O culto a Maria é, de certo modo, tão antigo quanto a Igreja. Desde a oração Sub tuum praesidium (séc. III) até ao pontificado de João Paulo II, a veneração à Mãe do Senhor acompanhou ininterruptamente a vida da comunidade cristã, assumindo expressões dadas pelas condições culturais e religiosas de cada época. O Concílio Vaticano II e a exortação apostólica Marialis Cultus (Paulo VI, 1974) renovaram profundamente a compreensão teológica e pastoral do culto mariano, ancorando-o na única liturgia cristã e guiando o seu aggiornamento.
O fundamento do culto a Maria assenta num triplo título. Primeiro, a maternidade divina: Maria é a Mãe do Filho de Deus encarnado, e este título, definido dogmaticamente no Concílio de Éfeso (431), justifica uma veneração que excede a devida a qualquer outro santo. Segundo, a associação ao mistério de Cristo: Maria cooperou com o Redentor ao longo de toda a história da salvação, da Anunciação à Cruz, de modo único e eminente. Terceiro, a santidade excelsa alcançada pela Serva do Senhor, formada pelo Espírito Santo na total conformidade com o Filho. Estes três elementos constituem a raiz da veneração que a Igreja exprime a Maria desde os seus primórdios. O culto a Maria é essencialmente diverso do culto de adoração devido às Pessoas da Santíssima Trindade: é culto de veneração (hiperdulía) dirigido à criatura mais elevada, de modo subordinado e ordenado à glorificação de Deus. A sua finalidade última é que, “honrada a mãe, o Filho seja devidamente conhecido, amado e glorificado” (LG 66).
O culto mariano desenvolveu-se progressivamente. Nos primeiros séculos, a presença de Maria no culto litúrgico primitivo é atestada pelas fórmulas do símbolo baptismal, da regula fidei e da anáfora eucarística. A oração Sub tuum praesidium (séc. III) é a mais antiga oração mariana directa conhecida e reflecte já uma fé sólida na intercessão da Mãe de Deus. A definição de Theotokos no Concílio de Éfeso (431) provocou uma explosão do culto mariano no Oriente e no Ocidente. Na época patrística surgem as primeiras imagens, os primeiros relatos de aparições e as primeiras devoções organizadas. No medievo, o culto mariano atingiu uma riqueza extraordinária: Rosário, Salve Rainha, Angelus, festas marianas, santuários, ordens religiosas dedicadas a Maria. A era moderna viu a definição de novos dogmas marianos (Imaculada Conceição, 1854; Assunção, 1950) e o florescimento das congregações e movimentos marianos. O Vaticano II iniciou uma fase de renovação crítica e de aprofundamento teológico.
A Marialis Cultus (1974) identificou quatro notas que devem caracterizar a devoção a Maria na Igreja de hoje. A nota trinitária lembra que o culto mariano é parte do único culto cristão, que é culto ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Todo o honor a Maria deve resolver-se, em última instância, em louvor ao Deus trino que a elevou à sua excelsa dignidade. A nota cristológica sublinha que em Maria “tudo é relativo a Cristo e de Ele depende” (MC 25): a devoção mariana deve fazer ressaltar o laço indissolúvel que une a Mãe ao Salvador. A nota pneumatológica convida ao aprofundamento do mistério da acção do Espírito Santo em Maria e na Igreja: o Espírito que adombrou Maria no momento da Incarnação continua a agir na Igreja. A nota eclesial recorda que Maria ocupa na Igreja, “depois de Cristo, o lugar mais alto e o mais próximo de nós” (LG 54): o culto mariano deve reflectir a sua inserção no mistério da Igreja, sua membro eminente, tipo e modelo.
A mesma exortação apostólica propõe quatro orientamentos para o aggiornamento do culto mariano. O orientamento bíblico pede que a devoção a Maria seja impregnada dos grandes temas da mensagem cristã tal como a Escritura os elabora, evitando elementos puramente anedóticos. O orientamento litúrgico afirma o primado da liturgia como “regra de ouro da piedade cristã” (MC 23) e pede que as práticas devocionais, como o Rosário e o Angelus, sejam harmonizadas com o culto litúrgico. O orientamento ecuménico exige que o culto mariano evite tudo o que possa criar malentendidos com os irmãos separados, afirmando a esperança de que a veneração à Virgem seja “ponto de encontro para a união de todos os crentes em Cristo” (MC 33). O orientamento antropológico pede que Maria não seja apresentada apenas como modelo de recolhimento passivo, mas como mulher que “aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus” (MC 35): a mulher corajosa do Magnificat, a mãe forte junto da Cruz, o espelho das aspirações do homem contemporâneo (MC 37). Equilibrando estes orientamentos, o culto a Maria torna-se itinerário de crescimento espiritual autêntico, evitando tanto as exagerações triunfalistas como as reduções racionalistas.
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