Protoevangelho de Tiago: origem, data e conteúdo

Maria no Protoevangelho de Tiago — Natividade de Maria e Maternidade Divina: fonte patrística

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Γένεσις Μαρίας
«Nascimento de Maria» (título do Protoevangelho de Tiago no Papiro Bodmer V)

O chamado Protoevangelho de Tiago é o mais antigo e o mais célebre dos evangelhos apócrifos da infância. Não faz parte da Bíblia, mas marcou profundamente a devoção mariana, a liturgia e a arte cristãs (SCHNEIDER, 1995, p. 21). É nele que se leem os nomes de Joaquim e Ana, a apresentação de Maria no Templo e muitos detalhes das representações do Natal. Para lê-lo bem, é preciso saber o que ele é, de quando é e o que a Igreja fez com ele.

Um título moderno

O nome «Protoevangelho» não é antigo. Apareceu pela primeira vez em 1552, quando Theodor Bibliander publicou em Basileia, com esse título, uma tradução latina e fez remontar o nome ao humanista francês Guillaume Postel, que tinha conhecido o texto no Oriente cristão, onde era usado na liturgia. O texto grego só foi publicado doze anos depois, em 1564, por Michael Neander, também em Basileia (SCHNEIDER, 1995, p. 21-22, 343).

O manuscrito mais antigo, o Papiro Bodmer V, dá à obra o título Γένεσις Μαρίας, «Nascimento de Maria». Orígenes refere-se a ela simplesmente como «o livro de Tiago» (SCHNEIDER, 1995, p. 25-26, 96). O autor apresenta-se no fim como Tiago, que diz ter escrito a história em Jerusalém, no tempo do tumulto que se seguiu à morte de Herodes (25,1, SCHNEIDER, 1995, p. 142-143).

Quando e onde foi escrito

Clemente de Alexandria, que morreu por volta de 215, alude provavelmente a um dos episódios do livro, a prova da virgindade de Maria, o que mostra que ele existia por volta do ano 200. A maior parte dos estudiosos, seguindo Émile de Strycker, data-o da segunda metade do século II, e uma data anterior a 150 está fora de questão. Quanto ao lugar, a maioria pensa no Egito, e Smid admite a Síria. A Palestina fica excluída, porque o autor não conhece bem nem a geografia nem os costumes judaicos (SCHNEIDER, 1995, p. 26-27). O Papiro Bodmer V é dos séculos III ou IV, e de Strycker reuniu cerca de 140 testemunhos manuscritos gregos, muitos deles fragmentários (SCHNEIDER, 1995, p. 30).

O que conta

O livro tem três partes. A primeira, nos capítulos 1 a 16, narra a vida de Maria: os pais, Joaquim e Ana, ricos e sem filhos (1,1 a 2,1), o nascimento da menina, a apresentação no Templo aos três anos, onde o sacerdote ἐκάθισεν αὐτὴν ἐπὶ τρίτου βαθμοῦ τοῦ θυσιαστηρίου, «a sentou no terceiro degrau do altar» (7,3). Quando Maria completa doze anos, por ordem de um anjo, o sacerdote Zacarias convoca os viúvos do povo, τοὺς χηρεύοντας τοῦ λαοῦ, cada um com um bastão (8,3), e é José o escolhido. Ele objeta: Υἱοὺς ἔχω καὶ πρεσβύτης εἰμί· αὕτη ⟨δὲ⟩ νεᾶνις, «tenho filhos e sou velho, mas ela é uma jovem» (9,2). Seguem-se a Anunciação e a gravidez de Maria, aos dezesseis anos (12,3).

A segunda parte, nos capítulos 17 a 21, narra o nascimento de Jesus numa gruta, no caminho para Belém, a parteira que assiste ao nascimento e Salomé, que, incrédula, verifica a virgindade de Maria depois do parto e tem a mão castigada (19,3 a 20,4). A terceira, nos capítulos 22 a 24, conta a matança dos inocentes e o martírio de Zacarias, pai de João Batista (SCHNEIDER, 1995, p. 22-25).

O que a Igreja fez com ele

O livro nunca entrou no cânon. O chamado Decreto Gelasiano, que não é do papa Gelásio mas de um redator do início do século VI, inclui entre os escritos rejeitados um «evangelho com o nome de Tiago, o Menor», que Schneider identifica, com reserva, com o Protoevangelho (SCHNEIDER, 1995, p. 18, n. 39). O verbete de J. B. Bauer no Marienlexikon dá a identificação como certa e acrescenta que Santo Agostinho e São Jerônimo rejeitaram o livro de modo semelhante (BAUER, 1991, p. 351). No Ocidente, na esteira de Jerônimo, houve reservas claras contra as histórias apócrifas da infância (SCHNEIDER, 1995, p. 18). O livro faz de José um viúvo idoso com filhos, de modo que os «irmãos» de Jesus (Mc 6,3) seriam filhos de José nascidos de um casamento anterior (BAUER, 1991, p. 352). Segundo Cullmann, citado por Schneider, Orígenes cita o livro precisamente a propósito deste primeiro casamento de José (SCHNEIDER, 1995, p. 24, n. 53).

Mas o conteúdo do livro passou à piedade e à liturgia. Bauer nota que ele deu ocasião a festas litúrgicas como a Conceição de Maria, a sua Natividade, a sua Apresentação e a festa de São Joaquim e Santa Ana (BAUER, 1991, p. 351-352). A festa da Apresentação, nascida no Oriente, difundiu-se no Ocidente nos séculos XIV e XV (SCHNEIDER, 1995, p. 109, n. 50). E a arte bebeu dele largamente: o ciclo de Giotto na Capela dos Scrovegni, em Pádua, pinta cenas que vêm dos apócrifos (SCHNEIDER, 1995, p. 19).

A Igreja recebeu, portanto, do Protoevangelho não um texto inspirado, mas tradições sobre a infância de Maria que a fé dos fiéis guardou e que a liturgia acolheu com discernimento.

Referências

BAUER, J. B. Jakobusevangelium. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. St. Ottilien: EOS, 1991. v. 3, p. 351-352.

SCHNEIDER, Gerhard (trad. e introd.). Evangelia infantiae apocrypha = Apokryphe Kindheitsevangelien: griechisch, lateinisch, deutsch. Freiburg im Breisgau: Herder, 1995. (Fontes Christiani, 18).

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