Messis quidem multa operarii autem pauci: António, Maria e os ceifeiros do Senhor

Messis quidem multa operarii autem pauci: António, Maria e os ceifeiros do Senhor
Messis quidem multa, operarii autem pauci. Rogate ergo Dominum messis ut mittat operarios in messem suam.
Lc 10,2

A Memória de Santo António de Pádua, celebrada a 13 de Junho, o dia da sua morte em 1231, e oficializada dentro de um ano após a morte, honra uma das figuras mais amadas da história da Igreja. Fernando Martins de Bulhões, nascido em Lisboa por volta de 1195 em família nobre, foi primeiro cónego regrante agostiniano em Coimbra, e depois Frade Menor franciscano, movido pelo martírio dos primeiros mártires franciscanos de Marrocos em 1220. O seu talento teológico extraordinário, invulgar numa Ordem que em sua primeira geração era desconfiante da erudição, levou Francisco de Assis a autorizar o seu ensino teológico com a famosa carta: «Ao meu irmão António, o meu bispo: agrada-me que ensines a sagrada teologia». Canonizado em 1232, apenas 352 dias após a morte, o processo mais rápido da história, foi declarado Doutor da Igreja por Pio XII em 1946 com o título de Doctor Evangelicus.

O Evangelho desta festa pertence ao discurso de envio dos setenta e dois discípulos (Lc 10,1-9): a missão mais alargada que Jesus organiza além dos doze. A urgência da colheita, «a messe é grande, os operários são poucos», justifica a radicalidade do estilo missionário proposto: sem bolsa, sem mochila, sem sandálias sobressalentes, confiando apenas na providência de Deus e na acolhida das casas. António viveu este estilo. Maria, na Visitação, o inaugurou.

I. António de pádua: o doutor evangélico

O título Doctor Evangelicus, «Doutor Evangélico», dado a Santo António não é apenas honorífico: descreve o seu carisma específico. António foi o teólogo a serviço da evangelização, não a evangelização a serviço da carreira académica. Os seus Sermões, que chegaram até nós em edições críticas e são estudados por teólogos e historiadores da teologia medieval, combinam uma erudição impressionante (patrística, escolástica nascente, exegese alegórica) com uma comunicabilidade popular invulgar. Ele pregava nas praças e nos mercados com a mesma profundidade teológica que outros reservavam para as cátedras universitárias.

A sua devoção a Maria foi central em sua vida e em sua pregação. Os Sermões de António contêm reflexões mariológicas de grande riqueza, numa época anterior à sistematização escolástica da mariologia. Ele pregava Maria como «Arca da nova Aliança», como «Estrela do Mar», como «Porta do Céu», imagens que a liturgia e a tradição mariana preservam até hoje. A iconografia mais conhecida de António, com o Menino Jesus ao colo, nasceu de um episódio hagiográfico, mas exprime o centro da sua espiritualidade: Cristo mediado por Maria, o Filho que a mãe mostra ao mundo.

O carisma de António como o «santo dos objetos perdidos», uma das devoções populares mais universais do catolicismo, tem uma raiz teológica que transcende os objetos físicos. António era, em seus sermões e em sua atividade pastoral, o que buscava e encontrava as «ovelhas perdidas» do Evangelho: os pecadores que a sociedade religiosa do seu tempo descartou, os afastados da comunidade eclesial, os que viviam nas margens do sistema moral e social. A sua pregação era famosa por converter os mais endurecidos. A sua fama de «buscador do perdido» traduz, em linguagem popular, um carisma profundamente evangélico.

II. A colheita e a urgência da missão

A imagem da colheita madura em Lc 10,2 evoca uma urgência agrícola que Jesus transfere para a missão: a messe que está madura precisa de ser colhida imediatamente ou perde-se. Há pessoas prontas para receber o Evangelho agora, que precisam de operários agora. A oração que Jesus pede, «rogai ao Senhor da messe que envie operários», é simultaneamente admissão da insuficiência humana (não somos nós que escolhemos os missionários, é o Senhor) e chamada à disponibilidade (quem reza pela missão torna-se candidato a ser enviado).

O «Senhor da messe» (Kyrios tou therismou) é uma imagem com raízes veterotestamentárias: Yahvé é o dono da terra e dos seus frutos. Na escatologia do Novo Testamento, a «messe do fim dos tempos» (Mt 13,30.39) é o juízo final em que o Senhor reúne seus eleitos. O discurso de envio de Lc 10 insere-se nesta teologia: a missão é participação antecipada na ação escatológica de Deus que reúne o seu povo. António, que pregava com urgência escatológica, entendeu esta dimensão: a conversão dos pecadores não é apenas obra de misericórdia presente, é preparação para a colheita definitiva.

O estilo missionário de António, percorrer o norte de Itália e o sul de França pregando em aldeias, mercados, praças públicas, corresponde exatamente ao discurso de Lc 10: a missão «em saída», que vai onde as pessoas estão, que não espera que venham ao templo. O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium (2013), descreveu a «Igreja em saída» usando imagens que António antecipou oito séculos antes: sair ao encontro das periferias existenciais, pregar nos «crossroads» da cultura, não reservar o Evangelho para os que já o conhecem.

III. Maria, a primeira operária da colheita

A Visitação de Maria a Isabel é o arquétipo de todo o «envio» de que Lc 10,1 fala. Maria é enviada, não explicitamente pelo anjo, mas pelo impulso do amor recebido, às montanhas de Judá para servir e, sem o saber explicitamente, para evangelizar. Ela é a primeira dos «setenta e dois»: vai «às pressas» (meta spoudes), sem bolsa nem programa, confiando apenas na acolhida da prima. A sua missão é discreta e doméstica, mas seus efeitos são extraordinários: a santificação pré-natal de João Batista, o Magnificat, o reconhecimento da Theotokos por Isabel.

A lógica da missão mariana, a graça recebida que transborda para o serviço gratuito ao outro, é a lei fundamental que tanto Lc 10 descreve como António viveu. Maria não tinha plano de evangelização. Tinha o Filho de Deus no ventre e o amor no coração, e isso foi suficiente para transformar tudo o que tocou. Esta lógica do transbordamento, a graça que não cabe em nós e transborda para os outros, é a lei fundamental da missão cristã autêntica, antes de qualquer plano pastoral ou estratégia de comunicação.

A devoção mariana de António exprimia-se concretamente em sua atenção aos pobres e aos marginalizados, que ele identificava com os preferidos de Maria (segundo o Magnificat: «encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias»). A «colheita» de que Jesus fala é colhida, sobretudo, entre os pobres e os pequenos. Nem António nem Maria se dirigiram preferencialmente aos poderosos. A missão que ambos viveram, gratuita, aos pobres, por amor, é o critério que Lc 10 propõe para toda a evangelização autêntica.

IV. O Santo dos perdidos: uma teologia da misericórdia

A devoção popular a Santo António como «santo dos objetos perdidos», uma das mais antigas e universais da tradição católica, exprime, em linguagem imediata, uma confiança teológica profunda: Deus, como o pai da parábola dos dois filhos (Lc 15,11-32), nunca desiste do que se perdeu. A oração a António pelos «perdidos» na fé, nos vícios, nos relacionamentos é a expressão desta confiança: que sempre há um «operário» que Deus enviou para encontrar o que se perdera.

Esta teologia da misericórdia tem a sua raiz última na mariologia. Maria é, antes de António, a «buscadora dos que se perderam» na tradição católica. A Salve Regina, provavelmente do século XI, invoca Maria como «advocata nostra», a que advoga pelos que estão em perigo. E a súplica final, «mostra-nos Jesus, fruto bendito do teu ventre», é precisamente o pedido de ser «encontrado» pelo olhar misericordioso do Filho através da mediação da Mãe. António prolonga, no tempo e no espaço, esta missão mariana de buscar o perdido e mostrá-lo a Jesus.

A festa de Santo António é uma celebração da graça que busca antes de ser buscada, uma misericórdia que não espera que os perdidos regressem, mas os vai encontrar onde estão. Esta misericórdia proactiva, a «colheita grande» que o Senhor quer realizar e para a qual envia seus operários, tem em Maria e em António seus dois ícones mais eloquentes na tradição cristã ocidental. E o mandamento de Jesus permanece atual: «Rogai ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe», e que nós mesmos sejamos os operários que Ele envia.

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