O rosto de Maria nos escritos de São João da Cruz

Aparente marginalidade de Maria e o objetivo dos escritos

Numa análise sumária dos escritos do santo Padre João, parece sobressair imediatamente um fato que talvez, ao menos à primeira vista, nos deixe um pouco decepcionados: o lugar, isto é, marginal, que a Virgem Maria parece ocupar em seus textos. O fato não deve surpreender nem desconcertar; explica-se simplesmente: São João da Cruz não pretende escrever um tratado completo de teologia espiritual, como hoje se concebe. Ele quer oferecer ajuda e luz a tantas almas que já iniciaram, e também bem, o seu caminho, almas que já vivem, ainda que não perfeitamente, sua relação com Deus Trindade e com o mundo divino, no qual Maria já ocupa o lugar que lhe compete por decreto divino.

Se, além disso, tivermos presente que os destinatários imediatos de seus escritos são sobretudo os carmelitas e as carmelitas, essa explicação pode parecer supérflua. Ele se encontra diante de existências que, também pela consagração religiosa, são consagradas a Maria. A fórmula de profissão então vigente, e até não muito tempo atrás, sublinhava expressamente que consagrar-se a Deus na profissão era, simultaneamente, consagrar-se a Maria.

Um rosto de Maria sóbrio e teologicamente elevado

Temos, contudo, apesar da sobriedade material das referências encontradas em seus escritos, afirmações que nos apresentam um rosto de Maria certamente distante de certos lugares comuns ou de um devocionalismo superficial, mas sem dúvida digno do altíssimo grau de santidade e de união com Deus que o Senhor se dignou conceder à sua Mãe santíssima, e digno também do papel que o Senhor atribuiu a Maria na obra da salvação. Por outro lado, nem tudo o que o santo Padre João viveu ele o expressou em seus escritos. E, no caso concreto, sabemos bastante de sua devoção, com D maiúsculo, sincera, terna e ardente para com a Virgem Maria.

Os primeiros biógrafos dirão que, muitas vezes durante sua vida, ele narrava como, quando era menino, caiu num charco e, enquanto se debatia para sair, apareceu-lhe uma bela Senhora e, ao seu gesto, espontaneamente temeroso de estender a mão para não manchar a branca Senhora, nesse meio tempo chegou um camponês que o puxou para fora. Sabemos também que ele abraça o Carmelo porque este é a Ordem de Maria, embora fosse convidado pela nascente e já afirmada Companhia de Jesus a integrar essa nova família religiosa. Ele se nutre, então, dessa espiritualidade carmelitana que vê em Maria, além de Mãe, o modelo e a Irmã: um aspecto característico de nossa espiritualidade, irmã do ideal da união com Deus mediante a vida contemplativa.

Elementos para um perfil do rosto interior de Maria

Temos, portanto, elementos suficientes para traçar o perfil essencial, por assim dizer, do rosto interior de Maria, à luz dos textos joaninos, tanto daqueles que falam explicitamente quanto daqueles que claramente a deixam entrever, esse rosto, essa presença de Maria. Segundo alguns comentadores, a esposa ideal do Cântico e a figura feminina da Chama, em cujo seio o Dileto repousa a cabeça, seria justamente Maria. Não é improvável que, sob os véus dessa figura, apareça o rosto eminente de Maria.

Há, entretanto, uma afirmação geral que coloca imediatamente Maria no seu justo lugar no mistério de Cristo e no mistério de todo salvo, e portanto também no de João da Cruz. Na oração da Alma Enamorada, entre outras coisas, ele diz: «Maria é minha, porque Cristo é meu e tudo é para mim». Bastaria isso para dizer tudo acerca da presença de Maria na vida de João da Cruz e na vida de todo peregrino rumo à união com Deus.

«Maria é minha»: pertença a Cristo e encontro de Maria em Cristo

Cristo é meu, porque é o Esposo que o Pai me destinou desde a eternidade e que, pela Encarnação, e ainda mais por sua morte na cruz, uniu-se a mim em casto e espiritual consórcio. Por meio dessa união, tudo o que é do Esposo é também da esposa; tudo o que é de Cristo é também de João da Cruz: é de João o Pai, o Espírito, a Mãe, os anjos, os homens bons e maus, tudo. Portanto, nada e ninguém poderá jamais tirar-lhe este dom que procede do Coração de Cristo. Ninguém poderá tirar-lhe Maria: Maria é minha. Ele diz Maria, chama-a pelo nome.

Essa ligação ao mistério de Cristo faz compreender como o batizado se move sempre e somente no mistério de Cristo, e de Cristo recebe sentido e significado. Também a sua Virgem Mãe, Maria, se move nesse mistério, portanto não é uma realidade que possa separar-nos de Cristo, mas é uma realidade que encontramos em Cristo e, mais ainda, é uma realidade na qual Cristo se nos oferece.

Maria no mistério de Cristo: união e subordinação

É uma visão teológica, aliás, muito próxima da compreensão que a Igreja hoje tem do mistério de Maria. Maria só pode ser compreendida e acolhida na sua união com Cristo e na sua subordinação a Cristo. Maria é ainda o seio virginal no qual o Verbo, por obra conjunta da Trindade, toma carne e se une à esposa, que é a humanidade. Esta é uma afirmação que encontramos na Romança n. 8.

São João da Cruz afirma aqui implicitamente que toda alma, no seio virginal de Maria, se une ao Verbo Encarnado. É nesse seio que o Verbo, no primeiro instante de sua vinda ao mundo, se une à esposa, à humanidade inteira. Isso não é algo transitório, mas permanece como ponto seguro no mistério da salvação. O que aconteceu para Cristo acontece para cada um de nós que somos de Cristo. É nesse seio que acontece a união.

Maternidade espiritual: ação real, contínua e subordinada a Cristo

Por meio dessa união, realizada historicamente no seio de Maria, passamos a participar da graça de Cristo, Verbo Encarnado. Ele se fez carne de Maria. E nessa graça de Cristo, cristã, não está ausente algo, chamemos assim por falta de termos melhores, algo da Mãe, a qual realmente, realmente e não apenas como modo de dizer, concorre para a geração dos homens de Cristo.

A relação filial, de fato, e nós somos filhos de Maria, Cristo no-la deu na cruz, funda-se sempre num fato real geracional, que é comunicação de vida. A vida divina vem-nos toda de Deus em Cristo, mas podemos dizer que nos vem também toda de Deus em Maria e por Maria, passando a nós, e, por outro lado, a Maria vem tudo e completamente de Deus. Isso permanece em nós como fundamento que lembra, invoca e exige também o contínuo auxílio, o contínuo cuidado de Maria por nossa salvação, ao longo de todo o caminho que nos conduz à comunhão com Deus, à glorificação.

Maria como protótipo: exemplaridade na união com Deus

E um outro aspecto de Maria o santo Padre capta com grande evidência: sua exemplaridade. Exemplaridade na união com Deus, exemplaridade dessa união. Falando das almas chegadas à união, cuja característica é serem movidas pelo Espírito Santo, o santo Doutor comenta exemplificando. Não é um simples exemplo o que ele cita. Maria é apresentada como o protótipo mais próximo de nós, e para o qual espontaneamente voltamos o olhar.

Na Subida, III, 2, 10, lê-se: «Tais eram as operações da Virgem, nossa Senhora, a qual, elevada desde o princípio a esse estado sublime, não teve impressa na alma figura de criatura alguma e, por nenhuma delas, em momento algum, foi movida a agir, mas agiu sempre sob a moção do Espírito Santo». Deste texto se disse, talvez com um pouco de ênfase, que ele sozinho vale um livro inteiro de Mariologia.

A Puríssima: plenitude de moção do Espírito Santo

Por meio desse texto, pode-se ler toda a visão pneumatológica da presença e da atividade do Espírito Santo na obra de santificação. E lê-se também a teologia da união. Tudo é vivido e, portanto, expresso nesta exemplar, nesta ícone, nesta imagem que Deus colocou no caminho dos peregrinos. Maria, portanto, está no vértice da união possível com Deus, porque é a Puríssima, assim a chamavam no Carmelo.

Ela é Puríssima porque concebida sem pecado, isso é certo, mas é Puríssima sobretudo porque jamais se deixou formar por criatura alguma. Ao contrário, e este é o elemento positivo que a constitui Puríssima, ela é ícone resplandecente no caminho da Igreja porque sempre movida pelo Espírito Santo. É, portanto, criatura toda de Deus e toda divinizada, penetrada em todas as fibras do seu ser por Deus, toda da Trindade, toda imersa na Trindade, com relações únicas e irrepetíveis, que não a afastam de nós, mas a tornam ícone e exemplar digno.

A intimidade com Deus: imagens do Cântico e da união

A ela, mais do que a qualquer outra, aplicam-se as palavras que o santo Padre escreve na anotação à estrofe 26: «Na íntima adega bebi do Amado…». E ele explica que a alma está vestida de Deus e imersa na divindade, não superficialmente, mas no íntimo do espírito, pois, repleta de delícias divinas e saciada nas águas espirituais da vida, experimenta o que Davi afirma dos que assim estão unidos ao Senhor: «serão inebriados». E então, que saciedade será a da alma, se a bebida que lhe é trazida é um rio de delícias. Tal rio é o Espírito, cujas águas, sendo amor íntimo de Deus, penetram intimamente na alma, dando-lhe a beber do amoroso rio que é o Espírito do Esposo, infundido nela nessa união.

E na estrofe seguinte, 27, 1, ele diz que, nessa união, Deus se comunica na alma com amor tão vivo que não há afeto de mãe que com igual ternura acaricie o filho, nem amor de irmão ou de amigo com que se possa comparar. E fala da humildade e doçura de Deus, que se submete à alma humilde e amante, como se Ele fosse servo e ela o Senhor.

Maria como modelo do caminho na caridade

Dizia-se que, em tudo isso, Maria é exemplar, o ícone. É possível porque Maria se coloca no vértice do único mistério de Cristo comunicado a nós. É o mesmo mistério que se comunica a nós e que foi comunicado em plenitude singular a Maria. Os mesmos dinamismos interiores, o Espírito Santo, as virtudes teologais, os dons, que explicam a singular santidade, perfeição e união de Maria, explicam também a nossa existência redimida.

Não devemos olhar, ao olhar para Maria, apenas para seus privilégios iniciais. A comunhão é fruto do caminho, do caminho na caridade. E Maria percorreu esse caminho como nenhuma outra criatura, por isso é sublime também como modelo. Se, por absurdo, ela tivesse parado nos privilégios iniciais, não seria aquilo que a Igreja contempla, nem aquilo que o santo Padre nos disse.

Riquezas espirituais: Maria e os que servem e amam o Senhor

Na Chama, 4, 4, o santo Padre fala dos numerosos modos com que Deus desperta na alma, e do movimento que o Verbo faz na substância da alma, de tanta grandeza, potência, glória e suavidade, que parece que todos os bálsamos, especiarias e flores do mundo são sacudidos para espalhar sua fragrância, e que todas as virtudes, substâncias, perfeições e graças de toda coisa criada resplandecem e fazem juntas o mesmo movimento.

É justo aplicar essas riquezas a Maria, mas é justo aplicá-las também a todos os que, como Maria, na humildade do coração, na pureza do espírito e na pobreza de espírito, servem e amam o Senhor. Por isso, Maria se apresenta, como recorda o Concílio, sinal de consolação e de segura esperança para todos nós.

Maria como modelo de oração suplicante

Maria é apresentada pelo santo Padre como modelo de oração de súplica. Ela expõe a necessidade, confiando ao Senhor estabelecer o que é mais oportuno. No Cântico, estrofe II, n. 8: «Note-se como a alma, no verso citado, “Dizei que desfaleço, sofro e morro”, limita-se a expor ao Amado as próprias necessidades e penas, pois quem ama com critério não se preocupa em pedir o que lhe falta ou deseja, mas expõe simplesmente as suas necessidades, para que o Amado faça depois o que lhe agrada».

Isso pode iluminar nossa oração. Às vezes pensamos que, para rezar, é preciso conhecer todas as necessidades, ler, saber. Não. É mais simples: quem ama com critério não se preocupa em pedir, mas expõe simplesmente as suas necessidades, e as necessidades da humanidade, sempre maiores do que o que podemos conhecer pela crônica, seja qual for.

E assim fez a Virgem nas bodas de Caná, quando, sem pedido direto, disse: «não têm vinho», e as irmãs de Lázaro.

A eficácia da oração: «omnipotência por graça»

A oração suprema é aquela que o Espírito Santo suscita em nós, é Ele que reza em nós. A oração de Maria é a que vibra ao mínimo movimento do Espírito. E é a oração que mais louva o Senhor, porque Maria é quem mais ama, e por isso é também a oração mais eficaz por nós.

No Cântico, estrofe 32, n. 1: «Grande é o poder e a tenacidade do amor, que conquista e prende o próprio Deus. Feliz a alma que ama, porque tem o Senhor por prisioneiro, pronto a fazer tudo o que ela quer». Eis a onipotência por graça da oração de Maria. Ela é a que ama maximamente o Senhor, e por isso Ele é, por assim dizer, prisioneiro de Maria, pronto a fazer tudo o que ela quer.

A Virgem sofredora: associada à dor redentiva

Maria, enfim, é a Virgem sofredora, que por vontade de Deus é associada à dor redentiva do Filho. No Cântico, estrofes 20-21, n. 10, fala-se da grande estabilidade da alma nesse estado, de modo que as águas da dor, mesmo as dos próprios pecados ou dos alheios, já não lhe trazem aflição, ainda que reconheça as coisas como são. E explica-se que, nessa transformação de amor, acontece à alma o que acontece aos anjos, que estimam perfeitamente as coisas dolorosas sem sentir dor, e exercem misericórdia e compaixão sem sofrer.

E acrescenta-se que o Senhor, às vezes, dispensa dessa imunidade da dor, permitindo sofrer para adquirir maiores méritos e acender mais o amor, como aconteceu com a Virgem Maria, com São Paulo e outros. Maria, portanto, por vontade de Deus, padeceu e foi associada à dor redentiva do Filho. Seu ser Imaculada não a dispensa da dor, nem sua plena união com o Senhor, que constitui sua alegria. Alegria e dor podem estar juntas.

Conclusão

O rosto de Maria que se deixa entrever nos escritos de São João da Cruz não é o de uma presença acessória, mas o de uma presença teologal, situada no centro do mistério de Cristo e, por isso mesmo, no coração do caminho de toda alma chamada à união com Deus. A sobriedade das menções explícitas não empobrece essa presença: antes a purifica de todo devocionalismo fácil e a reconduz ao seu lugar próprio, onde Maria é encontrada em Cristo, e onde Cristo se oferece também por meio dela. «Maria é minha, porque Cristo é meu e tudo é para mim» torna-se, assim, uma síntese admirável da pertença do fiel ao Esposo e do dom que, nessa pertença, inclui a Mãe.

Nessa luz, Maria aparece como o seio virginal no qual o Verbo se une à humanidade e como fundamento real da nossa filiação, subordinada e inteiramente dependente da única mediação de Cristo. Por isso, a maternidade espiritual de Maria não é figura de linguagem, mas ação real, contínua e maternal, que acompanha o peregrino ao longo do itinerário da graça. E, ao mesmo tempo, ela se manifesta como protótipo e ícone da união, a Puríssima, sempre movida pelo Espírito Santo, livre de toda impressão desordenada das criaturas e plenamente configurada à moção divina. Sua exemplaridade não se reduz a privilégios iniciais, mas exprime a plenitude do caminho na caridade, que é também o caminho da Igreja.

Por fim, a mesma Maria que é ícone da união é também modelo de oração e de compaixão, oração simples que expõe a necessidade e deixa ao Amado o modo e a hora do socorro, oração eficaz porque nascida do amor máximo, e, ainda, presença sofredora associada, por vontade de Deus, ao sofrimento redentivo do Filho. Assim, o título caro ao santo Doutor, “Nossa Senhora”, torna-se programa e esperança: colocar-se nas mãos da Mãe é permanecer no mistério de Cristo, sem desvios, e caminhar com segurança para Aquele que é o fruto bendito do seu seio, Jesus. E este seja o augúrio para nós e para todos, que Maria seja verdadeiramente “Nossa Senhora”, até que Deus habite em nós e conosco, e nós com Ele.

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