«Quid habes quod non accepisti»: o dom recebido, o sábado e o Magnificat

Quid autem habes quod non accepisti? Si autem accepisti, quid gloriaris quasi non acceperis? […] Dominus est Filius hominis etiam sabbati.
1Cor 4,7 e Lc 6,5
O sábado da Semana XXII do Tempo Comum fecha esta sequência de leituras de Coríntios com a pergunta que resume todas as anteriores, «que possuis que não tenhas recebido?» (v.7). Paulo escreve-a a uma comunidade que se comporta como se já tivesse chegado, e contrapõe-lhe a lista humilhante daquilo que os apóstolos são aos olhos do mundo. Lucas, por sua vez, mostra discípulos famintos a debulhar espigas ao sábado e Jesus a declarar-se Senhor do sábado. Dois textos, uma só questão: quem manda na lei, e o que fazemos com o que recebemos de graça.
I. A primeira leitura: 1Cor 4,6b-15
A pergunta central é de uma limpidez que dispensa comentário e por isso mesmo o exige: «que possuis que não tenhas recebido? E, se o recebeste, porque te orgulhas, como se não o tivesses recebido?» (v.7). Todo o orgulho espiritual assenta sobre um esquecimento, o da proveniência. Não é preciso negar que se recebeu. Basta deixar de o lembrar, e o dom converte-se em mérito no espaço de uma geração.
Segue-se uma das passagens mais amargamente irónicas de Paulo: «já estais saciados, já estais ricos! Sem nós vos tornastes reis!» (v.8). E depois o contraste com o estado real dos apóstolos, que ele descreve sem nenhum embelezamento, expostos «no último lugar, como homens condenados à morte» (v.9), com fome, sede, mal vestidos, sem morada certa, a trabalhar com as próprias mãos, tratados como «o lixo deste mundo» (v.13). O que impede este trecho de ser uma queixa é a linha que o atravessa: «insultam-nos e abençoamos, perseguem-nos e suportamos» (v.12). E o que impede que seja humilhação é o motivo declarado no fim: «não é para vos envergonhar que vos escrevo estas palavras, mas para vos advertir como a filhos caríssimos» (v.14). Paulo não fala como quem cobra. Fala como pai.
II. O evangelho: Lc 6,1-5
A cena é minúscula e a questão é enorme. Os discípulos, com fome, colhem espigas e debulham-nas com as mãos num sábado, o que a interpretação corrente equiparava a trabalho de colheita e de moagem. A objeção dos fariseus não é inventada: «porque fazeis o que não é permitido ao sábado?» (v.2).
Jesus responde com um precedente bíblico, David e os pães da proposição (v.3-4), reservados aos sacerdotes e comidos por leigos famintos sem que a Escritura o condene. O argumento estabelece que a necessidade humana real tem precedência sobre a observância ritual, o que já era doutrina admitida por parte da tradição rabínica. Mas a conclusão vai muito além do precedente: «o Filho do homem é Senhor do sábado» (v.5). Isto não é uma flexibilização da lei, é uma afirmação sobre quem é aquele que fala. O sábado é instituição divina, e apenas quem tem autoridade divina pode declarar-se seu Senhor. Os fariseus perceberam bem, e é por isso que a hostilidade cresce a partir daqui.
III. O dom recebido e a lei recebida
As duas leituras tocam-se num ponto que não é evidente à primeira vista. A lei também é um dom recebido, e o mesmo esquecimento que transforma a graça em mérito transforma a lei em propriedade. Os coríntios apropriaram-se dos dons espirituais e passaram a exibi-los. Os fariseus apropriaram-se do sábado e passaram a administrá-lo como se fosse deles.
O sábado tinha sido dado como libertação, memória de um povo que deixara de ser escravo e podia finalmente descansar. Ao ser guardado contra homens com fome, tinha-se voltado contra a sua própria finalidade. É o destino de toda a norma que perde a ligação com a razão pela qual foi dada. E note-se que Jesus não a abole nem a declara indiferente. Coloca-se acima dela como seu Senhor, o que é uma afirmação muito mais exigente do que a simples dispensa.
IV. Maria: «fez em mim maravilhas»
A pergunta de Paulo, «que possuis que não tenhas recebido?», encontra em Maria a resposta mais perfeita que uma criatura pode dar, e essa resposta já estava escrita antes da carta. Chama-se Magnificat. Diante do elogio de Isabel, ela não recusa a grandeza nem a assume, devolve-a: «o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas» (Lc 1,49). Reconhece o dom, nomeia o doador, e situa-se com exatidão entre os dois.
Aquilo que a preserva do orgulho não é modéstia psicológica. É lucidez sobre a proveniência. Ela sabe que a sua condição é inteiramente recebida, e por isso pode dizer da própria pequenez, «olhou para a humildade da sua serva» (Lc 1,48), sem falsa modéstia e sem vaidade. É este equilíbrio raro que faz do Magnificat o cântico de quem recebeu tudo e não confundiu o dom com um título.
Quanto à lei, Lucas mostra Maria a cumpri-la sem a transformar em posse. Levou o Filho ao Templo para a apresentação segundo a Lei de Moisés (Lc 2,22-24), e ofereceu o par de rolas ou os dois pombinhos, que era a oferta prevista para os pobres. Observou o preceito na forma que a sua condição permitia, sem exibição e sem dispensa. A Igreja reconhece nela aquela que se distingue entre os humildes e pobres do Senhor, que d’Ele esperam confiadamente a salvação (LG 55). Não é a mulher que domina a lei nem a que a despreza. É a que a vive como quem recebeu.
O sábado da Semana XXII deixa portanto uma pergunta que serve de exame para o fim de semana. Aquilo que temos de melhor, dons, formação, práticas de piedade, continua a ser lembrado como recebido? Ou já se tornou aquilo que exibimos e com que medimos os outros?
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