Maria e Deus Pai: a filha predileta do Pai no Concílio

Maria e Deus Pai: a filha predilecta do Pai

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Deus Pater ab omni aeternitate eam elegit Matrem usquequaque sanctam.
«Deus Pai a escolheu desde toda a eternidade para Mãe inteiramente santa» (Paulo VI, Marialis cultus 25)

O Concílio Vaticano II chama a Maria praedilecta filia Patris, «filha predileta do Pai». A expressão está no início do capítulo sobre a Virgem da Lumen gentium e resume uma relação que a teologia mariana estuda há séculos: Maria é a Mãe do Filho de Deus e, por isso mesmo, a criatura em quem se mostra de modo singular a escolha e o amor do Pai. A relação de Maria com as três Pessoas divinas em conjunto está tratada em A relação da Trindade com Maria.

«Filha predileta do Pai»

O texto do Concílio diz que Maria, redimida de modo mais sublime em vista dos méritos do Filho, hoc summo munere ac dignitate ditatur ut sit Genitrix Dei Filii, ideoque praedilecta filia Patris necnon sacrarium Spiritus Sancti, «é enriquecida com esta suma missão e dignidade de ser Mãe do Filho de Deus e, por isso, filha predileta do Pai e sacrário do Espírito Santo» (LG 53, AAS 57, 1965, p. 58-59). A ordem das palavras é importante: é por ser Mãe do Filho, ideoque, «e por isso», que Maria é filha predileta do Pai. O título não a coloca ao lado de Deus. Coloca-a no centro da obra que o Pai realiza pelo Filho.

O mesmo Concílio recorda que a iniciativa é do Pai: Voluit autem misericordiarum Pater, ut acceptatio praedestinatae matris incarnationem praecederet, «quis o Pai das misericórdias que a aceitação da mãe predestinada precedesse a encarnação» (LG 56, p. 60). E acrescenta, com a prudência própria do texto, que deixa livres as opiniões das escolas católicas sobre aquela que in sancta Ecclesia locum occupat post Christum altissimum nobisque maxime propinquum, «ocupa na santa Igreja o lugar mais alto depois de Cristo e o mais próximo de nós» (LG 54, p. 59).

Filha por adoção, como nós

O Novo Testamento não chama a Maria «filha do Pai». Mas diz como Deus nos faz filhos: at ubi venit plenitudo temporis misit Deus Filium suum factum ex muliere factum sub lege, ut eos qui sub lege erant redimeret ut adoptionem filiorum reciperemus, «quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de recebermos a adoção de filhos» (Gl 4,4-5). O Concílio abre com este texto o capítulo sobre Maria (LG 52, p. 58). A teologia vê na mulher de quem o Filho nasce a primeira a receber essa adoção. O anjo é enviado a Deo, «da parte de Deus» (Lc 1,26), e Maria responde como serva: ecce ancilla Domini, «eis a serva do Senhor» (Lc 1,38). No Magnificat ela canta o Senhor que respexit humilitatem ancillae suae, «olhou para a humildade da sua serva» (Lc 1,48). A filha predileta do Pai é, em primeiro lugar, a serva que acolhe a sua vontade.

O teólogo Angelo Amato, no verbete «Dio Padre» do Nuovo dizionario di mariologia, resume os títulos que a tradição deu a Maria em relação ao Pai e conclui que, pela graça singular que recebeu e pela fé com que acolheu a palavra do Pai na anunciação, ela se tornou la prima dei redenti, la prima figlia adottiva del Padre nel Figlio, «a primeira dos redimidos, a primeira filha adotiva do Pai no Filho» (AMATO, 1986, p. 479). É a mesma graça de todos os batizados, recebida de modo pleno e em primeiro lugar.

O que Paulo VI acrescentou

A exortação Marialis cultus desenvolveu esta linha. Paulo VI pediu que a devoção mariana mostrasse com clareza o seu caráter trinitário e cristológico, e explicou: In Virgine Maria omnia ad Christum referuntur et ex eo pendent: eius nempe causa Deus Pater ab omni aeternitate eam elegit Matrem usquequaque sanctam, «na Virgem Maria tudo se refere a Cristo e dele depende, e foi por causa dele que Deus Pai a escolheu desde toda a eternidade para Mãe inteiramente santa» (MC 25, AAS 66, 1974, p. 135).

E deu ao culto mariano o seu fundamento último na liberdade do amor de Deus: dilexit eam et magna ipsi fecit, dilexit eam propter se, dilexit eam propter nos, dedit eam sibi, dedit eam nobis, «amou-a e fez nela grandes coisas, amou-a por si mesmo, amou-a por nós, deu-a a si mesmo, deu-a a nós» (MC 56, p. 163). No fim da exortação, Paulo VI aproxima a palavra de Maria em Caná, Quodcumque dixerit vobis, facite, «fazei tudo o que ele vos disser» (Jo 2,5), da voz do Pai no monte da Transfiguração, Ipsum audite, «escutai-o» (Mt 17,5): as duas vozes concordam (MC 57, p. 166-167).

A filha que conduz ao Pai

A tradição deu a Maria vários títulos em relação ao Pai, e muitos autores, de Crisipo no século V à escola francesa do século XVII, a chamaram até «esposa do Pai» (AMATO, 1986, p. 478-479). Amato resume a relação nos dois títulos de «filha» e «esposa» e nota que o Concílio deu preferência ao primeiro (AMATO, 1986, p. 479). É o título que diz melhor a verdade: Maria é criatura, escolhida e amada, e a sua grandeza de Mãe do Filho passa por ter acolhido a vontade do Pai. Como lembra Paulo VI, o culto cristão é prestado, segundo a fórmula da liturgia, Patri per Christum in Spiritu, «ao Pai, por Cristo, no Espírito», e a piedade mariana bem ordenada entra nesse mesmo movimento (MC 25, p. 135). A filha predileta do Pai não retém ninguém em si. Diz o que disse em Caná, e o Pai o repete do alto: escutai o meu Filho.

Referências

AMATO, Angelo. Dio Padre. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 469-484.

BÍBLIA. Latim. The Holy Bible: Vulgate translation. [S. l.: s. n.], 2003. Edição eletrônica.

CONCÍLIO VATICANO II. Constitutio dogmatica de Ecclesia Lumen gentium. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 57, p. 5-71, 1965.

PAULO VI. Adhortatio apostolica Marialis cultus. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 66, p. 113-168, 1974.

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