Iconografia de Maria: catacumbas de priscila, a Anunciação

Iconografia de Maria: catacumbas de priscila, a Anunciação

TL;DR – Resumo. A Anunciação representada nas Catacumbas de Priscila (séc. III, Roma) é a mais antiga imagem mariana conhecida da arte cristã. Maria é retratada como matrona romana sentada, recebendo o anúncio do anjo sem asas – tipo iconográfico primitivo. A imagem testemunha a centralidade de Maria na fé cristã primitiva antes mesmo do dogma de Theotókos (Éfeso, 431).

Pontos-chave

  • As Catacumbas de Priscila (Via Salaria, Roma) contêm a primeira representação iconográfica mariana documentada (séc. III).
  • A cena da Anunciação ocupa o centro do teto de um cubículo, com Maria à esquerda como matrona romana velada.
  • O anjo é representado sem asas – tipo iconográfico mais antigo, anterior à influência da iconografia bizantina.
  • A imagem antecede em mais de um século a definição conciliar de Theotókos no Concílio de Éfeso (431).
  • A localização central na abóbada, partilhada com cenas de Jonas e do Bom Pastor, atribui à Anunciação valor teológico de imagem-chave da salvação.

A Anunciação nas catacumbas de priscila (séc. III): a virgem-matrona, o anjo e as origens da iconografia mariana

Nas catacumbas de Priscila, a Anunciação (século III) é representada no centro do teto de um cubículo, onde também aparecem o ciclo de Jonas,

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a ressurreição de Lázaro

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e o Bom Pastor.

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À semelhança do que se verificou em alguns exemplares da Adoração dos Magos, a localização privilegiada no centro da abóbada confere a esta cena, que marca o início da Teofania histórica, o valor de uma imagem chave na história da salvação.

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A Virgem, à esquerda da cena, é retratada como uma matrona romana: sentada em três quartos em uma cadeira, vestindo uma longa túnica sem cinto com dobras ricas e uma cabeça velada. O anjo, de pé, sem asas segundo o tipo iconográfico mais antigo, vestido de túnica e pálio, estende o braço direito para a Virgem no ato de falar. O facto de Maria receber o anúncio sentada simbolicamente indica a sua preeminência sobre o anjo.

Imagens doutrinárias: a Virgem e o menino com balaão Nm 24,17) e a prefiguração profética da maternidade virginal

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A Virgem e o Menino com um profeta das catacumbas de Priscila, atribuída ao final do século II ou início do século III, não pertence ao ciclo histórico da Infância, mas é uma imagem simbólica do cumprimento das profecias do Antigo Testamento no mistério da Encarnação e da maternidade virginal de Maria. A grande representação do Bom Pastor no jardim do Paraíso, situado nas imediações, não só confirma a identificação do grupo mãe-filho com a Virgem Maria e Cristo, como também confirma a referência ao desfecho da Encarnação que é precisamente o acesso ao Reino.

Maria, vestida com uma longa túnica e com a cabeça coberta por um véu curto, senta-se como que afundada em meditação num assento sem encosto, com a cabeça ligeiramente inclinada para a frente, enquanto com a esquerda segura o Menino, nu, que está sentado sobre ela no colo e mantém a cabeça virada para trás como se tivesse acabado de se desprender do seio da Mãe. Uma estrela de oito raios brilha na vertical da mãe-filho. À esquerda está um homem vestido de túnica e pálio, com um pergaminho na mão esquerda e a direita levantada no acto de apontar para a estrela. Também esta estrela, indicada pelo profeta em referência ao grupo mãe-filho, constitui um elemento para a identificação dos dois personagens com a Virgem Maria e Jesus.

A maioria dos estudiosos reconhece na figura masculina o profeta Balaão, aquele que havia predito:

«Uma estrela se levantará de Jacó» (Nm 24,17). Outros o vêem como Isaías, mas também pode ser entendido como uma figura genérica da profecia, ou seja, da profecia sobre a maternidade virginal divina de Maria.

Devemos referir que o profeta Balaão era particularmente amado nas comunidades cristãs oriundas dos gentios, como o único profeta de linhagem não-judaica. Deve-se lembrar também que, listando as testemunhas messiânicas, Justino (m. 165) compara a citação de Números 24,17 à de Isaías e depois empresta ao Profeta a síntese profética:

Uma estrela nascerá de Jacó e uma flor crescerá no ramo do menor. De Justino o testemunho passará então a Irineu de Lyon (m. 202), Orígenes (m. 264) e Cipriano de Cartago (m. 258).

A Mater lactans: a identificação controversa da Virgem a amamentar e o debate historiográfico

A resposta a essa pergunta não foi constante ao longo do tempo. Em todo caso, o acontecimento e o tema da amamentação são citados e comentados sem interrupção pelos Padres a partir do século III, sendo os primeiros a falar dele Clemente de Alexandria (m. 215) e Hipólito Romano (m. 235) entre os gregos, Tertuliano (m. 220) entre os latinos. Sobre a mensagem que a imagem dos Virgo lactans pretendia transmitir, uma das explicações mais profundas é que esta iconografia não pretendia evocar uma cena familiar e assim aproximar Cristo dos seus fiéis nem para mostrar em si a plenitude da Encarnação, mas para fazer compreender, a exemplo de um gesto humano, se nunca houve uma, que a humanidade perfeita de seu filho é a do Logos encarnado e, consequentemente, que a realidade de sua teofania é total. Em outras palavras, a Virgem que amamenta fez aparecer não a «Mãe de Cristo», mas precisamente a Mãe de Deus.

A Virgem orante nas catacumbas: o tipo iconográfico da orans e o seu significado eclesiológico

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A partir de meados do século IV, a figura da Orante, outrora usada indiscriminadamente para todos os mortos, é reservada de forma cada vez mais exclusiva aos retratos de mártires, caracterizados pelo duplo papel de testemunhas e intercessores. Figura inequívoca da aceitação do dom que vem do alto, a postura da Orante era, no entanto, extremamente adequada a Maria, testemunha por excelência da Teofania histórica e cujo poder de intercessão é invocado pelos cristãos desde os tempos apostólicos.

Precisamente pelo facto de indicar que a fecundidade vem de cima, a figura da Orante presta-se mais do que as demais a evidenciar a exemplaridade de Maria em relação à Igreja: Mãe e Virgem.

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As imagens mais antigas da Virgem rezando que chegaram até nós são as dos fundos de vidro que pertenciam às patenas: aqui a figura de Maria rezando nunca se encontra com o Menino, mas sozinha ou ladeada pelos apóstolos Pedro e Paulo.

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Em um único caso que remonta à segunda metade do século IV, a maioria dos estudiosos concorda em reconhecer na imagem de uma mulher rezando com seu filho à sua frente uma representação da Virgem Mãe. O que pode ser visto nas costas da parede de um arcossólio da catacumba do Cemitério Maggiore em Roma é o retrato a meio corpo (a parte inferior do afresco foi destruída) de uma mulher em atitude de rezar com o filho à sua frente, axialmente. O filho está retratado imóvel e não orando. A mulher está vestida com uma dalmática de mangas largas; tem cabelos elaborados cobertos com um véu branco claro. Em volta do pescoço ela usa um colar de pérolas e pedras preciosas, e duas grandes pérolas como brincos. De ambos os lados, na altura das mãos, aparece o monograma de Cristo, o crisma, com a da direita invertida para ser uma imagem espelhada do da esquerda.

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No que diz respeito às basílicas de Constantino, é certo que a Basílica da Natividade em Belém, concluída em 333, abrigava uma representação monumental da Adoração dos Reis Magos, provavelmente na fachada. No final do século IV, sob o reinado de Teodósio II, remonta, portanto, à construção de uma basílica sobre o túmulo da Virgem, no Vale do Cedro. Por outro lado, na Igreja de Jerusalém, a criação das principais festas do ciclo da Infância com os respectivos ofícios também remonta ao século IV:

  1. A Teofania da Encarnação (Natividade do Senhor).
  2. A Adoração dos Reis Magos.
  3. A Apresentação no Templo.

Para aprofundar a reflexão sobre a iconografia mariana e o seu lugar na vida da Igreja, consulte a exortação apostólica Marialis Cultus de Paulo VI, que orienta a piedade mariana incluindo as expressões artísticas e iconográficas.

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Perguntas frequentes sobre a iconografia mariana primitiva

Onde fica a representação mais antiga de Maria na arte cristã?

A representação mariana mais antiga conhecida encontra-se nas Catacumbas de Priscila, na Via Salaria, em Roma, datada do século III. Trata-se de uma cena da Anunciação pintada no teto de um cubículo funerário, mostrando Maria como matrona romana sentada e o anjo Gabriel em pé, sem asas.

Por que o anjo é representado sem asas nas catacumbas de priscila?

A representação do anjo sem asas corresponde ao tipo iconográfico cristão mais antigo, anterior ao desenvolvimento da iconografia bizantina. As asas só se generalizam na arte cristã a partir do século IV-V, inspiradas em modelos clássicos da Vitória alada e do Génio romano adaptados ao novo contexto.

Que valor teológico tem esta iconografia antes do dogma de Theotókos?

A imagem antecede em mais de um século a definição conciliar da Maternidade Divina (Éfeso, 431) e testemunha que a comunidade cristã primitiva já reconhecia Maria como figura central na economia da salvação. A iconografia precede o dogma e prepara o terreno para a sua formulação.

Que outras cenas marianas aparecem nas catacumbas romanas?

Além da Anunciação de Priscila, encontram-se a Adoração dos Magos (Catacumbas de Domitilla, Pedro e Marcelino), a profecia de Balaão apontando para a Virgem (Priscila) e cenas da Virgem com o Menino. Estas imagens partilham simbologia cristológica e estão geralmente associadas a contextos funerários de esperança escatológica.

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