Paixão, em: SF, pp. 409–410).

Como o Ofício da Paixão consta de sete horas e a antífona mariana era cantada duas vezes em cada hora, antes e depois do salmo, resulta que, a cada dia, a antífona mariana Sancta Maria Virgo era recitada ao menos 14 vezes! Isto fez com que seus conteúdos tivessem extraordinária difusão, sobretudo desde o tempo em que os Frades Menores se espalharam por todo o mundo.

Como se observa facilmente, a antífona mariana tem estrutura trinitária: «filia et ancilla altissimi summi Regis Patris caelestis: mater sanctissimi Domini Nostri Iesu Christi, sponsa Spiritus Sancti» (São Francisco, Officium Passionis Domini, antífona Sancta Maria Virgo, em: SF, p. 414).

Não é minha intenção estudar pormenorizadamente todos os elementos do texto, mas parece necessário deter-me por um momento no título Sponsa Spiritus Sancti (Esposa do Espírito Santo), que é o mais característico, sem entrar no mérito das controvérsias contemporâneas.

Antecedentes patrísticos e medievais

Antes de tudo, o título Sponsa Spiritus Sancti parece original. Por isso surpreende encontrá-lo nos lábios de São Francisco, que amava definir-se ignorante e iletrado («ignorans sum et idiota» (São Francisco, Carta a toda a Ordem, 39, em: SF, pp. 312, 317). Isto é: sou ignorante e simples/iletrado. Com efeito, segundo os estudiosos, o título é muito raro na tradição patrística e medieval.

O primeiro escritor cristão do Ocidente a usar expressão equivalente ao título mariano Esposa do Espírito Santo é o poeta Prudêncio (m. 405), no Liber Apotheosis: «Innuba Virgo nubit Spiritui» (32: CCL 126, p. 97. Isto é: Virgem não desposada desposa-se com o Espírito.

Sendo composição poética, a expressão não suscitou especial interesse teológico. Ainda assim, é inegável sua importância, pois também a poesia cristã é “lugar teológico”, onde se exprime e se transmite a fé do Povo de Deus.

Depois de Prudêncio, encontra-se expressão semelhante apenas no Códice Vaticano latino 5758, dos séculos VI–VII. Nele há, entre outras, a homilia De Natale Domini (Sermo 140 ter., em: CCL 24 B, pp. 854–857.

O manuscrito Vat. Lat. 5758 traz, no final da referida homilia, a expressão: «… Maria sanctae ecclesiae figuram praedicationis fuisse manifestum est, quae dispensata quidem fuerat Joseph, sed sponsa inventa est Spiritui sancto» (35: Sermo 140 ter., p. 856). Isto é: “é manifesto que Maria foi figura da santa Igreja na pregação, a qual havia sido confiada a José, mas foi encontrada esposa do Espírito Santo”).

Também o Ps. Hildefonso, identificado com Santo Ambrósio Autperto (+784) ou com São Pascásio Radberto (+860), representa figurativamente o Espírito Santo dirigindo-se a Maria com as palavras do Cântico dos Cânticos: «Veni de Libano, sponsa mea!» (Sermo 6 de Assumptione, em: PL 96, 266 B). Isto é: “Vem do Líbano, minha esposa” (Ct 4,2).

Entre os outros escritores antigos do Ocidente cristão que usaram expressões semelhantes, menciono os dois mais significativos: o Beato Amadeu de Lausanne (+1159) e Nicolau de Clairvaux, secretário infiel de São Bernardo (+1176).

O Beato bispo de Lausanne é o autor medieval que mais sublinha a relação esponsal entre o Espírito Santo e Maria até o fim do século XII. Entre as muitas citações de suas homilias marianas, destacam-se: «[Beata Virgo] Spiritui Sancto foedere maritali copulata est» (De laudibus beatae Mariae, Homilia II, em: SCH 72, p. 68). Isto é: “[A Bem-aventurada Virgem] foi unida ao Espírito Santo por vínculo marital”). E ainda: «Gaude ergo et laetare, Maria… Egredere… sponsus venit tibi, venit tibi Spiritus sanctus… Tali Sponso coniungeris, a tali marito fecundaberis» (Homilia III, em: SCH 72, pp. 102, 104). Isto é: “Alegra-te, Maria, porque conceberás do sopro. Alegra-te, porque serás encontrada tendo no ventre do Espírito Santo. Sai, porque já foi preparado o tálamo e o esposo vem a ti, o Espírito Santo vem a ti. A tal esposo te unirás, de tal marido serás fecundada”.

Menos rico em citações, mas igualmente significativo, é Nicolau de Clairvaux: «Virgo Dei Filio singulariter consecrata, specialiter sancto coniugata Spiritui» (Ps. Pedro Damião, Sermo 40 in Assumptione, em: PL 144, 719 B). Isto é: “Virgem consagrada singularmente ao Filho de Deus, especialmente unida como esposa ao Espírito Santo”.

No Oriente cristão aparecem com mais frequência expressões semelhantes e, ao menos num caso, há o título em forma explícita. A Igreja do Oriente distinguiu-se por pneumatologia mais rica, sobretudo no culto. Eis algumas citações:

Em uma homilia do século V sobre Simeão e Ana, atribuída por Migne a São Metódio de Olímpia (m. 311) (47: PG 18, 354ss.), mas hoje considerada espúria, lê-se que Maria não estava sujeita à purificação porque «Spiritu Sancto eam sibi iam ante desposante et santificante» (Sermo de Symeone et Anna, em: PG 18, 354 C). Isto é: “tendo o Espírito Santo já antes desposado para si e santificado”.

Cosme o Alfaiate (VIII séc.) afirma que São Joaquim «Spiritui Sancto Sponsam genuit» (Sermo in SS. Ioachim et Annam, em: PG 106, 1006 B). Isto é: “gerou para o Espírito Santo uma Esposa”.

Em texto atribuído a Tiago de Edessa (m. 708), na liturgia siríaco-ocidental de 26 de dezembro, invoca-se o «Espírito Santo que a escolheu como esposa» (Testi mariani primo millenio IV, p. 283).

Na liturgia siríaco-ocidental da Sexta-feira Santa, invoca-se a Mãe de Jesus como «Esposa do Espírito consolador das almas» (Testi mariani primo millenio IV, p. 289).

A liturgia siro-maronita apresenta mais vezes Maria como Esposa do Espírito Santo, provavelmente já no século XV (Por exemplo, no Proêmio das Vésperas da Assunção, Testi mariani primo millenio IV, p. 515).

Do que foi exposto, resulta que, mesmo antes do século XIII, a ideia da relação esponsal entre o Espírito Santo e Maria estava presente no Ocidente e no Oriente, mas faltava a expressão mais completa, em título explícito e invocativo, como em São Francisco. De todos os estudos iniciados, não foi possível rastrear, seja em textos litúrgicos, seja noutros, o título invocativo ‘Esposa do Espírito Santo’ para Maria”, embora haja expressões semelhantes.

Ainda sobre o título, São João Paulo II reconhece que «Maria responde ao anúncio do anjo com o amor de uma esposa capaz de responder e de adequar-se à escolha divina de modo perfeito. Por isso, sobretudo desde o tempo de São Francisco de Assis, a Igreja a chama ‘esposa do Espírito Santo’», (João Paulo II, catequese na audiência geral, 2 maio 1990, em: L’Osservatore Romano, 2–3 maio 1990, p. 4).

O título está também em Leão XIII, Divinum illud munus, 9 maio 1897, Acta Leonis 17, pp. 125–148;

Pio XII, Discorsi e radiomessaggi 8, 1947, p. 87;

São Paulo VI, Gaudete in Domino, 9 maio 1975, AAS 67 (1975) 289–322, 304.

Depois de examinar textos patrísticos e medievais até o século XII, deve-se admitir que o título Esposa do Espírito Santo, como aparece na antífona do Officium Passionis, é uma intuição de São Francisco, que demonstra sua profunda penetração teológico-sapiencial no mistério de Maria. Não se trata de fantasia excêntrica, mas de intuição solidamente fundada na Escritura (Lc 1,35; 1Cor 6,16–19) e na Tradição. Além dos autores já citados, é útil situar a expressão no contexto cultural da época. Guilherme de São Teodorico (Pseudo-Bernardo) difundia espiritualidade mística fundada na ação esponsal do Espírito Santo nas almas, Expositio altera in Cantico Canticorum, cap. II, PL 180, 519 B–520 B. Contemporâneos próximos: Guerrico d’Igny, Sermo 11 in Annuntiatione, SCH 202, pp. 138–144; Gerho de Reichersberg, De gloria, PL 194, 1105–1109).

Impressiona particularmente o equilíbrio com que o Pobrezinho consegue colocar Maria e o Filho sempre no contexto trinitário, sem cair num pancristianismo ou marianismo. Parece que tal maturidade é fruto direto de sua profunda experiência do Espírito Santo, Espírito único do Pai e do Filho, do qual Maria é a Esposa. Espírito Santo cuja vida íntima consiste em unir à humanidade o Pai no Filho, Deus-Homem, concebido pelo Espírito Santo, nascido da Virgem Maria, feita Igreja.

Mariologia da antífona Sancta Maria Virgo em São Francisco

É surpreendente o paralelo entre a imagem ideal de Maria expressa na antífona e o ideal de vida religiosa que São Francisco quis para as virgens consagradas.

Antífona: Sancta Maria Virgo (São Francisco, Antiphona: Sancta Maria Virgo, em: SF, p. 414)
e Forma vivendi S. Clarae data (São Francisco, Forma vivendi S. Clarae data, em: SF, p. 357)

As palavras e o conteúdo da Forma de vida recordam de perto a antífona mariana do Ofício da Paixão. A vocação virginal, esponsal e materna das Irmãs Pobres é uma participação, na Igreja, da maternidade da Mãe de Jesus. Este mistério da maternidade participada Francisco o intuiu, ao menos para as Irmãs Pobres, desde os primeiros anos de sua conversão. É provável que tenha chegado a isso através de Santa Clara. As palavras já citadas o deixam supor: “Porque por divina inspiração… vos desposastes com o Espírito Santo”. Na 1ª e 2ª Carta de São Francisco aos Fiéis, a maternidade espiritual é atribuída a todos os penitentes do mundo.

Observa oportunamente p. Cornélio Del Zotto que, quanto à vocação específica das Irmãs Pobres, trata-se antes de tudo de uma escolha preferencial e de uma proposta de vida, que entram na forma perfeita da vida de Maria, primeira e perfeita glorificadora do Pai, em virtude de seu ser Filha predileta. Santíssima Mãe do Filho e esposa do Espírito Santo que nela inaugura a nova forma de vida “consagrada”.

A participação do Santo no mistério de graça e fecundidade de Maria é a intuição subjacente a toda a espiritualidade franciscana. A devoção do Santo à Virgem Maria significa reviver num rito memorial perene o mistério de graça da Virgem Mãe, permitindo que essa singular graça se torne para ele e para os frades uma verdadeira forma de vida. À semelhança de Maria, São Francisco torna-se Mãe para seus frades. Frei Pacífico chamava São Francisco de “Mãe”, (cf. FF, 721) e quer que o amor materno inspire as relações fraternas: «si mater nutrit et diligit filium suum (cfr 1 Thess 2,7) carnalem, quanto diligentius debet quis diligere et nutrire fratrem suum spiritualem?», (São Francisco, Regola bollata, VI, em: SF, p. 466). Isto é: “Se uma mãe nutre e ama seu filho carnal (cf. 1Ts 2,7), quanto mais diligentemente deve alguém amar e nutrir seu irmão espiritual?”.

A dimensão essencialmente mariana da forma de vida franciscana é provada a partir do título Esposa do Espírito Santo inserido no contexto trinitário da antífona e da forma de vida de 1212–1213. Da profunda semelhança entre os dois textos e da correspondência dos títulos, resulta que já nessa data a vida trinitária “mariana” era a forma de vida fundamental, tanto para Francisco quanto para Clara.

É útil sublinhar que o modelo de vida religiosa perfeitamente evangélica ao qual São Francisco se inspira explicitamente não é apenas Cristo, mas Cristo junto de sua Virgem Mãe. Isto aparece também na Última vontade escrita por Francisco a Santa Clara: «Ego frater Franciscus parvulus volo sequi vitam et paupertatem altissimi Domini nostri Jesu Christi et eius sanctissimae matris et perseverare in ea usque in finem…» (São Francisco, Ultima voluntas S. Clarae scripta, em: SF, p. 586). Isto é: “Eu, frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza de nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e perseverar nela até o fim…”.

Além disso, a antífona mostra que a devoção mariana de São Francisco está profundamente enraizada numa espiritualidade cristocêntrica. São Boaventura dá a razão: o Pobrezinho «abraçava a Mãe do Senhor Jesus com amor inefável, porque ela tornou para nós irmão o Senhor da majestade, e por ela alcançamos misericórdia. Nela, depois de Cristo, confiando sobretudo, a constituiu advogada de si e dos seus», (São Boaventura, Legenda Maior, IX, 3, em: AF X, p. 598; FF, 1165).

Nestas palavras simples o biógrafo exprime o motivo profundo da veneração de São Francisco pela Senhora. A Encarnação de Deus era o fundamento de toda a sua vida religiosa, e ele sempre se esforçou por seguir as pegadas do Verbo Encarnado. Por isso devia tratar com o mais grato amor aquela Mulher que não só trouxe Deus à nossa condição humana, mas “tornou nosso irmão o Senhor da majestade”. Ela está estritamente unida à obra de nossa redenção e devemos agradecer-lhe se encontramos graça junto de Deus.

O constante apelo de Francisco à “visibilidade” do mistério divino, cuja expressão máxima está na Encarnação, confere também à sua devoção mariana um caráter de imediatidade que constitui seu princípio vital e fecundo. A devoção mariana de São Francisco é sem abstração, longe da ciência puramente conceitual. Baseia-se na palpabilidade do concreto e histórico, na revelação divina manifestada em acontecimentos tangíveis da história da salvação. Este elemento tornará possível a eficácia vital dessa devoção para o futuro da Igreja.

Saudação à Virgem

Também nesta oração composta por São Francisco cuja autenticidade substancial jamais foi seriamente contestada, há novidades e intuições verdadeiramente inesperadas para um «simplex et idiota» (isto é, “simples e iletrado”), como o Santo gostava de chamar-se. Eis o texto na edição crítica mais recente:

Salutatio beatae Mariae Virginis

Ave, Domina, sancta Regina, sancta Dei Genetrix, Maria,
quae es Virgo facta Ecclesia,
et electa a sanctissimo Patre de caelo,
quam consecravit cum sanctissimo dilecto Filio suo
et Spiritu Sancto Paraclito,
in qua fuit et est omnis plenitudo gratiae et omne bonum.

Ave, palatium eius.
Ave, tabernaculum eius.
Ave, domus eius.
Ave, vestimentum eius.
Ave, ancilla eius.
Ave, Mater eius.

Et omnes sanctae virtutes,
quae per gratiam et illuminationem Spiritus Sancti
infunduntur in corda fidelium,
ut de infidelibus fideles Deo faciant. (São Francisco, Salutatio Mariae Virginis, em: SF, p. 549).

Ave, Senhora, santa Rainha, santa Mãe de Deus, Maria,
tu que és Virgem feita Igreja,
e escolhida pelo santíssimo Pai do céu,
a qual ele consagrou com o seu santíssimo Filho dileto
e com o Espírito Santo Paráclito,
em ti esteve e está toda a plenitude da graça e todo bem
.

Ave, seu palácio.
Ave, seu tabernáculo.
Ave, sua casa.
Ave, sua veste.
Ave, sua serva.
Ave, sua Mãe
.

E todas as santas virtudes,
que pela graça e iluminação do Espírito Santo
são infundidas nos corações dos fiéis,
para que, de infiéis, façam fiéis para Deus
.

No breve comentário desta oração, como no da antífona do Ofício da Paixão, detenho-me apenas nas expressões de maior relevo para o objetivo do presente estudo.

Antes de tudo, convém notar o título que melhor resume a teologia mariana de Francisco em relação à Igreja. Para São Francisco, a santa Mãe de Deus é «Virgo ecclesia facta» (Virgem feita Igreja). Esta expressão parece ser realmente o tema principal, em torno do qual a oração-canto se desenvolve.

Também aqui estamos diante de um título original, ao menos na forma. A doutrina que via Maria como arquétipo e tipo ideal da santidade da Igreja era comum na patrística e no medievo, mas era bem mais raro o uso do título Virgo ecclesia facta.

Até o século XII, quem alcançou o máximo ao ilustrar a relação Maria-Igreja foi Isaac da Estrela (†1169). Em seu sermão clássico, condensa-se a herança patrística: «Unus enim totus ac solus Christus, caput et corpus…» (Sermo 51, in Assumptione B.M., em: SCH 339, pp. 202, 204; cf. Sermo 42, in Ascensione Domini, SCH 339, pp. 50, 52; cf. Sermo 45, in die Pentecostes, 3, em: PL 194, 1841). Ttrata-se do texto que afirma: Cristo é um só, cabeça e corpo. Maria e Igreja são uma mãe e muitas, uma virgem e muitas. E também cada alma fiel, por sua razão própria, é esposa do Verbo, mãe de Cristo, filha e irmã, virgem e fecunda. Assim, o que se diz universalmente da Igreja, diz-se singularmente de Maria e também da alma fiel.

Por outro lado, o único autor conhecido até agora que usou explicitamente o título mariano Virgo ecclesia facta antes de São Francisco é o Ps. Hildeberto, nome que, segundo a crítica, corresponderia a Pedro Lombardo. No sermão sobre a Assunção, ele afirma: «Virgo enim Maria Virgo facta est Ecclesia, vel quaelibet anima fidelis, quae incorruptione voluntatis casta et sinceritatis fidei virgo est» (Ps. Hildebertus, Sermones de Sanctis, 55 in Assumptione B. Mariae, em: PL 171, 609 AB). Isto é: “A Virgem Maria tornou-se Virgem-Igreja, ou qualquer alma fiel, que por incorruptibilidade da vontade é casta e, por sinceridade da fé, é virgem”.

Como se vê, Maria e cada alma fiel identificam-se com a Igreja. Ver-se-á que também no texto franciscano existe profunda relação entre Maria e os fiéis, com uma adição significativa, a ação do Espírito Santo. Reconhecemos que no título Maria é, de certo modo, a primeira Igreja, consagrada pelo Deus uno e trino» (cf. SF, p. 548). Contudo, para avaliar o sentido de Virgo ecclesia facta, é preciso determinar precisamente o significado de ecclesia na mente de São Francisco no contexto da oração.

No sentido literal simples, ecclesia significa antes de tudo a assembleia dos fiéis, isto é, o Corpo místico de Cristo, o Povo de Deus, que é o primeiro sentido da palavra desde a Escritura e a patrística até hoje.

Os edifícios sagrados são chamados “igrejas” em sentido derivado, pois são imagens da Igreja Corpo místico de Cristo, como ensina o Vaticano II: «Saepius quoque Ecclesia dicitur aedificatio Dei (cf. 1 Cor 3,9)… et praesertim templum sanctum…» (LG 6).

Este seria o sentido óbvio em Salutatio beatae Mariae Virginis se não existissem outros títulos ao lado de Virgo ecclesia facta que parecem remeter a uma igreja material: palatium, domus, tabernaculum, vestimentum. São objetos materiais aptos a conter coisas preciosas. Surge então a questão: São Francisco pensava no Corpo místico de Cristo ou numa igreja de tijolos?

A opinião mais acreditada é que ele se referia à Igreja Corpo místico de Cristo, Povo de Deus, cujo Cabeça e Salvador é Cristo, e não simplesmente a um edifício. Com efeito, os quatro títulos na Tradição patrística e medieval são símbolos da Igreja Corpo místico de Cristo. Por exemplo, (Hb 3,6): «cuius domus sumus nos» (de cuja casa somos nós). Também no Pastor de Hermas (Similitude IX) e na Carta de Barnabé 16. Orígenes identifica a Igreja como domus ex vivis lapidibus constructa (Comm. in Matth. 16,21, PG 13, 1443 C). Agostinho chama a comunidade de fiéis domus Dei (Sermo 336–338, PL 38, 1471–1479)).

O Vaticano II representa a Igreja como «domus Dei (cf. 1Tm 3,15)» e «tabernaculum Dei cum hominibus (Ap 21,3)» (LG 6). Também o Crucifixo de São Damião, ao pedir para reparar a “casa” (domum meam), entendia aquela Igreja «que Cristo adquiriu com seu sangue», como explicou São Boaventura (80: Legenda Maior, II, 1, em: AF X, p. 563).

Além disso, Francisco queria ilustrar o título Mãe de Deus, sujeito da proposição. Um edifício de tijolos dificilmente figura a maternidade, pois pode guardar o Corpo do Senhor na Eucaristia, mas não pode realizar o ato constitutivo da maternidade, que é o parto, isto é, manifestar Cristo aos homens. Sem a Igreja de pedras vivas, o Corpo místico, o edifício não pode ser mãe.

Sendo uma oração laudativa, parece lógico atribuir às palavras o sentido mais excelente. Seria pouco identificar Maria com simples igreja murária quando a palavra ecclesia significa primariamente o Corpo místico de Cristo.

Por isso, de acordo com estudiosos do franciscanismo, deve-se ver nessa expressão a identificação de Maria Santíssima com a “Igreja-Corpo místico de Cristo”. É significativo o título “Igreja nascente” com sua imagem original, sua perfeição definitiva, sua glória incomparável. E, em força dessa identificação, toda a Igreja aparece “mariana”, virgem e mãe de Cristo.

A segunda expressão a considerar é: Maria é aquela «in qua fuit et est omnis plenitudo gratiae et omne bonum» (Salutatio Mariae Virginis. Isto é: na qual houve e há toda a plenitude de graça e todo bem.

Aqui a graça de Maria é marcada por três conotações que excluem qualquer limite: temporal (fuit et est, não tem início nem fim), qualitativa (omnis) e quantitativa (plenitudo).

Beato Tomás de Celano escreveu: “circundava com amor indizível a Mãe de Jesus, porque fizera nosso irmão o Senhor da majestade. Em sua honra cantava louvores especiais, elevava preces e oferecia afetos tantos e tais que língua humana não poderia exprimir”, (Vita seconda 198, em: FF 786).

É digno de nota que a expressão pode ser lida como aprofundamento teológico do saudação angélica «cháire kecharitoméne» [chaíre kecharitoménē] (Lc 1,28).

A terceira consideração parte da última invocação: «ave mater eius et vos omnes sanctae virtutes, quae per gratiam et illuminationem Spiritus sancti infundimini in corda fidelium, ut de infidelibus fideles Deo faciatis».

A questão é compreender quem são e a quem pertencem as «sanctae virtutes» (santas virtudes). Elas pertencem à Virgem feita Igreja, as virtudes pertencem verossimilmente a Maria, apoiando-se no eius presente em alguns manuscritos, (cf. SF, p. 522) e devem ser entendidas como concretizações de sua plenitude de graça e de todo bem. Trata-se, portanto, de virtudes santas marianas, das quais participamos na Igreja. Assim, o tema principal da Salutatio aparece com mais luz: Maria é Virgem feita Igreja porque sua plenitude, seu bem e suas santas virtudes tornam-se participadas pelos fiéis pela obra do Espírito Santo.

Talvez nunca se reflita o bastante sobre esta admirável intuição mística de São Francisco de Assis, que irradia imensidade de luz sobre o mistério inefável de Maria. Mistério de plenitude de graça que se centra em Cristo e se refrata na Igreja, estendendo a maternidade divina de Maria de Cristo a todos os homens, pois nascemos filhos de Deus e de Maria mediante a maternidade da Igreja».

Depois de constatar a consistência mariológica do pensamento de Francisco, entende-se por que, na mente dos Fundadores, a espiritualidade mariana dos Franciscanos da Imaculada não é estranha à espiritualidade franciscana, mas está enraizada no coração do cristocentrismo franciscano.

Meditar o Pai Seráfico, quer dizer para nós hoje, imersos neste momento difícil, através da luminosa figura de São Maximiliano Maria, redescobrir por inteiro a essência de nossa vocação cristocêntrica, que é precisamente mariana. E ainda: então não podemos não nos sentir, além de ser por especificidade de vocação e filiação com o nosso Patriarca Seráfico, inteiramente marianos, porque totalmente cristocêntricos.

Pôr em evidência o caráter mariológico da experiência espiritual do Pai Seráfico significa estabelecer o fundamento de toda a teologia e espiritualidade mariana que marcou quase oito séculos de franciscanismo. Sempre no coração de uma doutrina autenticamente franciscana esconde-se o ideal de São Francisco… como o coração anima.

A atualidade desta perspectiva mariológica pode ser verificada nos documentos magisteriais contemporâneos. Basta considerar que a «nota trinitária e cristológica» (Marialis cultus, n. 25), «o adequado relevo à pessoa do Espírito Santo» (Marialis cultus, n. 26) e a explicitação do «intrínseco conteúdo eclesiológico» (Marialis cultus, n. 28) do culto mariano, como nos orientamentos de Paulo VI, fazem parte essencial da visão mariológica de São Francisco (cf. Paulo VI, Exortação Apostólica Marialis cultus, 2 fev. 1974).

Conclusão

À luz de tudo quanto foi exposto, torna-se evidente que a mariologia de São Francisco de Assis não é um ornamento periférico de sua espiritualidade, mas o seu coração pulsante, profundamente enraizado no mistério trinitário e na Encarnação do Verbo. A Virgem Maria, contemplada como Filha do Pai, Mãe do Filho e Esposa do Espírito Santo, não é para o Pobrezinho apenas objeto de devoção afetiva, mas o ícone vivo da Igreja, o modelo perfeito da resposta humana à iniciativa divina, a “Virgem feita Igreja” na qual resplandece a plenitude da graça.

Na Porciúncula, berço da Ordem e morada predileta do Santo, na antífona Sancta Maria Virgo e na Salutatio beatae Mariae Virginis, vemos emergir uma visão teológica surpreendentemente madura, marcada por equilíbrio, profundidade bíblica e intuição mística. Francisco não separa Maria de Cristo, nem Cristo da Igreja, nem a Igreja da ação vivificante do Espírito Santo. Tudo se articula numa harmonia trinitária luminosa, onde a Mãe do Senhor aparece como mediadora da graça, advogada dos fiéis e forma viva da existência evangélica.

Por isso, a espiritualidade franciscana é, desde as origens, radicalmente mariana, não por sentimentalismo, mas por fidelidade ao mistério da Encarnação. Maria é amada porque tornou nosso irmão o Senhor da majestade. É venerada porque, nela, Deus se fez visível, palpável, próximo. E é imitada porque sua vida expressa a forma mais pura de pobreza, obediência, fecundidade espiritual e comunhão com a vontade divina.

Nesta perspectiva, a herança de São Francisco prolonga-se organicamente na figura de São Maximiliano Maria Kolbe e na espiritualidade dos Franciscanos da Imaculada, que retomam, com ardor missionário e criatividade apostólica, o mesmo ideal: viver o Evangelho na luz da Imaculada, com radical confiança na Providência e total entrega ao Espírito Santo.

Assim, redescobrir hoje o Pai Seráfico é reencontrar a fonte viva de uma mariologia cristocêntrica, trinitária e eclesial, capaz de renovar a fé, purificar a devoção e impulsionar a missão. Num mundo marcado por incertezas, fragmentações e perdas de sentido, a figura de Maria, tal como contemplada por São Francisco, resplandece como sinal de esperança, de unidade e de fidelidade à Verdade encarnada.

Porque, no coração do franciscanismo, como no coração da Igreja, bate sempre o mesmo segredo: quanto mais profundamente marianos, tanto mais autenticamente cristocêntricos.

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