Mary, the mother who hears the word on the cross

Maria, a mãe que escuta a palavra na cruz
# A escuta contemplativa de Maria sob a cruz: Jo 19,25-27, a espada de Simeão (Lc 2,35) e a co-participação mariana na paixãoA passagem graciosa da fé em Jerusalém é repleta de mistérios. Jerusalém é a cidade da fé por excelência: é uma cidade santa porque simboliza a eleição divina e a aliança, duas experiências vividas na conjunção da graça e da fé. A fé de Jerusalém está na sua cidade: tem o mesmo nome (Filha de Sião), repete os mesmos papéis: a de esposa e a de mãe.Nas colinas do Gólgota em Jerusalém, Jesus completa sua Via Sacra e Maria sua peregrinação de fé: “Somente esta, de fato, é a sua tarefa: ir de Nazaré ao Gólgota”. A Virgem, sob a Cruz, guarda em silêncio toda a existência do Filho: ela silencia no Evangelho de Lucas no momento do seu nascimento e no Evangelho de João no momento da sua morte.## Maria e o Silêncio ContemplativoNo coração da Hora, Maria não grita, em coro com os outros: “Por que fizeste isso connosco?” (Mt 27,42). A fé acreditou mesmo sem que o Filho descesse da Cruz, indo além da fenomenologia do martírio que cobria a profecia sobre a realeza, a ela feita no dia da Anunciação (cf. Lc 1,32).Maria não pergunta mais a Jesus: “Filho, por que fizeste isso connosco?” (Lc 2,48), como disse quando, depois de o ter perdido, o encontrou no templo. Ela, como discípula profunda do Filho Mestre, aprendeu agora que o Filho deve cuidar antes de tudo dos assuntos do Pai (cf. Lc 2,49). Maria, fazendo uma escolha teológica, além de ser humanamente sábia, cala-se e seu silêncio “consiste amorosamente na imolação da vítima que engendra”, como afirma um texto do Vaticano II.> “Na vida pública de Jesus, Sua mãe aparece duma maneira bem marcada logo no princípio, quando, nas bodas de Caná, movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres. Durante a pregação de Seu Filho, acolheu as palavras com que Ele, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (cfr. Mc 3:35 e paral. Lc 11:27-28). Coisa que ela fazia fielmente (cfr. Lc 2:19 e 51). Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (cfr. Jo 19:25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera. Finalmente, Jesus Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo, com estas palavras: mulher, eis aí o teu filho (cfr. Jo 19:26-27)” (Lumen gentium, 58).## Sob a Cruz: Escuta OmnicompreensivaMaria sob a Cruz não se calou apenas: calou-se escutando. Os Evangelhos não lhe atribuem nem uma palavra, mas uma escuta total. Ao ativar a eficaz e esplêndida linguagem não-verbal da escuta, Maria ensina não só a virtude, mas os critérios existenciais e as leis da história da salvação.### Sete Lições de Escuta:1. **Coragem**: Não se foge do último inimigo (1 Cor 15:26). 2. **Fidelidade**: Nenhum homem é abandonado, muito menos um filho, no momento terminal. 3. **Fé**: Não se afasta da situação limite da morte porque não é o fim de tudo. 4. **Consistência**: Ao negar o encontro com a morte, nega-se o sentido da vida e o que foi realizado em termos de libertação e promoção. 5. **Seriedade**: Sob a Cruz Maria não discute, mas confia em silenciar a experiência de testemunhar a morte de seu Filho, com o que isso significa para ela. 6. **Paciência**: Sob a cruz Maria não reclama e não contesta aqueles que crucificam o Filho. 7. **Paradoxo**: No coração da Hora aceita o perdão como princípio de vida.Maria aparece, portanto, sob a Cruz como a bela cordeira que está ao lado do Cordeiro imolado. Ela que gerou a vítima pascal e que se ofereceu com ele. O cordeiro silencioso, ao lado do Cordeiro “que não abre a boca” (Is 53:7).O silêncio de Maria é a imitação do silêncio de Cristo paciente e moribundo. A lei tornou-se a Palavra, o mandamento a graça, a figura a realidade, o cordeiro o Filho. Este é o cordeiro sem voz. Este é aquele que nasceu de Maria, o cordeiro puro. Que foi sacrificado à noite e ressuscitou dos mortos.## As Sete Palavras de Jesus na CruzMaria consumou sua experiência de discípula. Ela estava aos pés do Mestre, que agora subiu à cadeira mais alta do mundo, para escutá-lo até ao último suspiro. Assim escutou suas últimas sete palavras, com as quais marcou sua agonia messiânica:• **Primeira palavra**: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34). Ninguém, nem debaixo da Cruz, naquele dia, nem depois no desenrolar de toda a história da salvação, foi acolhido com mais abertura de coração e compreendido com mais inteligência de fé do que Maria. Como mãe em cujo seio se formou a paz, que é Cristo (cf. Ef 2:14), participou no evento do perdão máximo que foi celebrado na Cruz. A Virgem-Mãe consentiu na experiência do perdão do Crucificado, apenas explicitado pela palavra dirigida ao bom ladrão (cf. Lc 23:43), pois Cristo na Cruz exerce a caridade do perdão numa perspectiva universal e escatológica. Maria, maternalmente, permite a celebração deste perdão com a linguagem objetiva do silêncio.O perdão cria uma interrupção entre os elos da cadeia lógica do pecado e do castigo correlato, introduzindo, no intervalo entre um e outro, a realidade recriadora e curativa da misericórdia.Maria está, consentindo e participando, no lugar onde se celebra o perdão como lei da nova criação que nasce sob a árvore da Cruz. O evento do Perdão da Cruz envolve a Cordeira na sua maternidade. Por isso, o perdão é uma realidade materna. Como podemos ver, Maria é “uma mulher de perdão” em um sentido muito forte e essencial: ela colabora, na escuta da palavra, para inserir o princípio do perdão na história humana. Ajuda a escrever a Palavra do perdão como lei da vida no céu da história da salvação. Ao participar nesta transformação da história, Maria comprometeu sua maternidade virginal, porque exprimiu a confiança típica da mãe ao entregar-se ao Filho: arriscou totalmente a sua vida de Mãe na palavra e na ação do Filho, apesar da evidência contrária manifestada no fracasso da Cruz.

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