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Iconografia de Maria: Catacumbas de Priscila, a Anunciação

Nas catacumbas de Priscila, a Anunciação (século III) é representada no centro do teto de um cubículo onde também aparecem o ciclo de Jonas,

a ressurreição de Lázaro

e o Bom Pastor.

À semelhança do que se verificou em alguns exemplares da Adoração dos Magos, a localização privilegiada no centro da abóbada confere a esta cena, que marca o início da Teofania histórica, o valor de uma imagem chave na história da salvação.

A Virgem, à esquerda da cena, é retratada como uma matrona romana: sentada em três quartos em uma cadeira, vestindo uma longa túnica sem cinto com dobras ricas e uma cabeça velada. O anjo, de pé, sem asas segundo o tipo iconográfico mais antigo, vestido de túnica e pálio, estende o braço direito para a Virgem no ato de falar. O fato de Maria receber o anúncio sentada simbolicamente indica sua preeminência sobre o anjo.

Imagens doutrinárias: a Virgem e o Menino com um profeta

A Virgem e o Menino com um profeta das catacumbas de Priscila, atribuída ao final do século II ou início do século III, não pertence ao ciclo histórico da Infância, mas é uma imagem simbólica seja do cumprimento das profecias do Antigo Testamento no mistério da Encarnação e da maternidade virginal de Maria. A grande representação do Bom Pastor no jardim do Paraíso, situado nas imediações, não só confirma a identificação do grupo mãe-filho com a Virgem Maria e Cristo, como também confirma a referência ao desfecho da Encarnação que é precisamente o acesso ao Reino.

Maria, vestida com uma longa túnica e com a cabeça coberta por um véu curto, senta-se como que afundada em meditação em um assento sem encosto, com a cabeça ligeiramente inclinada para a frente, enquanto com a esquerda segura o Menino, nu, que está sentado ela no colo e mantém a cabeça virada para trás como se tivesse acabado de se desprender do seio da Mãe. Uma estrela de oito raios brilha na vertical da mãe-filho; à esquerda está um homem vestido de túnica e pálio, com um pergaminho na mão esquerda e a direita levantada no ato de apontar para a estrela. Também esta estrela, indicada pelo profeta em referência ao grupo mãe-filho, constitui um elemento para a identificação dos dois personagens com a Virgem Maria e Jesus.

A maioria dos estudiosos reconhece na figura masculina o profeta Balaão, aquele que ele havia predito:

«uma estrela se levantará de Jacó» (Nm 24,17); outros o vêem como Isaías, mas também pode ser entendido como uma figura genérica da profecia, ou seja, da profecia sobre a maternidade virginal divina de Maria.

Devemos referir que o profeta Balaão era particularmente amado nas comunidades cristãs oriundas dos gentios, como o único profeta de linhagem não-judaica. Deve-se lembrar também que, listando as testemunhas messiânicas, Justino (m. 165) compara a citação de Números 24,17 à de Isaías e depois empresta ao Profeta a síntese profética:

uma estrela nascerá de Jacó e uma flor crescerá no ramo do menor. De Justino o testemunho passará então a Irineu de Lyon (m. 202), Orígenes (m. 264) e Cipriano de Cartago (m. 258) 3232

Mas a Virgem é realmente representada no ato de amamentar?

A resposta a essa pergunta não foi constante ao longo do tempo. Em todo caso, o acontecimento e o tema da amamentação são citados e comentados sem interrupção pelos Padres a partir do século III, sendo os primeiros a falar dele Clemente de Alexandria (m. 215) e Ippolito Romano (m. 235) entre os gregos, Tertuliano (m. 220) entre os latinos. Sobre a mensagem que a imagem dos Virgo lactans pretendia transmitir, uma das explicações mais profundas é que esta iconografia não pretendia evocar uma cena familiar e assim aproximar Cristo dos seus fiéis nem para mostrar em si a plenitude da Encarnação, mas para fazer compreender, a exemplo de um gesto humano, se nunca houve uma, que a humanidade perfeita de seu filho é a do Logos encarnado e, conseqüentemente, que a realidade de sua teofania é total. Em outras palavras, a Virgem que amamenta fez aparecer não a «Mãe de Cristo», mas precisamente a Mãe de Deus».

A Virgem Orante

A partir de meados do século IV, a figura da Orante, outrora usada indiscriminadamente para todos os mortos, é reservada de forma cada vez mais exclusiva aos retratos de mártires, caracterizados pelo duplo papel de testemunhas e intercessores. Figura inequívoca da aceitação do dom que vem do alto, a postura da Orante era, no entanto, extremamente adequada a Maria, testemunha por excelência da Teofania histórica e cujo poder de intercessão é invocado pelos cristãos desde os tempos apostólicos.

Precisamente pelo fato de indicar que a fecundidade vem de cima, a figura da Orante se presta mais do que as demais a evidenciar a exemplaridade de Maria em relação à Igreja: Mãe e Virgem.

As imagens mais antigas da Virgem rezando que chegaram até nós são as dos fundos de vidro que pertenciam às patenas: aqui a figura de Maria rezando nunca se encontra com o Menino, mas sozinha ou ladeada pelos apóstolos Pedro e Paulo.

Em um único caso que remonta à segunda metade do século IV, a maioria dos estudiosos concorda em reconhecer na imagem de uma mulher rezando com seu filho à sua frente uma representação da Virgem Mãe: o que pode ser visto nas costas parede de um arcossólio da catacumba do Cemitério Maggiore em Roma é o retrato a meio corpo (a parte inferior do afresco foi destruída) de uma mulher em atitude de rezar com o filho à sua frente, axialmente, retratado imóvel e não orar. A mulher está vestida com uma dalmática de mangas largas, tem cabelos elaborados cobertos com um véu branco claro. Em volta do pescoço ela usa um colar de pérolas e pedras preciosas e duas grandes pérolas como brincos. De ambos os lados, na altura de suas mãos, aparece o monograma de Cristo – o crisma -, o da direita invertido para ser uma imagem espelhada do da esquerda.

No que diz respeito às basílicas de Constantino, é certo que a Basílica da Natividade em Belém, concluída em 333, abrigava uma representação monumental da Adoração dos Reis Magos, provavelmente na fachada. No final do século IV, sob o reinado de Teodósio II, sempre antes de Éfeso, remonta, portanto, à construção de uma basílica sobre o túmulo da Virgem, no Vale do Cedron. Por outro lado, na Igreja de Jerusalém, a criação das principais festas do ciclo da Infância com os respectivos ofícios também remonta ao século IV: 

  1. a Teofania da Encarnação (Natividade do Senhor);
  2. a Adoração dos Reis Magos;
  3. a Apresentação no Templo.
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