Ex penuria sua omnia: Maria e o dom total de si mesma

Haec autem de penuria sua omnia quae habuit misit, totam victum suum.
Mc 12,44
O episódio da viúva que oferece dois óbolos no gazofilácio (Mc 12,41-44) é um dos mais breves e mais densos do Evangelho de Marcos. Jesus observa os ricos que deitam muito no tesouro e, depois, a viúva pobre que deita «dois óbolos, que fazem um quadrante», a menor moeda corrente. E comenta: «Esta viúva pobre deitou mais do que todos os outros. Porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua pobreza, deitou tudo o que tinha, todo o seu sustento». A mariologia encontra nesta viúva uma das imagens mais comoventes de Maria: ela que deu «todo o seu sustento» a Deus, sem reserva, sem calcular o custo. Toda a teologia do dom integral se condensa nesta fórmula latina: Ex Penuria Sua.
I. Ex penuria sua: a viúva e os ricos, dois modos de dar
Ex Penuria Sua – destas duas palavras evangélicas brota toda a teologia do dom integral. O contraste que Marcos estabelece é radical: os ricos deitam do que lhes «sobra» (ek tou perisseuontos). A viúva deita do que lhe «falta» (ek tēs hysterēseōs). O critério de avaliação de Jesus não é a quantidade absoluta, é a proporção e a disposição interior. Os ricos deram muito em termos absolutos, mas o que deram era «extra», não afectava a sua segurança, o seu conforto, a sua liberdade. A viúva deu pouco em termos absolutos, mas o que deu era «tudo», o que afectava a sua sobrevivência.
Este princípio de avaliação, não a quantidade mas a totalidade, é um dos mais radicais do Evangelho. Na lógica humana normal, o que conta é o resultado quantificável. Na lógica do Evangelho, o que conta é a disposição do coração: quanto é que este dom representou para quem o deu? Dois óbolos que representam «tudo» valem mais, do ponto de vista do amor, do que grandes somas que representam «nada» da perspectiva da perda.
A tradição espiritual identificou no episódio da viúva o modelo da «pobreza evangélica» que Jesus proclamou no Sermão da Montanha (Mt 5,3): «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus». A pobreza evangélica não é a miséria involuntária, é a liberdade voluntária que não se apega aos bens como garantia da própria segurança. A viúva que dá «tudo o que tem» é «pobre em espírito» no sentido mais pleno: ela não tem mais nada em que se apoiar senão Deus.
A localização deste episódio em Marcos é deliberada: imediatamente antes, Jesus criticou os escribas que «devoram as casas das viúvas» (Mc 12,40). Imediatamente depois, anuncia a destruição do Templo (Mc 13,1-2). A viúva que oferece «tudo» num sistema que «devora» os pobres é uma crítica implícita do sistema religioso que deveria protegê-la. E a destruição do Templo que se segue sugere que o culto autêntico não são os grandes donativos dos ricos, é a oferta total dos pobres que Jesus exaltou.
II. Maria como anawim: a pobre de javé
Ex Penuria Sua – esta expressão evangélica encontra em Maria a sua mais alta concretização: a Virgem dá tudo porque tudo recebeu como graça.
O conceito veterotestamentário dos Anawim, os «pobres de Javé», os humildes que esperam tudo de Deus e nada dos seus próprios recursos, é central para compreender Maria. O Magnificat (Lc 1,46-55) é o cântico dos Anawim por excelência: «Olhou para a humildade da sua serva (…) despediu os ricos de mãos vazias» (Lc 1,48.53). Maria identifica-se com os «humildes» que Deus exaltou e com os «pobres» que Deus encheu de bens. O «ex penuria sua» da viúva é a forma evangélica desta condição dos Anawim.
A «pobreza» de Maria não é apenas económica (embora a família de Nazaré fosse de condição modesta, como o oferecimento de pombas na Apresentação indica, Lc 2,24, cf. Lv 12,8). É a pobreza espiritual dos Anawim: a consciência de que tudo o que se é e tem vem de Deus, e a disponibilidade de tudo devolver a Deus quando ele pede. Esta pobreza espiritual é o que a viúva dos dois óbolos exprime: ela não tem segurança humana em que se apoiar, a sua única segurança é Deus.
A Anunciação mostra Maria como Anawim: quando o anjo lhe anuncia o projecto de Deus, ela não tem recursos humanos com que responder, não tem a protecção do marido (ainda não vive com José), não tem status social que a proteja de uma gravidez pré-matrimonial, não tem poder que a defenda da incompreensão. Ela tem «dois óbolos», a sua fé e o seu «fiat», e os oferece a Deus sem reserva. Esta oferta total é o paradigma de toda a espiritualidade mariana: dar a Deus «tudo o que se tem», mesmo quando «tudo o que se tem» parece muito pouco.
A conexão entre a viúva dos dois óbolos e Maria foi reconhecida por vários exegetas patrísticos e medievais. Ambrósio de milão, num dos seus comentários ao Evangelho de Lucas, comparou explicitamente o «totam victum suum» da viúva ao «fiat» de Maria: em ambos os casos, é a totalidade da entrega que define a grandeza do gesto, não a sua aparência exterior. A viúva deu dois óbolos. Maria deu um «fiat». Mas em ambos os casos, o que foi dado era «tudo o que tinha».
III. O sábado como dia de Maria: memória da oferta total
O sábado mariano celebra precisamente a lógica do Ex Penuria Sua: a pobreza confiante que se entrega inteiramente ao mistério de Deus.
O sábado mariano celebra precisamente a lógica do Ex Penuria Sua, da pobreza que se entrega inteiramente. O Sábado, que a liturgia dedica de modo especial a Nossa Senhora ao longo do Tempo Comum, tem uma ressonância bíblica rica: o Sábado é o dia do «repouso em Deus» (Gn 2,2-3), o dia em que o ser humano, parando de trabalhar, reconhece que não é o Criador mas a criatura. Esta dimensão de «repouso em Deus» que o Sábado celebra tem em Maria a sua expressão humana mais perfeita: ela que se «repousou» em Deus com o seu «fiat» é a que mais completamente realizou o espírito do Sábado. No silêncio sabático ecoa o «ex penuria sua omnia» como liturgia mariana do dom total.
A devoção dos cinco Primeiros Sábados, proposta pela mensagem de Fátima (1917), tem este fundo litúrgico e teológico: o Sábado como dia de reparação e de devoção ao Imaculado Coração de Maria. A prática de cinco primeiros sábados em espírito de reparação é a forma devocional concreta de «dar a Maria o que é de Maria», reconhecer o seu papel na economia da salvação e corresponder com a fidelidade que o amor requer. Esta devoção tem a estrutura da viúva dos dois óbolos: não é uma grande oferta, mas é uma oferta do «que se tem» com toda a disposição interior.
A liturgia das Horas, o Ofício das Leituras, Laudes, Vésperas, Completas, reserva para o Sábado textos marianos especiais: hinos, antífonas, orações que celebram Maria como o «fim da semana» que aponta para o «Dia do Senhor» (Domingo). Esta estrutura litúrgica expressa a intuição de que Maria está na charneira entre o «tempo» e a «eternidade»: ela que «deu tudo o que tinha» a Deus está agora na eternidade que cada Domingo antecipa e que o Sábado prepara.
O «totam victum suum» da viúva, «todo o seu sustento», tem uma ressonância eucarística que a tradição raramente explorou: a viúva que oferece «todo o seu sustento» prefigura Maria que ofereceu ao mundo o Pão da Vida, o «sustento» de toda a humanidade. Ela que deu «tudo o que tinha», e o que tinha era o Filho de Deus, é a que mais radicalmente realizou o gesto da viúva. A Eucaristia, que é o «Pão» que Jesus é, veio ao mundo através da oferta total de Maria: o seu «fiat» foi o «totam victum suum» pelo qual o mundo recebeu o Pão que nunca se acaba.
IV. «Do que lhes sobrava» vs «Tudo o que tinha»: dois estilos de vida cristã
A diferença entre os dois estilos de vida cristã está condensada em Ex Penuria Sua: dar do supérfluo ou entregar-se a si mesmo.
O contraste entre os que dão «do que sobra» e a viúva que dá «tudo o que tem» ilumina dois estilos diferentes de vida cristã que a história sempre conheceu: o estilo do cumprimento, dar a Deus o que é obrigatório, o que não custa, o que não afecta a segurança fundamental, e o estilo da entrega total, dar a Deus sem calcular o custo, sem reservar uma «zona de segurança» pessoal.
Maria representa o segundo estilo na sua forma mais radical. A sua entrega a Deus não foi calculada, foi total. Não «deu a Deus» o que sobrava depois de garantir a sua segurança e o seu projecto de vida: deu «tudo o que tinha», incluindo a sua virgindade, o seu projecto de casamento normal, a sua segurança social, a sua compreensão do que a sua vida deveria ser. Esta radicalidade é o que a tradição chama «perfeita consagração» ou «total consagração». No fundo, o «ex penuria sua omnia» da viúva é, em Maria, o programa de toda uma vida.
S. Teresa de Lisieux, cujo modelo espiritual foi profundamente mariano, desenvolveu o que chamou «oferta ao Amor Misericordioso»: não uma oferta do que sobra, mas uma oferta total de si ao amor que Deus é. Esta oferta, inspirada na viúva dos dois óbolos e em Maria, é a forma contemporânea da espiritualidade que Mc 12,44 descreve. Teresinha que morreu jovem, sem obras visíveis, sem influência social, dois «óbolos», é o testemunho de que «tudo o que se tem» é suficiente quando é dado com totalidade.
A vocação universal à santidade, que o Vaticano II proclamou no capítulo V da Lumen Gentiumtem neste episódio da viúva o seu fundamento evangélico mais acessível. Não é apenas o monge que pode dar «tudo», é o pai de família, a mãe com filhos pequenos, o operário, o estudante. O que cada um «tem», tempo, energia, amor, presença, pode ser dado «totalmente» a Deus e ao próximo. Maria, que deu o seu «totam victum suum» numa vida ordinária de mulher galiliana, é o modelo desta santidade «total» que não requer circunstâncias extraordinárias.
Maria, que deu a Deus «tudo o que tinha» com o seu «fiat», é o ícone da viúva dos dois óbolos: a mais perfeita Anawim de Israel, cuja pobreza total em Deus se tornou a mais extraordinária riqueza para o mundo.
Referências
- Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, cap. V: «Vocação Universal à Santidade» (1964).
- S. Teresa do Menino Jesus, Acto de Oferta ao Amor Misericordioso (1895).
- João Paulo II, Redemptoris Mater, n. 36-37 (1987).
- J. Gnilka, Das Evangelium nach Markus, vol. II (1979).
- A. Serra, Sapienza e Contemplazione di Maria (1990).
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