A beleza de Maria não é apenas um atributo poético, mas uma categoria teológica: um caminho privilegiado de acesso ao mistério da Virgem. Paulo VI propôs a via pulchritudinis como uma das duas grandes vias de aproximação a Maria, ao lado da via da verdade especulativa. A beleza mariana articula estética, fé e símbolo numa visão integral do ser humano.
A beleza contempla-se, não se define. Existe um primado da beleza ao qual se ordenam o bem e a verdade: enquanto a verdade e o bem não se tornarem beleza, permanecem de algum modo exteriores ao homem. Quando o ser humano atinge a verdade e o bem num possesso pleno e pacífico, surge a beleza como testemunho e revelação da perfeição alcançada. A vida espiritual é um poema de beleza vivido com Deus, e o estado de graça é estado de beleza. Deus é a própria beleza, e nada há de belo que não venha d’Ele e não seja divino.
Em Maio de 1975, dirigindo-se ao Congresso Mariológico Internacional, Paulo VI propôs uma dupla via de acesso a Maria: a via da verdade (especulação bíblico-histórico-teológica) e a via da beleza, “acessível a todos, mesmo às almas simples”. Esta segunda via parte de Maria como “criatura toda bela, espelho sem mácula, ideal supremo de perfeição que os artistas de todos os tempos procuraram reproduzir nas suas obras”, a “mulher vestida de sol em quem os raios da beleza humana se encontram com os da beleza sobrenatural”. A descoberta da beleza de Maria conduz, pelo caminho sapiencial (Sb 13,5), ao reconhecimento do próprio autor da beleza.
Hans Urs von Balthasar é o teólogo que mais aprofundou a categoria do belo na interpretação do mistério cristão. A estética teológica tem um duplo papel: descobrir Deus que se revela através da experiência sensível e deixar-se atrair pelo esplendor da sua glória numa admiração desinteressada. Aplicada a Maria, esta estética valoriza a experiência materno-espiritual de Maria em relação a Jesus, experiência que tem valor arquétipo para a Igreja. O mariologo não é apenas quem reflete sistematicamente sobre os dados marianos, mas sobretudo o mistagogo que sintoniza com a experiência religiosa de Maria e transmite o esplendor e o significado da sua pessoa a quantos são capazes de admiração e contemplação.
O pensamento simbólico precede a linguagem e o raciocínio discursivo. O símbolo “reúne” (sym-bállo) o visível e o invisível, apontando para o que não se conhece e para o mistério do ser intuído. Na mariologia, o simbolismo constitui “o coração da teologia mariana” (Boff). Ao mariologo cabe classificar os símbolos marianos, descodificá-los no seu significado original e captá-los no seu carácter de abertura ao mistério de Maria. Da tradição de Maria como nova Eva até à tipologia do Vaticano II, que vê nela a ícone escatológica da Igreja, o simbolismo mariano é um campo inesgotável que exige uma consciência poética e orante.
A Bíblia reconhece Deus como “autor da beleza” (Sb 13,3). O Salmo 45 canta a rainha como “toda esplendor”, versículo que os Padres aplicam a Maria. O Cântico dos Cânticos proclama: “Toda bela tu és… em ti nenhuma mancha” (Ct 4,7), versículo incorporado na liturgia da Imaculada Conceição. A tradição patrística aprofundou este tema: Santo Ambrósio elogia o esplendor moral “daquela que foi eleída pelo próprio Esplendor”. São João Damasceno chama Maria “toda bela, totalmente próxima de Deus”. Para von Balthasar, “a imagem de Maria é inatacável: para os próprios incrédulos ela tem o valor de uma beleza intangível”. A concentração em Maria da virgindade e da maternidade, da graça e da glória, fazem dela “uma sublime síntese de todo o mais puro ideal da criação”.
Dostoievski afirmou que “a beleza salvará o mundo”. Mas qual beleza? A beleza redimida que brota do Espírito e opera uma coincidência entre a experiência estética e a religiosa. Para Evdokimov, esta beleza “situa-se na realidade de que fala a oração dirigida à Theotokos”: a ícone de Maria reflectida no espelho das almas, conservando-as puras, reerguendo os curvados para o chão. As expressões artísticas marianas, quando atingem um certo nível qualitativo, contestam o vivido eclesial, recordam os aspectos esquecidos, antecipam as verdades que serão depois reconhecidas universalmente. A comunicação do mistério de Maria em forma artística é um caminho privilegiado e eficaz: imprime a mensagem não no frágil raciocínio, mas em todas as faculdades do homem, provocando uma experiência vital, transformante e indelével.
Aprofunde os seus estudos: explore Mariologia, Teologia Mariana, Arte e iconografia mariana e a Pós-Graduação em Mariologia.
Maria Mediatriz é um dos temas centrais da Mariologia: a cooperação materna de Maria na…
A espiritualidade mariana é a participação, com Maria e a seu exemplo, no mistério pascal…
A História da Mariologia percorre dois mil anos de fé e reflexão sobre Maria: dos…
A espiritualidade mariana é a participação, com Maria e a seu exemplo, no mistério pascal…
Maria é o primeiro e mais perfeito modelo da vida consagrada: nos votos, na contemplação,…
A virgindade de Maria (ante partum, in partu, post partum) é um facto histórico-salvífico com…