Liturgia

Oportet exaltari: Maria e o Filho erguido

Oportet exaltari Filium hominis, sicut Moyses exaltavit serpentem in deserto.

Jo 3,14, Evangelho da Terça-feira após o II Domingo da Páscoa

Meditação mariológica a partir das leituras da Terça-feira após o II Domingo da Páscoa (Jo 3,7-15)

«E assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que n’Ele crer tenha a vida eterna», (Jo 3,14-15). Esta passagem do diálogo com Nicodemos transporta-nos do nascimento do alto, tema de ontem, para o fundamento desse nascimento: a Cruz como exaltação do Filho do Homem. E é aqui que a mariologia encontra o seu núcleo mais dramático: Maria ao pé da Cruz é a mãe dos que olham para o Filho levantado e são curados.

A tipologia bíblica é densa: em Nm 21,4-9, os israelitas foram picados por serpentes venenosas. Deus ordena a Moisés que faça uma serpente de bronze e a levante num poste, quem olhar para ela, viverá. A serpente levantada prefigura o Cristo crucificado. E há, neste quadro tipológico, um lugar para a mulher que esteve ao pé do poste, não como decoração mas como co-ofertante.

I. A tipologia do levantamento

A exegese joânica identificou com precisão o nexo entre Jo 3,14 e Jo 12,32-34: «E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim». O «levantamento» (hypsōthēnai) é simultaneamente a elevação física na Cruz e a glorificação celeste. João une os dois sentidos: a Cruz é já a glorificação. O oportet, «é necessário», indica um desígnio divino incontornável: a salvação passa obrigatoriamente pelo levantamento do Filho.

No quadro tipológico de Nm 21, o poste (nēs em hebraico, sēmeîon na LXX, «sinal») antecipa a Cruz como sinal de salvação. Quem olha para a serpente de bronze é curado. Quem olha para o Cristo crucificado recebe a vida eterna. A contemplação do Crucificado é o acto salvífico fundamental.

E Maria está ao pé do poste. Jo 19,25: «Junto à cruz de Jesus estavam a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Clopas e Maria Madalena». A Mãe é a primeira a olhar para o Filho levantado, e a olhar com os olhos da fé que não se escandaliza. O Directório sobre a Piedade Popular (2002, n. 153) afirma que a «associação da Mãe ao Filho crucificado» é o modelo de toda a participação cristã na Cruz.

II. O «stabat Mater» e a contemplação do Crucificado

«Stabat Mater dolorosa / iuxta Crucem lacrimosa / dum pendebat Filius». A famosa sequência de Jacapone da Todi (séc. XIII), cantada na liturgia da festa de Nossa Senhora das Dores (15 Set) e na Sexta-feira Santa, descreve a postura de Maria ao pé da Cruz: stabat, «estava de pé». Não caída, não fugidia, de pé, em contemplação activa do Filho levantado.

A mariologia pascal interpreta o stabat de Maria como «postura litúrgica», não mero facto histórico mas atitude teológica: O stabat de Maria é, na gramática teológica de João, uma postura litúrgica.Maria está ao pé da Cruz como quem celebra a Liturgia definitiva: oferece o Filho ao Pai, une o seu sofrimento ao sofrimento redentor, recebe em troca a maternidade espiritual universal («Mulher, eis o teu filho», Jo 19,26).

A compassio de Maria é o co-sofrimento, não como sentimentalismo materno mas como participação teológica na oferta de Cristo: Maria não é apenas a mãe que sofre ao ver o Filho morrer, é a co-ofertante que une a sua vontade à vontade do Filho que se entrega ao Pai. Esta distinção é crucial: a mariologia não afirma uma co-redenção formal, mas uma associação voluntária à oblação de Cristo (LG 58).

III. «Para que todo o que n’Ele crer tenha a vida eterna»

«Para que todo o que n’Ele crer tenha a vida eterna» (Jo 3,15). A visão do Filho levantado gera a fé. A fé gera a vida eterna. Maria, que contemplou o Filho levantado com fé inabalável, é a primeira a receber este fruto. A sua Assunção, definida dogmaticamente por Pio XII na Munificentissimus Deus (1950), é precisamente este fruto: Aquela que olhou para o Filho levantado sem desviar os olhos recebeu a vida eterna no seu corpo inteiro, sem aguardar o fim dos tempos.

O nexo entre a Cruz (Jo 3,14) e a Ressurreição é condensado em Maria: ela viveu o oportet exaltari do Filho e recebeu o fruto do levantamento antes de todos. A Assunção é a resposta de Deus ao stabat de Maria, estiveste de pé ao pé da Cruz. Eu te levantarei comigo!

LG 58 afirma que Maria «avançou na peregrinação da fé e manteve fielmente a sua união com o Filho até à Cruz». Esta fidelidade da peregrinatio fidei tem o seu momento mais alto, e mais obscuro, ao pé da Cruz. E é precisamente desta fidelidade que nasce a Assunção.

IV. «Assim como Moisés», a tipologia que Maria habita

A tipologia bíblica que Jesus apresenta a Nicodemos tem, na tradição patrística, uma leitura mariológica. Ireneu de Lyon (séc. II) formulou a tipologia Eva/Maria: como Eva participou na queda ao pé da árvore do paraíso, Maria participou na redenção ao pé da árvore da Cruz. O «poste» de Moisés, a «árvore» do paraíso e a «Cruz» de Cristo formam uma cadeia tipológica em que a mulher tem sempre um papel determinante.

Maria não é a serpente de bronze, ela é aquela que a contempla com fé perfeita e que, ao contemplar, torna possível que o Filho seja olhado por todos. Ela é, na linguagem do sub tuum praesidium (séc. III), a Theotókos que protege sob o seu manto os que olham para o Filho levantado e precisam de ser curados.

Convidamo-vos a concluir esta semana da Oitava da Páscoa contemplando Maria ao pé do Filho levantado: não a Maria do sofrimento passivo, mas a Maria do stabat activo, que olhou para o Filho levantado e nunca desviou os olhos. Que a nossa fé pascal seja modelada por esta contemplação silenciosa e inquebrantável.

Prof. Daniel Afonso

Roma, 14 de Abril de 2026

Daniel Afonso

Prof. Dr. Daniel Cerqueira Afonso é mariologista e teólogo, Doutor em Teologia Sagrada com especialização em Mariologia pela Faculdade Teológica Marianum (Roma, 2017). Membro correspondente da Academia Mariana Internacional Pontifícia (AMISM) desde 2012. Fundador e Presidente do Locus Mariologicus — primeiro centro de formação em Mariologia em língua portuguesa.

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