A celebração do Natal do Senhor prolonga-se na festa da Epifania, do Batismo do Senhor e da sua Apresentação no templo. Com esta última data encerra-se, idealmente, o tempo natalino segundo o esquema mistérico do Natal e segundo a antiga tradição de Jerusalém, testemunhada por Egéria. No ordenamento atual do Calendário litúrgico, depois da celebração do Batismo do Senhor inicia-se o Tempo Comum, nos dias de semana e nos Domingos “ao longo do ano”.
Já esta proposta nos faz tocar a complexidade do Ano litúrgico. O Ocidente celebra na Epifania a adoração dos Magos, ainda que não de forma exclusiva. O Oriente, ao contrário, celebra o Batismo do Senhor, agora retomado de modo solene pela liturgia romana no domingo depois da Epifania. Mas há ainda a Apresentação do Senhor no templo, celebrada quarenta dias depois da solenidade do Natal.
Raízes históricas
A festa da manifestação (epipháneia) do Senhor, celebrada em 6 de janeiro, é de origem oriental. Os gnósticos a celebravam para indicar que, no Batismo de Jesus, o Cristo-homem se torna Cristo-Deus. No Evangelho dos Ebionitas diz-se que, ao subir do rio, uma grande luz resplandeceu sobre ele, na manifestação de Deus.
A ideia de uma epipháneia da Santíssima Trindade é correta e corresponde aos textos evangélicos que atestam unanimemente o Batismo de Cristo.
No século III, Epifânio a menciona. Também Efrém, o Sírio, a considera festa da vinda do Senhor, do seu nascimento e da perfeita encarnação. Isso significa que, no início, no Oriente, esta festa compreendia também a celebração do nascimento do Salvador.
Por volta do fim do século IV, a festa existe em Antioquia com o nome de “ta hagia phōta”, as santas luzes. A atenção predominante recai sobre a manifestação misteriosa que ocorre no Batismo do Senhor por parte do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e sobre a santificação das águas por Cristo. É o dia de batismos.
A peregrina Egéria fala-nos desta festa em Belém e em Jerusalém entre 381-384 (Diário de viagem, IX,1 «Pela mais feliz das coincidências para nós, aconteceu que, no dia em que chegámos à etapa de Arábia, era a véspera do dia santíssimo da Epifania; nesse mesmo dia, devia celebrar-se a vigília na igreja»).
Na raiz da data escolhida para esta celebração encontramos uma festa pagã da luz celebrada no Egito desde tempos antiquíssimos em honra de Aion, o “tempo”. Isso se fazia no momento culminante do solstício de inverno, cerca de duas semanas depois de 25 de dezembro. Em Alexandria era também festejada a deusa Kore, a Virgem que havia trazido o Sol-luz. O tema da luz e o da água — que naquele dia era buscada em rios e fontes — está, portanto, ligado também a um elemento cósmico celebrado pela religiosidade pagã.
A festa da Epifania é celebrada em Roma desde o fim do século IV. Porém, nela prevalece a comemoração da manifestação do Senhor às nações, na adoração dos três Magos guiados pela estrela. Contudo, tanto em Roma quanto em outros lugares, como na Espanha, há acúmulos de significados, como o Batismo do Senhor, as bodas de Caná (temas ainda presentes nos hinos e antífonas) e até mesmo a multiplicação dos pães. A imagem da adoração é muito antiga: encontra-se nas catacumbas e nos mosaicos de Ravena, onde são indicados os nomes dos três personagens.
No ordenamento atual do Calendário litúrgico, a Epifania conserva o seu sentido característico de uma manifestação às nações por meio de Cristo, que é a luz do mundo.
A festa do Batismo do Senhor, celebrada no domingo que segue a Epifania, adquiriu maior relevo na liturgia romana, tanto pelos belos textos da missa e do ofício divino, quanto também pelas leituras patrísticas do tempo depois da Epifania, que recuperam algumas homilias orientais sobre o mistério do Batismo de Jesus.
Estamos diante de uma integração oriental-ocidental nos textos e na espiritualidade litúrgica deste tempo.
A celebração litúrgica
A PALAVRA PROCLAMADA
Na festa romana da Epifania, dá o tom a proclamação do Evangelho de Mateus sobre a adoração dos Magos (Mt 2,1–12); antigamente ritualizava-se a prostração durante o canto do Evangelho para tornar mais vivo o mistério proclamado.
Este texto evangélico adquire todo o sentido do mistério à luz do profeta Isaías (Is 60,1–6), que canta a glória de Jerusalém inundada de luz, e do Salmo 71, real e messiânico; estes dois textos estão na base da compreensão da narração evangélica.
Paulo (Ef 3,2–6) oferece a teologia da manifestação às nações, que depois é retomada nas orações e no prefácio da solenidade.
Na celebração do Batismo do Senhor, leem-se textos unitários sobre a unção de Jesus por meio do Espírito (Is 42,1–4.6–7), e sobre o testemunho dos Apóstolos a respeito do episódio do Batismo (At 10,34–38). Nos diversos ciclos proclama-se o Evangelho do Batismo segundo os três Sinóticos.
A ORAÇÃO DA IGREJA
Nos textos das orações da missa inserem-se muitos temas próprios do mistério celebrado: a luz e a glória da revelação; o significado das oferendas e da troca de dons; o compromisso de vida e a espera da manifestação definitiva do Senhor.
A Epifania tem também o seu prefácio próprio e textos apropriados no Cânon romano.
No Batismo do Senhor, as orações retomam os temas da manifestação de Cristo no Jordão e do nosso batismo; do Cordeiro que lava o mundo de toda mancha; da escuta e do seguimento de Jesus para nos tornarmos seus discípulos.
Muito belo é o prefácio centrado no mistério do Batismo de Jesus, sinal do batismo da Igreja, e da consagração do Servo com a unção do Espírito para a sua missão como sacerdote, profeta e rei.
NOTA SOBRE A SANTA TEOFANIA NO RITO BIZANTINO
A celebração da Epifania no Oriente, no rito bizantino, é a festa do Batismo de Jesus, com uma rica teologia que abrange a manifestação da Trindade, a unção de Cristo, o tema do batismo dos cristãos, a santificação do cosmo e das águas para capacitá-las ao mistério batismal, a descida que preludia a Paixão e a descida aos infernos. Ainda hoje se abençoa solenemente a água ao fim da divina liturgia, com o solene texto de Sofrônio de Jerusalém (século VII). Também se abençoam as fontes e os rios. É a santificação do cosmo.
Transcrevemos um trecho do texto de Sofrônio, no qual ressoa o “Hodie” litúrgico da salvação, que se torna atual e eficaz:
«Hoje a graça do Espírito Santo desce sobre as águas em forma de pomba. Hoje as ondas do Jordão foram transformadas em remédio pela presença do Senhor. Hoje os pecados dos homens são apagados nas águas do Jordão. Hoje o Paraíso se abre diante da humanidade e o Sol da Justiça resplandece sobre nós. Hoje nós obtivemos o Reino dos céus… é a festa do Senhor que hoje vemos no Jordão… e dá ao mundo o batismo da salvação».
O ícone do Batismo do Senhor é muito expressivo. Ele se encontra também em Ravena, nos dois batistérios, em preciosos mosaicos das duas cúpulas, com os Apóstolos ao lado. Nas representações iconográficas, encontra-se Cristo que entra no rio Jordão e ali se encontra como numa cavidade. A água é transparente e deixa ver o seu corpo.
Espiritualidade mariológica da Epifania
Resumindo algumas linhas de teologia e de espiritualidade que, aliás, estão em continuidade doutrinal com as do Natal, podemos assim oferecer alguns apontamentos:
1. DA LUZ DE CRISTO À ILUMINAÇÃO BATISMAL
Na Epifania e no Batismo do Senhor prevalece o tema da luz, tão ligado às origens evangélicas e às páginas destas festas das santas luzes. A manifestação do Senhor é gloriosa porque a glória, de que a estrela que guia os Magos é sinal, repousa onde Cristo está presente e é adorado. A glória de Deus, que na profecia envolve Jerusalém como uma nuvem, agora repousa na humildade da cabana onde jaz o Menino com a Mãe. A luz revela a todos a realidade de Cristo, que é Lumen Gentium (Luz das nações). A luz e a glória evocam a fé, tão bem expressa pelos Magos, que buscaram e encontraram. A fé torna-se compromisso de vida para chegar à contemplação da glória.
Os Magos são, segundo o hino Akáthistos, os primeiros iluminados, primícias de todos os gentios chamados a compartilhar a graça da iluminação batismal que conduz à contemplação do mistério escondido em Cristo Jesus.
Cristo, no Jordão, é o Iluminado e o Iluminador, que oferece àqueles que o acolhem a luz batismal.
2. A OFERTA DOS POVOS AO REI, SACERDOTE E PROFETA
A liturgia interpreta em sua oração o sentido dos dons oferecidos a Cristo pelos Magos: ouro como a um Rei, incenso como a um Sacerdote, mirra para a sua sepultura.
No Batismo, Jesus é plenamente revelado pelo Espírito com a unção sacerdotal, profética e real, da qual participa também o cristão, ungido com a fé (segundo uma antiga temática da liturgia siro-antioquena) e com o dom do Espírito.
Os dons dos fiéis são trocados pelo dom de Cristo. Na celebração eucarística, o pão e o vinho são transformados em Cristo, dom do Pai.
Na adoração dos Magos encontramos uma atitude cultual de profundo respeito, adoração e doação, que preludia e antecipa o culto em Espírito e verdade dos batizados.
3. O MISTÉRIO DA DIVINO-HUMANIDADE
Como no Natal, na Epifania e no Batismo exprime-se a graça do chamado à participação na natureza divina, da recriação segundo a imagem do Primogênito. O prefácio da Epifania, em continuidade com o do Natal, fala da assunção da natureza mortal e do dom da imortalidade comunicada. Expressões semelhantes encontram-se na coleta do Batismo do Senhor.
4. DA FÉ AO TESTEMUNHO: IGREJA MISSIONÁRIA
O sentido dinâmico da fé exprime-se no chamado a dar testemunho, a anunciar a todos a salvação experimentada, como os Magos no seu retorno de Belém. A Igreja confia à oração de intercessão o seu irradiar Cristo, Luz do mundo, tornando-se nele também Luz das nações para a salvação de todos os povos da terra, idealmente representados pelos Magos em Belém.
O Batismo de Cristo ilumina, como início de sua missão de anúncio do Reino, a vocação do cristão ao apostolado missionário. A Epifania é a festa da Igreja missionária.
5. A APRESENTAÇÃO DO SENHOR NO TEMPLO: O ENCERRAMENTO DO CICLO NATALINO
Em Jerusalém, quarenta dias depois da Epifania, que então celebrava o Natal do Senhor, realizava-se a festa do Encontro, ou Hypapante. É a festa da Apresentação do Senhor, que hoje se celebra quarenta dias depois de 25 de dezembro, Natal do Senhor.
É a grande festa da entrada de Jesus no templo, de sua oferta como primogênito, de sua subida a Jerusalém, da revelação como “Luz das nações” e também como sinal de contradição. O lucernário inicial da festa ritualiza as palavras do ancião Simeão.
Maria tem um papel específico nesta festa como Mãe a quem é anunciada a espada de dor, Virgem oferente.
Idealmente, esta festa se coloca ao fim do ciclo natalino e já é uma profecia da Paixão do Primogênito, em estreita relação, portanto, com o mistério pascal na dupla expressão de imolação e glorificação de Cristo.
Um texto bizantino da festa une idealmente a Encarnação e a Paixão, o cumprimento das Escrituras:
“Ave, cheia de graça, Virgem Mãe de Deus: de ti nasceu o Sol da Justiça, Cristo nosso Deus, que ilumina os que estão nas trevas. Alegra-te também tu, justo ancião, tomando nos braços o libertador de nossas almas, que concede a todos a ressurreição.”
O ícone da Apresentação do Senhor no templo, que se encontra também no ciclo natalino do Arco do Triunfo de Santa Maria Maior, apresenta com simplicidade e expressividade este mistério, que recorda o Natal e o projeta para a Páscoa.
Deste modo, o Natal se reconecta teológica e espiritualmente à Páscoa do Senhor, que é raiz e fundamento de todo o Ano litúrgico.
O Rosário da Virgem Maria (Rosarium Virginis Mariae), que ao sopro do Espírito de Deus se foi formando gradualmente no segundo Milénio, é oração amada por numerosos Santos e estimulada pelo Magistério. Na sua simplicidade e profundidade, permanece, mesmo no terceiro Milénio recém iniciado, uma oração de grande significado e destinada a produzir frutos de santidade. Ela enquadra-se perfeitamente no caminho espiritual de um cristianismo que, passados dois mil anos, nada perdeu do seu frescor original, e sente-se impulsionado pelo Espírito de Deus a « fazer-se ao largo » (duc in altum!) para reafirmar, melhor « gritar » Cristo ao mundo como Senhor e Salvador, como « caminho, verdade e vida » (Jo 14, 6), como « o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização
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